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terça-feira, 19 de junho de 2012

Exame nacional de Filosofia: temas do 11º ano

1. Argumentação e lógica formal. Lógica proposicional – percurso B

Qual é a utilidade do estudo da Lógica?

A relação entre verdade e validade

Validade dedutiva

Proposições contraditórias: análise de exemplos

Preparação para o teste intermédio: Ficha nº 1

(as variáveis proposicionais, os operadores verofuncionais e as tabelas de verdade)

Preparação para o teste intermédio: Ficha nº 2

(a formalização de proposições e o âmbito dos operadores)

Disjunção inclusiva ou exclusiva?

Condições necessárias e suficientes: análise de um exemplo

A negação de proposições condicionais

Disjunção inclusiva: Nat King Cole ou Stan Getz

Afirmação da antecedente e negação da consequente

Estudar Filosofia: evita choques elétricos e malentendidos no namoro

2. Falácias informais e argumentos não dedutivos

Falácias informais do apelo à ignorância, da derrapagem e do boneco de palha

Guia das falácias de Stephen Downes

Análise filosófica de um anúncio publicitário (1)

Análise filosófica de um anúncio publicitário (2)

Um cartaz político falacioso (3)

Se nós desistirmos, eles também desistem?

O mal deve-se a Deus ou ao homem?

Dois exemplos de argumentos falaciosos a não seguir

Qual é a falácia?

Trabalhos dos alunos: Falácias na política

Trabalhos de alunos sobre falácias informais

Exemplos da falácia do apelo à ignorância

Ficha de Revisão: falácias informais

Ficha de revisão: identificação de argumentos não dedutivos

Quais são as falácias informais usadas pelas personagens do vídeo?

Falácias informais utilizadas na publicidade - exercício de aplicação

A falácia do apelo ao povo

A utilização de falácias informais na publicidade: apelo à autoridade não qualificada e apelo ao povo

Argumento por analogia

Generalizações e previsões

Ficha de Trabalho

(sobre os diferentes tipos de argumentos)

Ficha de revisão: identificação de argumentos não dedutivos

3. Argumentação, retórica, filosofia e democracia

Sofista ou surfista?

O tempo até pode ser relativo, mas a verdade não

O que é a democracia?

Sobre o poder da retórica

Retórica e democracia: Ficha de trabalho

A retórica, os sofistas e Platão: Ficha de trabalho

Filosofia, retórica e democracia: síntese das aulas do 11º ano

4.Teorias explicativas do conhecimento: Descartes e Hume

Descartes:

Textos sobre o ceticismo

Uma dúvida inspiradora para os alunos do 11º ano

A dúvida metódica (este deveria ter sido o primeiro post deste blogue)

Um mar de dúvidas

Razões para duvidar, segundo Descartes

Como é que Descartes pretendeu ultrapassar o ponto de vista dos cépticos

O solipsismo e a necessidade de Deus no sistema cartesiano

Descartes: argumentos para provar a existência de Deus

A objeção de Kant ao argumento ontológico: a existência não é um predicado

O argumento ontológico: diálogo entre um crente e um ateu

Objeção ao argumento da marca: criar a ideia de perfeição é diferente de criar a própria perfeição

O “Deus dos filósofos” e o “Deus da fé”

Críticas a Descartes: Ficha de trabalho

Descartes e a Matemática

Os conceitos cartesianos de intuição e dedução

A matemática é a priori mas não é inata

Cartoons cartesianos

Hume:

Impressões e ideias

Cegos que começam a ver: impressões e ideias

Como se originou, segundo Hume, a ideia de Deus?

O problema da causalidade

A causalidade segundo Hume

A crença na causalidade é instintiva

As superstições e a crítica de Hume à ideia de causalidade

A minha vida é real: conhecimento ou mera crença?

A abdução ou argumento a favor da melhor explicação

5. Senso comum e conhecimento científico

O senso comum não basta para compreender o mundo

Exemplos de explicações científicas

Algumas diferenças entre o senso comum e a ciência

Dormir bem pode melhorar os resultados escolares

Há boas razões para acreditar na ciência e não nos milagres

Refutação humorística da homeopatia

Ver com com distanciamento

O poder da ciência ao serviço do poder político?

Como é que uma criança decide tornar-se cientista?

2 Fichas de trabalho: o método e a objectividade na ciência

6. Kuhn e Popper

As teorias científicas são falsificáveis

Verificabilidade e falsificabilidade – alguns exemplos

Ou seja, uma investigação não começa com a observação

O refereeing ou arbitragem científica

A palavra ‘provado’ devia ser usada com mais cuidado!

Ascenção e queda das teorias científicas

Razões para considerar a homeopatia uma pseudociência

O que pode a ciência provar?

O que é fazer ciência? - A perspectiva de Einstein

A objetividade e a evolução da ciência, segundo Kuhn

quinta-feira, 22 de março de 2012

A causalidade segundo Hume

image

“Todos os nossos raciocínios relativos a questões de facto, defende Hume, se baseiam na relação de causa e efeito. Mas como chegamos ao nosso conhecimento das relações causais? (…) Ao olhar apenas para a pólvora, nunca poderíamos descobrir que é explosiva; é preciso experiência para saber que o fogo queima as coisas. Mesmo as mais simples regularidades da natureza não poder estabelecidas a priori porque uma causa e um efeito são dois acontecimentos totalmente diferentes e um não pode ser inferido do outro. Vemos uma bola de bilhar a mover-se na direcção de outra e esperamos que transmita movimento à outra. Mas porquê?

A resposta, obviamente, é que descobrirmos as regularidades da natureza através da experiência. Mas Hume leva a sua indagação mais além. Mesmo depois de termos a experiência das operações de causa e de efeito, pergunta, que bases existem na razão para inferir conclusões dessa experiência? A experiência apenas nos dá informação sobre ocorrências passadas: porque haveria de ser alargada a objectos futuros, que, tanto como sabemos, só se assemelham aos objectos passados na aparência? O pão alimentou-me no passado, mas que razões tenho para acreditar que o irá fazer no futuro?"

Anthony Kenny, Ascenção da Filosofia moderna, Edições Gradiva, Lisboa 2011, págs. 170-171.

Como se podem tentar refutar as ideias que Hume defende?

segunda-feira, 5 de março de 2012

Estudar para o 4º teste do 11º ano: os céticos, Descartes e Hume.

Seguem-se links para textos e outro tipo de recursos existentes no Dúvida Metódica sobre o cepticismo, Descartes e David Hume. 

Bom estudo! :)

1. Cepticismo radical:

Textos sobre o cepticismo

Uma dúvida inspiradora para os alunos do 11º ano

2. Descartes:

A dúvida metódica (este deveria ter sido o primeiro post deste blogue)

Um mar de dúvidas

Razões para duvidar, segundo Descartes

Como é que Descartes pretendeu ultrapassar o ponto de vista dos cépticos

O solipsismo e a necessidade de Deus no sistema cartesiano

Descartes: argumentos para provar a existência de Deus

A objecção de Kant ao argumento ontológico: a existência não é um predicado

O argumento ontológico: diálogo entre um crente e um ateu

Objecção ao argumento da marca: criar a ideia de perfeição é diferente de criar a própria perfeição

O “Deus dos filósofos” e o “Deus da fé”

Críticas a Descartes: Ficha de trabalho

Descartes e a Matemática

Os conceitos cartesianos de intuição e dedução

A matemática é a priori mas não é inata

Cartoons cartesianos

Como aplicar ideias da Física ao marketing

3. David Hume:

Impressões e ideias

Cegos que começam a ver: impressões e ideias

Como se originou, segundo Hume, a ideia de Deus?

O problema da causalidade

A crença na causalidade é instintiva

As superstições e a crítica de Hume à ideia de causalidade

A minha vida é real: conhecimento ou mera crença?

4. Testes de Filosofia aplicados no ano letivo anterior.

Testes de Filosofia do 11º ano aplicados no 2º período

sábado, 12 de março de 2011

Textos sobre o cepticismo, Descartes e Hume

Seguem-se links para textos e outro tipo de recursos existentes no Dúvida Metódica sobre o cepticismo, Descartes e David Hume. Esperamos que vós possam úteis.

Bom estudo! :)

1. Cepticismo

Textos sobre o cepticismo

Uma dúvida inspiradora para os alunos do 11º ano

2. Descartes

A dúvida metódica (este deveria ter sido o primeiro post deste blogue)

Um mar de dúvidas

Razões para duvidar, segundo Descartes

Os sonhos de Akira Kurosawa: cinema em tempo de lazer (2)

O solipsismo e a necessidade de Deus no sistema cartesiano

Descartes: argumentos para provar a existência de Deus

A objecção de Kant ao argumento ontológico: a existência não é um predicado

O argumento ontológico: diálogo entre um crente e um ateu

Objecção ao argumento da marca: criar a ideia de perfeição é diferente de criar a própria perfeição

O “Deus dos filósofos” e o “Deus da fé”

Críticas a Descartes: Ficha de trabalho

Como é que Descartes pretendeu ultrapassar o ponto de vista dos cépticos

Descartes e a Matemática

Os conceitos cartesianos de intuição e dedução

A matemática é a priori mas não é inata

Cartoons cartesianos

Como aplicar ideias da Física ao marketing

3. David Hume

Impressões e ideias

Cegos que começam a ver: impressões e ideias

Como se originou, segundo Hume, a ideia de Deus?

O problema da causalidade

A crença na causalidade é instintiva

As superstições e a crítica de Hume à ideia de causalidade

A minha vida é real: conhecimento ou mera crença?

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Milagre??

aparição de nossa senhora aos 3 pastorinhos fatima

Milhões de pessoas acreditam que no dia 13 de Maio de 1917 Nossa Senhora apareceu em Fátima a três crianças que pastavam as suas ovelhas e acreditam que reapareceu novamente a 13 de Outubro do mesmo ano tendo então realizado um milagre observado por cerca de 70 mil pessoas: o Sol moveu-se, parecendo cair sobre as pessoas antes de regressar ao seu lugar.

milagre-do-sol em FátimaLevadas por essa crença muitas pessoas, incluindo o Papa Bento XVI, foram hoje, 13 de Maio de 2010, a Fátima e muitas outras assistirão às cerimónias pela televisão. Talvez não fizesse mal essas pessoas reflectirem um pouco acerca da plausibilidade ou implausibilidade dos milagres. As ideias David Hume são um bom ponto de partida para o efeito.

David Hume chama milagre a uma violação das leis da natureza e não a um mero acontecimento raro. Por exemplo: não é milagre um homem saudável morrer subitamente, mas será milagre se um homem morto voltar à vida. Por vezes há pessoas que declaram ter presenciado milagres. Porém, argumenta Hume, nenhum testemunho é suficiente para demonstrar a existência efectiva de um milagre, a não ser que o testemunho seja tal que a sua falsidade seja ainda mais “miraculosa” (ou seja, mais improvável) do que o facto testemunhado. Assim, se alguém nos disser que viu um homem morto regressar à vida, devemos tentar perceber o que é mais provável: 1) essa pessoa estar a enganar-nos deliberadamente ou estar enganada sem saber, ou 2) o facto por ela narrado ter realmente acontecido. Devemos comparar os dois “milagres” e rejeitar o “milagre” maior. Ou seja: se a falsidade do seu testemunho for ainda mais ”miraculosa” e improvável do que o regresso de um morto à vida então, e só então, devemos acreditar que o morto regressou à vida. Todavia, em todos os casos tornados públicos até hoje a improbabilidade do testemunho ser falso nunca é superior à improbabilidade da ocorrência do acontecimento.

Richard Dawkins analisou, à luz desse critério de David Hume, o suposto milagre de Fátima:

“Por um lado, é-nos pedido que acreditemos numa alucinação em massa, num artifício de luz ou numa mentira colectiva envolvendo 70 000 pessoas. Isto é reconhecidamente improvável, mas é menos improvável do que a alternativa: que o Sol realmente se moveu. O Sol que estava sobre Fátima não era, afinal, um Sol privado: era o mesmo Sol que aquecia todos os outros milhões de pessoas no lado do planeta em que era dia. Se o Sol se moveu de facto, mas o acontecimento só foi visto pelas pessoas de Fátima, então teria de se ter dado um milagre ainda mais notável: teria de ter sido encenada uma ilusão de não-movimento relativamente a todos os milhões de testemunhas que não estavam em Fátima. E isso se ignorarmos o facto de que, se o Sol se tivesse realmente deslocado à velocidade referida, o sistema solar se teria desintegrado.”

Os milhões de pessoas que acreditam no milagre de Fátima acreditam, portanto, numa falsidade.

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Bibliografia:

David Hume, Investigação sobre o entendimento humano, Edições 70, 1985, Lisboa (pp. 111-113, capítulo X, ‘Dos Milagres’).

Richard Dawkins, “O milagre de Fátima”, Crítica: Revista de Filosofia, http://criticanarede.com/html/fil_milagre.html.

sábado, 27 de junho de 2009

Não é só em Fátima que ocorrem falsos milagres…

Membros das sociedades espanhola e francesa de Matemática ouvidos pelo jornal Expresso consideraram os exames de Matemática que têm sido feitos em Portugal “fáceis ou muito fáceis”.

Leia mais no blogue A Educação do Meu Umbigo, onde entre outros dados poderá encontrar o quadro a seguir apresentado.

Este quadro mostra claramente quando é que esse facilitismo começou. O caro leitor faça o favor de comparar esses dados com o discurso do governo. Que conclusão tira?

o falso milagre da matemática

Para ajudar a justificar a conclusão referida talvez seja útil o leitor reflectir acerca destas palavras de David Hume:

“nenhum testemunho é suficiente para demonstrar um milagre, a não ser que o testemunho seja de natureza tal que a sua falsidade seja mais milagrosa do que o facto que tenta demonstrar”. Ou seja: perante um pretenso milagre só deveremos acreditar nele se as explicações alternativas forem ainda mais inacreditáveis (mais “milagrosas”) que o próprio milagre.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Matriz do 5º teste de Filosofia do 11º Ano (turmas B, D, E e F)

Temas:

A resposta de Descartes ao desafio céptico. A teoria do conhecimento de David Hume. Senso comum e conhecimento científico. O problema da demarcação: o critério verificacionista e o critério falsificacionista.

Matriz do 5º teste 11 C09

Matriz do 5º teste 11 C09 - 3

terça-feira, 12 de maio de 2009

A crença na causalidade é instintiva

“Tendo achado, em muitos casos, que quaisquer duas espécies de objectos – chama e calor, neve e frio – estiveram sempre combinados, se a chama ou a neve se apresentarem de novo aos sentidos, a mente é levada pelo costume a esperar o calor ou o frio e a crer que uma tal qualidade existe e se descobrirá após uma abordagem mais directa.

Esta crença é o resultado (…) de se colocar a mente em tais circunstâncias. É uma operação da alma [mente] (…) tão inevitável como sentir a paixão do amor, ao recebermos benefícios; ou do ódio, quando nos defrontamos com injúrias. Todas estas operações são uma espécie de instintos naturais, que nenhum raciocínio ou processo do pensamento (…) consegue originar ou impedir.”

David Hume, Investigação sobre o entendimento humano, Edições 70, Lisboa, 1985, pp. 50-51.

Chama vela Ou seja. Podemos observar, podemos ter impressões de duas coisas, como por exemplo a chama e o calor, mas não da conexão causal entre ambas. Consideramos que uma é causa da outra apenas porque observámos muitas vezes que uma se segue à outra (conjunção constante) e nos acostumámos a esperar que o mesmo suceda da próxima vez. Todavia, não consideramos que se trate apenas de um fenómeno psicológico: acreditamos que existe realmente uma conexão causal entre elas. Porque é que acreditamos nisso? Instinto, diz David Hume.

domingo, 10 de maio de 2009

O problema da causalidade

«Talvez um exemplo concreto possa ajudar a compreender o modo como David Hume abordou o problema da causalidade.

Imagine um bebé a quem os pais sempre tenham dado brinquedos macios e moles para se entreter. Esse bebé atira frequentemente os brinquedos para fora do berço, e eles caem no chão com um baque surdo. Um dia, o tio dá-lhe uma bola de borracha. O bebé examina-a de todos os ângulos, cheira-a, mete-a na boca, apalpa-a, depois deixa-a cair. Não obstante o exame cuidadoso a que submeteu a bola, o menino não tem maneira de saber que, em vez de cair suavemente no chão como os outros brinquedos, ela salta. Só pelo exame de uma coisa, diz-nos Hume constantemente, não poderemos dizer quais os efeitos que ela pode produzir. Só podemos determinar as suas consequências em resultado da experiência.bola de borracha

Imagine agora que o tio do menino ficou à espera de ver como brincaria ele com o seu presente. Quando o tio vê a bola cair, espera que ela salte. Se você lhe perguntar o que fez a bola saltar, ele responderá: ‘O meu sobrinho deixou-a cair’; ou ainda: ´Há uma conexão necessária entre deixar cair uma bola e ela saltar’.

Mas Hume faz uma pergunta mais profunda. Qual é a experiência que o tio tem e que falta à criança? O tio faz uso de conceitos como ´causa’ e ‘conexão necessária’. Se não se tratar apenas de palavras vazias, têm de se reportar de algum modo à experiência. Mas qual é, no caso presente, a experiência? A experiência do tio difere da experiência do sobrinho em quê?

A diferença consiste, para Hume, num facto simples. Ao contrário do sobrinho, o tio pôde observar, num grande número de casos, primeiro uma bola de borracha cair ao chão e, depois, o salto que ela dá. Na verdade, nunca na sua experiência houve um só caso em que uma bola de borracha tenha sido deixada cair numa superfície dura sem saltar, ou uma bola de borracha tenha começado a saltar sem primeiro ter caído ou ter sido atirada. Segundo Hume, há uma ‘conjunção constante’ entre a queda da bola e o salto que dá.

Mas como é que essa diferença de experiências entre o tio e o sobrinho engendra conceitos como ´causa’ e ‘conexão necessária’? O tio viu uma bola de borracha cair ao chão e saltar em muitas ocasiões, enquanto o sobrinho só viu isso acontecer uma vez. Todavia, o tio não viu nada que o sobrinho não tivesse visto também, apenas teve mais vezes a mesma sequência de experiências. Ambos observam que uma bola cai e depois salta – nada mais. O tio, porém, acredita que há uma conexão necessária entre a bola cair e saltar. E isto não é alguma coisa que ele encontre na sua experiência; a sua experiência é a mesma que a do sobrinho, só que se repetiu muitas vezes. Então, donde vem a ideia de uma conexão necessária, de uma ligação causal, se nunca foi directamente observada?

A ideia de que existem conexões causais entre os acontecimentos tem um papel importante no modo como compreendemos o mundo. Mas, quando vamos atrás desta ideia com seriedade , descobrimos que a conexão causal não é uma coisa que tenhamos alguma vez observado concretamente. Podemos dizer que o acontecimento A causa o acontecimento B , mas, quando examinamos a situação, descobrimos que é o acontecimento A seguido do acontecimento B aquilo que de facto observámos. Não existe uma terceira entidade, uma ligação causal, que também seja observada. Donde vem então essa ideia?»

Adapatado a partir de: Bryan Magee, Os grandes filósofos, Editorial Presença, Lisboa, 1989, pp. 141-143.

O livro Os grandes filósofos baseia-se numa série de programas de televisão transmitidos pela BBC em 1987. No programa sobre David Hume Bryan Magee conversou com John Passmore.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Cegos que começam a ver: impressões e ideias

David Hume, à semelhança dos outros filósofos empiristas, considerava que todas as ideias derivam (directamente ou indirectamente, consoante são simples ou complexas) da experiência. São cópias das impressões e sem estas não se podem formar. Eis as palavras do próprio:

cega ao espelho“Se acontecer que um homem, em virtude de um defeito dos órgãos, não é susceptível de qualquer espécie de sensação, vemos sempre que ele é igualmente pouco susceptível das ideias correspondentes. Um homem cego não pode formar nenhuma ideia das cores, e um surdo dos sons. Restitua-se a cada um deles o sentido em que é deficiente; franqueando esta nova entrada para as suas sensações, patenteia-se também uma entrada para as ideias, e ele não encontra dificuldade alguma em conceber esses objectos.”

David Hume, “Investigação sobre o entendimento humano”, Edições 70, Lisboa, 1985, pp. 25-26.

O neurologista Oliver Sacks, em “Ver e não ver” (capítulo do livro “Um antropólogo em Marte”) descreve vários casos de pessoas a quem foi restituído “o sentido em que é deficiente” – no caso, a visão. As suas observações, e as de muitos outros estudiosos, parecem confirmar a ideia de Hume segundo a qual, pelo menos nos casos analisados, se não houver impressões não se consegue formar as ideias correspondentes. (Mas poderemos garantir que isso se passa necessariamente com toda e qualquer ideia?)

O que não é de modo nenhum confirmada é a afirmação de Hume que, após a restituição do sentido em falta, o indivíduo “não encontra dificuldade alguma em conceber esses objectos.” Com efeito, os indivíduos a quem foi restituída a visão revelaram enormes dificuldades em formar ideias a partir das suas recentes impressões visuais.

«O filósofo seiscentista William Molyneux, cuja mulher era cega, colocou a seguinte questão ao seu amigo John Locke: ‘Imaginemos um homem cego de nascença, já adulto, que tivesse aprendido através do tacto a distinguir um cubo de uma esfera, a quem fosse restituída a vista: conseguiria ele agora, servindo-se dos olhos, e antes de lhes tocar, distinguir qual era o globo e qual era o cubo?’ Locke ponderou este problema no seu “Ensaio sobre o Entendimento Humano”, de 1690, acabando por decidir que a resposta é não. Em 1709, na sua obra “Uma nova teoria da visão”, George Berkeley examinou esta questão com maior detalhe, integrando-a numa análise globalizante das relações entre a vista e o tacto, e concluiu que não existia forçosamente uma ligação entre o mundo táctil e o mundo visual – e que qualquer ligação entre eles poderia só poderia ser estabelecida com base na experiência.

Ainda não se tinham passado vinte anos e já estas considerações eram postas à prova – quando, em 1728, W. Cheselden, um cirurgião inglês, extraiu as cataratas dos olhos dum rapaz de 13 anos cego de nascença. Apesar da sua grande inteligência e juventude, o rapaz deparou com enormes dificuldades na interpretação das sensações visuais, mesmo as mais simples. Não possuía qualquer noção das distâncias. Não possuía qualquer noção do espaço ou das dimensões. E ficava estranhamente confuso ante a ideia de uma representação bidimensional da realidade. Tal como Berkeley antevira, ele só gradualmente foi sendo capaz de decifrar o que via, e apenas na medida em que conseguia relacionar experiências visuais com outras de natureza táctil. Algo de semelhante aconteceu com muitos outros pacientes nos duzentos e cinquenta anos decorridos desde a operação de Cheselden [até à actualidade]».

Oliver Sacks, “Um antropólogo em Marte”, Relógio D’Água, Lisboa, 1996, pág. 145.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Impressões e ideias

"Hume utiliza o termo ‘percepção’ para referir quaisquer conteúdos da mente (…). As percepções ocorrem quando o indivíduo observa, sente, recorda, sente, recorda, imagina, e assim por diante, sendo que o uso actual da palavra cobre um leque muito menos vasto de actividades mentais. Para Hume, existem dois tipos básicos de percepções: impressões e ideias.

impressão táctil mão a tocar bolo

As impressões constituem as experiências obtidas quando o indivíduo observa, sente, ama, odeia, deseja ou tem vontade de algo. Hume descreve este tipo de percepções como sendo mais ‘vívido’ do que as ideias, termo com que o filósofo parece querer afirmar que as impressões são mais claras e mais pormenorizadas do que as ideias. As ideias, por sua vez, são cópias das impressões. Trata-se dos objectos do pensamento humano quando os indivíduos recordam a sua experiência ou exercitam a sua imaginação. [Como se verá, no primeiro caso são ideias simples e no segundo são ideias complexas.]

Assim sendo, neste preciso momento, por exemplo, tenho uma impressão da minha caneta a movimentar-se pela página e de ouvir alguém a virar as páginas de um livro, atrás de mim, na biblioteca. Tenho, ainda, uma impressão da textura do papel a tocar na minha mão. Estas experiências sensoriais são vívidas (…). Mais tarde, enquanto estiver a escrever estas linhas no meu computador, lembrar-me-ei, sem dúvida, deste momento e recordarei as minhas impressões. Nessa altura, estarei a ter ideias e não impressões, ideias que não serão marcadas pela mesma vividez (ou vivacidade) que caracteriza as impressões que estou a sentir neste momento e das quais as ideias serão cópias.

(…) Segundo Hume, não existem ideias inatas, todas as ideias humanas são cópias de impressões. Por outras palavras, é impossível aos seres humanos ter uma ideia de algo que não tenham primeiro experimentado enquanto impressão.3 sereias

Como lidaria, então, Hume com a capacidade de um indivíduo imaginar uma montanha dourada [ou uma sereia] embora nunca tenha visto uma e, logo, nunca tenha tido a impressão de uma? A resposta baseia-se numa distinção entre ideias simples e ideias complexas. As ideias simples derivam [directamente] das impressões. (…) As ideias complexas são combinações de ideias simples. Deste modo, a ideia de uma montanha dourada nada mais é do que uma ideia complexa composta pelas ideias mais simples de ‘montanha’ e de ‘dourado’. E estas ideias simples derivam, em última análise, da experiência tida pelo indivíduo de montanhas e de objectos dourados.”

Nigel Warburton, “Grandes livros de filosofia”, Edições 70, Lisboa, 2001, pp. 98-99.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

As superstições e a crítica de Hume à ideia de causalidade


A crença nas superstições implica estabelecer nexos causais entre acontecimentos diferentes que não têm qualquer relação entre si. Por exemplo:
Vi um gato preto na rua (causa) e, logo a seguir, parti um pé (efeito).
Tive negativa no teste de Filosofia (efeito) porque este foi realizado numa sexta-feira, dia 13 (causa).
Esta crença em causalidades fictícias tem um fundamento subjectivo (é uma crença irracional do sujeito) e não se baseia nem na experiência nem na razão.
Segundo Hume, as relações causais efectuadas no âmbito do quotidiano e da ciência dependem de factores psicológicos como o hábito e não têm, por isso, uma justificação racional ou empírica. Assim sendo, no âmbito do conhecimento vulgar e do científico, adquirimos a crença que a água vai aquecer com base na experiência passada.
Como é que podemos refutar esta ideia defendida por Hume? Será que podemos mostrar que as explicações científicas estão racionalmente justificadas?

Como se originou, segundo Hume, a ideia de Deus?

hume-david-estatua-em-edimburgo

Estátua do filósofo David Hume (1711-76), em Edimburgo, na Escócia.

De acordo com Hume, todas as ideias que possuímos tiveram origem na experiência, mais precisamente em impressões. Ideias como a de dor, alegria, frio, calor, extraterrestre, anjo, triângulo… resultam da recordação de certas impressões (sensações externas ou internas experienciadas pelo sujeito), consideradas isoladamente ou, então, combinadas entre si com a ajuda da imaginação (por exemplo: a ideia de anjo resulta da junção das impressões de homem e pássaro).

Tal como o filósofo empirista Locke, Hume defende a origem a posteriori das ideias. Tudo o que podemos pensar e imaginar, em última análise, provém do contacto com as coisas do mundo.

E a ideia de Deus? Como se explica a sua formação?

Diz Hume: “ (…) ao analisarmos os nossos pensamentos ou ideias, por mais compostos e sublimes que sejam, sempre descobrimos que elas se resolvem em ideias tão simples como se fossem copiadas de uma sensação ou sentimento precedente. Mesmo as ideias que, à primeira vista, parecem afastadas desta origem, descobre-se, após um escrutínio mais minucioso, serem delas derivadas. A ideia de Deus, enquanto significa um Ser infinitamente inteligente, sábio e bom, promana [procede] da reflexão sobre as operações da nossa própria mente, e eleva sem limite essas qualidades da bondade e da sabedoria. Podemos prosseguir esta inquirição até ao ponto que nos agradar, onde sempre descobriremos que toda a ideia que examinamos é copiada de uma impressão similar.”

David Hume, Investigação sobre o entendimento humano, Edições 70, tradução de Artur Morão, Lisboa, 1985, pág. 25.

  1. Como se originou a ideia de Deus?

  2. As perspectivas de Descartes e Hume quanto à ideia de Deus são distintas. Porquê?

  3. A argumentação de Hume poderá conduzir a uma posição céptica relativamente à crença na existência de Deus?

sábado, 14 de março de 2009

A minha vida é real: conhecimento ou mera crença?


“Não tenho corpo. Tudo o que sou é um cérebro a flutuar numa cuba de produtos químicos. Um cientista perverso ligou de tal forma fios ao meu cérebro que tenho a ilusão da experiência sensorial. O cientista criou uma espécie de máquina de experiências. Do meu ponto de vista, posso levantar-me e dirigir-me à loja para comprar um jornal. Contudo, quando faço isto, o que está realmente a acontecer é que o cientista está a estimular certos nervos do meu cérebro de maneira a que eu tenha a ilusão de fazer isto. Toda a experiência que penso provir dos meus cinco sentidos é na verdade o resultado de este cientista perverso estar a estimular o meu cérebro desencarnado. Com esta máquina de experiências o cientista pode fazer com que eu tenha qualquer experiência sensorial que poderia ter na vida real. Através de um estímulo complexo dos nervos do meu cérebro o cientista pode dar-me a ilusão de estar a ver televisão, a correr um maratona, a escrever um livro, a comer massa ou qualquer outra coisa que eu poderia fazer.”


Nigel Warburton, Elementos básicos de Filosofia, 2ª edição, Lisboa, 2007, pág. 158.

A história do cérebro numa cuba é uma experiência mental, tal como imaginar que a vida é um sonho ou a hipótese do Génio Maligno, de Descartes. Essas experiências mentais sugerem que podemos estar muito enganados em relação ao mundo e a nós próprios e que o conhecimento que julgamos ter é, afinal, uma ilusão.

Claro que não acreditamos que as coisas se passem dessem modo: acreditamos que as coisas são realmente semelhantes ao modo como as percepcionamos e acreditamos que temos realmente conhecimento. Eu acredito, o caro leitor acredita. Acreditamos - mas será que sabemos? Sabemos que a nossa vida é real e não uma ilusão ou apenas acreditamos nisso, tal como algumas pessoas acreditam em Deus e outras que vão ganhar a lotaria?

É que para saber algo não basta ter uma crença – no mínimo, é também necessário que a crença seja verdadeira e esteja justificada. Como podemos justificar a nossa crença de que a vida não é um sonho ou que não somos apenas cérebros numa cuba iludidos por um cientista perverso qualquer?

Os filósofos cépticos consideram que não podemos fazer essa justificação e que, portanto, não sabemos o que julgamos saber sobre o mundo e sobre nós próprios.

Quando se propõe a alguém, nomeadamente a um aluno do ensino secundário, que faça uma dessas experiências mentais e que depois justifique o facto de não acreditar na sua veracidade, uma das respostas mais frequentes é esta: isso é demasiado estranho e improvável para ser verdade.

Descartes e David Hume discordaram dos cépticos, mas fizeram-no de modo bastante distinto. Descartes tentou refutar o cepticismo e demonstrar inequivocamente a falsidade das suas afirmações e não apenas a sua improbabilidade. David Hume considerou que essa demonstração não é possível e que não podemos fazer muito mais do que declarar que a sua elevada improbabilidade.

Qual deles terá razão? Ou serão os cépticos que têm razão?

A imagem foi retirado do blogue de Filosofia Logosfera. Se quiser ler versões mais detalhadas da história do cérebro numa cuba pode fazê-lo em diversos posts do Logosfera ou no site Filosofia & Educação.