“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.”
John Stuart Mill
Para fugir do imenso calor lisboeta pode-se procurar refúgio em Museus: locais de temperatura aprazível e sem grandes ajuntamentos.
Encontra-se, temporariamente, no Museu Gulbenkian uma exposição do pintor Henri Fantin-Latour (1836-1904) que vale mesmo a pena ser visitada (para mais informações ver aqui e aqui).
Destaco, dos quadros expostos, A Leitura (1870, Óleo sobre tela, 95 x 123 cm).
Outro local visitável é o Museu Berardo (no Centro Cultural de Belém), nomeadamente a exposição Arriscar o real, onde poderá apreciar, além da obra apresentada na imagem seguinte, objectos como cortinas, telas pintadas de uma só cor, por exemplo.
Após a experiência de contactar, nos dois museus, com objectos tão distintos – todos eles designados como “obras de arte” - pode-se colocar a questão:
Qualquer objecto pode ser uma obra de arte ou deverá possuir determinadas características para ser assim considerado?
Para ajudar a responder a esta pergunta filosófica e a muitas outras (sem o discurso pretensioso que, por vezes, é adoptado por quem trata estes assuntos), sugiro a leitura do livro: O que é a arte, de Nigel Warburton, da Editora Bizâncio (para saber mais clicar aqui).
O actor e humorista Raul Solnado faleceu sábado de manhã no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, aos 79 anos. O funeral foi hoje em Lisboa. Segundo o jornal Público, quando o carro funerário chegou à entrada do cemitério dos Olivais várias centenas de pessoas bateram palmas. Merecidas, sem dúvida!
Aires Almeida publicou, no Crítica: blog, um texto chamado A natureza do humor em que esboçou as “três principais teorias filosóficas sobre a natureza do humor: a teoria da superioridade, a teoria da incongruência e a teoria da libertação”.
Leia o texto e tente classificar o humor de Raul Solnado, nomeadamente o humor do genial sketch “A guerra de 1908”, que pode ouvir no vídeo – superioridade, incongruência ou libertação?
Sabia da existência da Amy Winehouse, mas até o Verão passado nunca tinha ouvido as suas canções. Os meus gostos musicais não têm muito a ver com o que passa actualmente na MTV, nem com aquilo que os adolescentes actuais ouvem. Além disso, todo o folclore (que percebia vagamente pelos jornais) à volta da sua vida pessoal e o facto de vender muito (às vezes sinónimo de uma boa estratégia de marketing e não de boa música) eram motivos suficientes para não ter curiosidade.
Até que, por acaso, entrei numa loja cuja música de fundo era cantada por uma voz de que gostei particularmente. De tal forma que resolvi perguntar ao empregado, ainda com aspecto adolescente, de quem era. Ele, com um olhar incrédulo, informou-me que era da Amy Winehouse. Descobri, então, um raro gosto musical em comum com alguns (julgo que muitos) adolescentes.
Esta situação fez-me pensar no modo como os preconceitos que possuímos à partida condicionam, sem nos darmos conta disso, não só os nossos juízos estéticos como, certamente, muitos outros aspectos da nossa vida.
Na fotografia alguns alunos estão sentados a observar a projecção do filme na tela. Outros encontram-se atrás da tela.
No decorrer da visita de estudo a Lisboa, no passado dia 28 de Janeiro, tive a oportunidade de observar quadros, monumentos e algumas “instalações”, por exemplo no Museu Berardo, que suscitaram o meu interesse.
A obra de arte que mais gostei foi uma instalação e consistia no seguinte: numa sala isolada vazia e escura (a última da exposição “Não te posso ver nem pintado”) encontrava-se uma tela de projecção grande, onde passava um filme a preto e branco, representando (numa paisagem desértica só com areia em fundo) uma mulher vestida de preto que marcava o seu próprio espaço, desenhando continuamente, com recurso a um pau, um círculo à sua volta. Este vídeo, da autoria duma artista iraniana Anahita Bataihe, chama-se “Círculo”.
Essa instalação pretende transmitir a enorme necessidade que temos de possuir o nosso próprio espaço, tanto objectivo como subjectivo: a representação do espaço físico e a consciência relativa ao mesmo.
Geralmente, a invasão desse espaço físico é experienciada como uma intromissão na nossa intimidade - o que pode justificar uma reacção negativa da nossa parte em relação às outras pessoas. É um facto compreensível: reagimos mal quando não nos respeitam e invadem esse espaço, pois estão a invadir a nossa privacidade.
Do meu ponto de vista, cada um de nós tem o seu espaço e o mesmo deve ser respeitado pelos outros, independentemente de quem somos - da nossa presença física e das nossas atitudes e valores - ou do nosso estatuto social.
Independentemente do quão importante sejamos, a verdade é que nós precisamos desse espaço. O mesmo é-nos fundamental para que possamos viver em harmonia com os restantes indivíduos. A necessidade que temos desse espaço físico privado - que não deve ser invadido pelos outros - está patente no nosso dia-a-dia e no desencadear de cada acção e de cada atitude.
Existimos e, por isso, necessitamos de possuir o nosso espaço físico, este é uma condição necessária para termos oportunidade de definir o que somos e o lugar que queremos ocupar no mundo.
Os alunos da turma G do 10º ano efectuaram uma visita de estudo (ver aqui e aqui) ao Museu Calouste Gulbenkian e ao Museu Berardo.
Esta actividade interdisciplinar envolveu diferentes disciplinas: História, Espanhol, Inglês e Filosofia. No caso desta, pedi aos alunos que elaborassem um pequeno texto reflexivo sobre a visita. Não forneci quaisquer outras indicações, nem um enquadramento filosófico no âmbito da Estética.
Estes trabalhos resultam de uma escolha pessoal dos alunos e de uma reflexão sobre o que experienciaram na visita.
O primeiro texto foi elaborado pelas alunas Inês Belo e Victoria Zoriy; o segundo (no post seguinte) e também a fotografia são da autoria do aluno David Diogo.
O quadro “Judy Garland” de Andrew Warhol (mais conhecido por Andy Warhol).
Há a música, a dança, a pintura, a escultura, o teatro, a literatura e o cinema: sete artes, sete maneiras distintas de exprimir emoções, ideias e até opiniões. No fundo, a arte desempenha o papel de "espelho do artista", desvendando através de algo exterior, que pode ser captado pelos sentidos do espectador, o interior do artista, pois é através dela que o mesmo se exprime.
Arte é "tudo o que quisermos que seja". Somos capazes de ser, ao mesmo tempo, criadores e apreciadores da nossa arte. Umas vezes chocante, outras indiferente, tranquilizadora ou excitante, despertando em nós os mais variados sentimentos e interesses.
A obra de arte que vamos analisar é uma pintura: uma forma de transmitir emoções e opiniões, não em palavras, mas em imagens. Estas podem, por exemplo, contar histórias, retratar o passado, presente e futuro de tudo o que nos rodeia. Mas se a pintura se limitasse apenas a retratá-los, deixando indiferente o espectador, que interesse teria?
Do nosso ponto de vista, todo este exercício de aprender a olhar implica antes de mais saber o que são obras de arte e como se pode vê-las. É primordial saber por que razão este “saber&ver&olhar” deve ser feito e esta encontra-se dentro de cada indivíduo. Enquanto avançávamos por salas do Museu Berardo, povoadas de rostos e figuras, na verdade, individualmente, encarregávamo-nos da interpretação das obras expostas, relacionando-as com as nossas vivências, conhecimentos e sentimentos.
Vejamos, por exemplo, o quadro de Andrew Warhol, aqui apresentado: cada traço entoa a beleza própria e única de uma mulher. No entanto, se formos mais além, observando-o com outros olhos, mais atentos, notamos que o presente quadro capta na perfeição o que é a sociedade consumista. O elemento denunciador, do que o quadro realmente representa, é precisamente a técnica usada na produção do mesmo - a serigrafia - sendo esta uma das principais características da Pop Arte. Esta, entre outras características, tem como interesse central a produção de imagens e objectos em massa destinados à sociedade de consumo, como é notório nesta pintura: a imagem da actriz como um objecto de consumo, cuja existência depende da aparição e repetição.
É hábito dizer-se que o consumo é o fim material de toda a actividade humana. Ora, é importante salientar que a nossa vida é influenciada, em grande medida, pela publicidade; esta, por sua vez, é feita unicamente com base nos “interesses” dos consumidores. Esta é uma análise possível que podemos fazer a partir da observação do quadro, ao tentarmos perceber o que Andrew Warhol tentava transmitir, há, naturalmente, outras possibilidades de interpretação.
Podemos concluir, por isso, que a mulher nele representada (Judy Garland) não é tratada aqui como ser humano único e irrepetível que é, mas como objecto de consumo. Será isto correcto? Se pensarmos na sociedade da altura (1979), comparando-a com a actual, notamos que a atitude consumista, da generalidade das pessoas, tem vindo a agravar-se cada vez mais, trata-se, então, de um ciclo vicioso – quanto mais consumimos, mais necessidade temos de consumir. Esta insatisfação, torna necessário o nosso confronto permanente com as imagens, neste caso de Judy Garland, para que o objecto representado tenha existência. Mas a realidade representada terá existência fora da imagem?
De entre tantos traços imaginários e espirituais que podem ser associados a uma obra de arte, esta engrandece a vida ao representá-la, por vezes, de forma mais extravagante do que a mesma se apresenta. A importância de cada obra de arte é relativa a cada indivíduo, depende do seu olhar e da sua capacidade de ver. Logo, enriquece-o também de uma forma relativa, não se limitando apenas ao objecto representado que pode ser captado pelos nossos sentidos.
Há dias atrás, depois de uma aula em que – para ilustrar o argumento céptico da divergência de opiniões - exemplificámos algumas das teses, argumentos e contra-argumentos envolvidos nos debates acerca do aborto e do casamento dos homossexuais, estava no carro a ouvir as “Four Last Songs” de Richard Strauss cantadas por Jessye Norman.
Uma senhora, que estacionou o seu carro ao lado do meu, ao ouvir a música disse para a filha: “Joana, estás a ouvir uma mulher a gritar?”
Deixo ao leitor duas perguntas a propósito de mais esta divergência de opiniões:
Música sublime ou gritaria?
Para responder, clique na imagem, ouça a música e – por favor – não suspenda o juízo!
No post “O argumento céptico da divergência de opiniões” referi que uma possível objecção contra esse argumento é o facto das divergências de opinião – contrariamente àquilo que é sugerido pelos cépticos - não serem insuperáveis.
Se em Portugal existisse um ensino da música digno desse nome, seria ou não provável que existissem mais pessoas a gostar da chamada “música clássica” em vez de a considerar mera gritaria?
(Um elemento factual útil para quem queira responder a essa questão. Tanto quanto sei, a referida senhora é uma pessoa inteligente e tem, até, hábitos culturais diversos e frequentes.)
“Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e com maior assiduidade delas se ocupa a reflexão: O céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim.
Não as hei-de procurar e simplesmente presumir a ambas como envoltas em obscuridades ou no transcendente, fora do meu horizonte; vejo-as perante mim e religo-as imediatamente com a consciência da minha existência.”
A imagem pretende ilustrar o “céu estrelado” que despertava a admiração de Kant e é uma reprodução do célebre quadro “A noite estrelada”, de Vincent van Gogh (pintado em 1889). Peço desculpa às caras leitoras e aos caros leitores por não ter conseguido encontrar nenhuma imagem capaz de ilustrar a lei moral.