quinta-feira, 31 de março de 2016

Vemos as coisas como elas realmente são?

terra

terra Sebastião Salgado menina olhando

“acaso saberão aquela história da rapariguinha
saindo do seu jardim com todo o barulho que sabia
para depois pé ante pé nele entrar só para ver
como era o jardim na sua ausência?”

João Miguel Fernandes Jorge 1

É claro que a rapariguinha não conseguiu ver como era o jardim na sua ausência, pois não estava ausente e só estando presente se consegue ver alguma coisa, nomeadamente um jardim.

Por detrás desta história está uma velha questão filosófica: o mundo exterior será realmente como o percecionamos? 2

Como é que podemos saber se as coisas são realmente como as percecionamos? Não se poderá dar o caso de serem diferentes?

Afinal de contas, não temos maneira de comparar o modo como percecionamos as coisas com as coisas em si mesmas. Não temos outro acesso às coisas senão através da perceção que temos delas.

Podemos dizer se um desenho representa ou não corretamente um certo objeto pois podemos comparar o desenho com as perceções visuais que temos do objeto – com o original, por assim dizer. Mas como podemos saber se essas perceções representam corretamente o próprio objeto? Nesse caso já não temos um original como termo de comparação, só temos as perceções. Por isso, a rapariguinha do poema não poderia garantir que o jardim na sua ausência é semelhante ao jardim que vê.

Dando mais um passo, podemos duvidar não só da veracidade das nossas perceções como também da existência das próprias coisas. As perceções são representações mentais, supostamente de coisas existentes no mundo exterior, mas, se não podemos garantir que representam fielmente essas coisas, como podemos garantir sequer que representam alguma coisa? Talvez as nossas perceções sejam como os sonhos ou as alucinações e não correspondam a nada real. Por isso, a rapariguinha do poema não poderia garantir que o jardim que vê existe realmente. 3

1 Trata-se de uma parte de um poema sem título do livro Turvos Dizeres. Pode ser lido na página 70 do volume 2 da Obra Poética do autor (Editorial Presença, Lisboa, 1987). Não vou analisar o poema todo. Nem sempre é fácil entender os poemas de João Miguel Fernandes Jorge, pois este tem uma técnica de escrita peculiar: é como se os poemas fossem colagens de elementos diferentes e aparentemente sem relação (o que por vezes produz poemas que o autor talvez devesse ter reescrito ou deixado na gaveta, mas outras vezes origina a poemas inesperados e belos, como por exemplo este). Mas, apesar dessa dificuldade, julgo que o resto do poema não tem relevância filosófica ou pelo menos não ajuda a perceber a história da rapariguinha. De qualquer modo, eis o poema na sua totalidade:

Ganho com o tempo aquilo que
o tempo o espaço me reduz
Caminho e
tenho quase muitos anos durar é o meu maior problema
irresistível simulação de quem olha para os astros
e provoca pequenos desvios. Jogando quero abrir os
meus brinquedos
brinco e como toda a criança brincando

estão sentados os gémeos do café Londres
um pouco mais à frente aqueles dois rapazes
- de que morrerão eles?
Incerta é a serenidade com que dizem sim e não
aceitam uma paz em fundo de guerra
- acaso saberão aquela história da rapariguinha
saindo do seu jardim com todo o barulho que sabia
para depois pé ante pé nele entrar só para ver
como era o jardim na sua ausência?

Estas coisas foram ditas para que saibam que
Jesus é o filho de Deus. Acreditem.

2 Chama-se perceção à representação de alguma coisa através dos sentidos (nomeadamente a visão, a audição e o tato), eventualmente “ajudados” pelo pensamento.

3 Fotografia de Sebastião Salgado. Representa uma menina sem terra num acampamento em Rio Bonito do Iguaçu, Paraná, 1996.

domingo, 27 de março de 2016

Realismo

rene magritte ceci nest pas une pomme isto não é uma maçã realismo

René Magritte

É “errado confundir a própria realidade com as formas que temos de a conhecer. A realidade é uma coisa; o conhecimento que temos dela, outra. O passado não é a mesma coisa que as nossas memórias dele; os objetos físicos não são a mesma coisa que os estados sensoriais que temos quando os percecionamos; as mentes das outras pessoas não são a mesma coisa que o comportamento que usamos para inferir coisas sobre elas; o futuro não é a mesma coisa que as indicações atuais sobre como será; as partículas elementares não são a mesma coisa que os contadores que assinalam a sua presença; e assim por diante. Certamente que há exceções a esta regra geral; (…) [por exemplo] as entidades ficcionais não têm uma realidade além das intenções dos autores – são inventadas e não descobertas. É por isso que lhes chamamos ficções e distinguimos a ficção da não ficção nas livrarias e bibliotecas.”

Colin McGinn, Como se faz um Filósofo, tradução de Célia Teixeira, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2007, pág. 121.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Ser livre é obedecer à lei moral

kant

Somos livres quando obedecemos à lei moral 1. Quando li essa afirmação de Kant, por volta dos 16 anos, fiquei muito espantado. E impressionado. Ser livre é obedecer a uma lei?

Geralmente as pessoas associam a liberdade à ausência de regras ou mesmo à sua desobediência. Daí a surpresa.

O nome dado por Kant à lei moral é quase célebre: imperativo categórico 2. Trata-se de um critério que permite distinguir as ações certas das ações erradas e desse modo descobrir o que devemos e o que não devemos fazer.

Uma das maneiras de formular a lei moral, ou imperativo categórico, é semelhante à célebre regra de ouro: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. Ou seja: as ações certas são aquelas em que as pessoas são respeitadas (na linguagem de Kant: em que as pessoas são consideradas fins em si mesmas) e as ações erradas são aquelas em que as pessoas são usadas como se fossem apenas meios, ou seja, são instrumentalizadas. A lei moral não é, portanto, uma regra de conduta específica, mas um critério, uma espécie de teste mental que, em cada situação, nos indica o que está certo – tal como uma bússola indica o norte. Por exemplo: pedir dinheiro emprestado a um amigo sem ter a intenção de o devolver será certo ou errado? Aplicando o critério descrito é fácil de ver que é errado, pois implica considerar o amigo como se fosse uma coisa, um mero meio de resolver as dificuldades do agente e sem qualquer consideração pelo seu ponto de vista.

Kant considerava esse género de ações erradas mesmo que o agente tivesse um objetivo supostamente bom, pois pensava que os fins não justificam os meios e que, portanto, nunca temos motivos suficientes para usar e manipular as pessoas.

Mas como é que isso se relaciona com a liberdade?

Se, através do teste da lei moral, percebemos que uma ação é correta então devemos mesmo fazê-la. Não para obter qualquer vantagem pessoal (por exemplo, ficar bem visto) mas apenas porque é isso que está certo. Kant achava que as ações só têm valor moral quando fazemos o dever pelo dever, sem nenhum outro motivo.

Se percebo o que está certo mas não o faço, porque vai contra os meus interesses, desejos ou sentimentos, então não sou livre. Sou, pelo contrário, um escravo desses interesses, desejos e sentimentos – a que Kant chamava “inclinações”. Por exemplo, se sei que a ação X é errada mas ainda assim a faço, empurrado por exemplo pelo medo ou pelo ciúme, não sou livre 3. Só sou livre quando faço aquilo que tenho a obrigação moral de fazer. Assim, não basta escolher para ser realmente livre, é preciso escolher bem.

Só sou livre quando faço aquilo que tenho a obrigação moral de fazer… Já não tenho 16 anos, mas continuo a achar esta ideia impressionante.

Para Kant isso não é contraditório. Somos seres racionais e é a razão que nos faz perceber a lei moral. Obedecer à razão, e àquilo que ela ordena, é obedecer a nós próprios e não a algo exterior. Kant pensava que, enquanto seres racionais, cada um de nós é como se fosse co-autor da lei moral. Por isso, se decido não fazer a referida ação X revelo uma vontade autónoma e livre. Autonomia significa, de acordo com a sua etimologia, “dar lei a si próprio”.

Talvez paradoxalmente, Kant considerava que obedecer aos nossos desejos e sentimentos não é obedecermos a nós próprios, pois, apesar de sermos também animais e o nosso corpo ter imensa importância, é a racionalidade que nos define. Para ele, obedecer às “inclinações” era equivalente a obedecer a outra pessoa. Era sinal de heteronomia e não de autonomia.

Uma das muitas críticas que se fazem a Kant é que ele desvalorizou os desejos e os sentimentos e esqueceu que devemos escutar o corpo e não apenas a razão.

Essa crítica é plausível e precisamos certamente de uma maneira de entender as pessoas que não oponha a racionalidade e a afetividade, como Kant fazia. Mas, ainda assim, continua teimosamente a fazer sentido a ideia de que só somos verdadeiramente livres quando conseguimos ter força de vontade para escolher o que está certo. Ou, pelo menos, o que julgamos estar certo.

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1 Kant, Immanuel“, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, tradução de Paulo Quintela, Introdução de Pedro Galvão, 2009, Lisboa, Edições 70, pág. 100. A expressão usada é: “vontade livre e vontade submetida a leis morais são uma e a mesma coisa”.

2 Segundo Kant, se existisse um ser racional dotado de uma vontade perfeita ou santa (Deus, por exemplo) a lei moral não lhe surgiria sob a forma de um imperativo ou dever, pois a sua vontade seria sempre determinada pela razão e ele escolheria sempre o bem (se é que isso seria escolher). Mas, para seres comos nós (que temos uma vontade imperfeita que tanto pode ser determinada pela razão como pelos sentimentos e desejos), a lei moral surge como imperativo ou dever. Daí que no nosso caso se possa identificar lei moral e imperativo categórico. Kant, op.cit., pp. XXXVI e 89.

3 Mas sou, ainda assim, responsável, pois, como ser racional conhecedor da lei moral, tinha em aberto a possibilidade de agir de outro modo. Kant, op.cit., pág. LII e nota da pág. 100.

domingo, 20 de março de 2016

Se Deus existisse mesmo

a morte é mesmo estranha:
morre-se todos os dias
e enquanto se morre pede-se uma esmola para matar a fome de outra vida,
e dão-nos pelo amor de Deus uma pequena moeda de nenhum país,
e não há ranhura onde a moeda entre, nem a ranhura de uma velha caixa de música, e no entanto estremeço
e falta-me o ar, sim sim
arrebatavam-me as músicas de J.S. Bach
no silêncio das naves através da catedral inteira,
vozes e vozes dos rapazes castrados
e de repente um baixo monstruoso,
e isto se Deus existisse mesmo, punhal fundo no músculo coração,
e depois quente chôro pela cara abaixo
- oh porque me abandonaste?
mas na verdade ninguém me abandonara

Herberto Helder, Letra Aberta

 

Segundo o DN, o livro Letra Aberta é uma recolha póstuma de poemas inéditos de Herberto Helder. Será publicado na próxima quarta-feira, dia 23 de abril, um ano após a sua morte.

 

Herberto Helder livro a letra aberta com poemas inéditos

sexta-feira, 11 de março de 2016

Matriz do teste do 10º (Esla): Stuart Mill e Kant

 J Stuart Mill   Immanuel_Kant_(painted_portrait)

Duração: 90 minutos.

Objetivos:

1. Explicar em que consiste o problema da fundamentação da moral.

2. Explicar porque é que o Utilitarismo de Stuart Mil é uma ética consequencialista.

3. Explicar porque é que o Utilitarismo de Stuart Mil é uma ética hedonista.

4. Distinguir prazeres inferiores e superiores.

5. Explicar o que é, segundo Stuart Mill, o princípio da utilidade.

6. Aplicar o princípio da utilidade a casos concretos e determinar se a ação em causa é moralmente correta ou incorreta.

7. Explicar porque é que, para o Utilitarismo de Stuart Mil, os deveres não são absolutos.

8. Explicar as objeções ao Utilitarismo de Stuart Mil estudadas.

9. Explicar o que é, segundo Kant, o imperativo categórico.

10. Explicar a primeira fórmula (chamada fórmula da lei universal) do imperativo categórico.

11. Explicar a segunda fórmula (chamada fórmula da humanidade) do imperativo categórico.

12. Aplicar as duas fórmulas do imperativo categórico a casos concretos e determinar se a ação em causa é moralmente correta ou incorreta.

13. Distinguir ações contrárias ao dever, ações por dever e ações em conformidade ao dever (motivadas por sentimentos e motivadas pelo interesse).

14. Explicar porque é que, para Kant, a intenção é que confere valor moral às ações.

15. Distinguir imperativo categórico e imperativo hipotético.

16. Explicar porque é que, para Kant, os deveres são absolutos.

17. Explicar o que entende Kant por boa vontade.

18. Distinguir autonomia e heteronomia.

19. Explicar as objeções à Ética Deontológica de Kant estudadas.

20. Compare e avalie a ética de Stuart Mill e a ética de Kant.

Natureza das questões:

Escolha múltipla, questões de resposta curta e questões de resposta extensa.

Para estudar:

Partes assinaladas das seguintes páginas do Manual:: da 132 à 134, da 136 à 138 e da 140 à 145.

No blogue Dúvida Metódica:

O eléctrico desgovernado: discussão de um dilema moral

Qual é o critério da moralidade?

O utilitarismo: ideias básicas

Apontamento sobre o Utilitarismo

Argumentos contra o utilitarismo
Deveres e autonomia

Os imperativos de Kant

As pessoas não são instrumentos

Mentir é sempre errado?

Agir bem para evitar problemas

Quando é que as nossas ações têm valor moral?

Quais são as acções que têm valor moral?

Por dever ou apenas em conformidade ao dever?

quarta-feira, 9 de março de 2016

Matriz do teste do 11º (Esla): Descartes e Hume

David Hume

Duração: 90 minutos.

Objetivos:

1. Discutir se Descartes refutou ou não o ceticismo.

2. Explicar e discutir a crítica de Hume a Descartes e à dúvida metódica.

3. Explicar a rejeição empirista das ideias inatas.

4. Mostrar como Hume classifica e relaciona os conteúdos mentais.

5. Explicar em que consiste o princípio da cópia.

6. Distinguir as questões de facto e as relações de ideias.

7. Discutir a opinião de Hume de que nenhum conhecimento a priori é substancial.

8. Comparar a perspetiva racionalista e a perspetiva empirista quanto às fontes do conhecimento.

9. Explicar o modo como Hume entende a causalidade.

10. Explicar a objeção a Hume e à sua conceção da causalidade segundo a qual a existência de conexões causais é a explicação mais plausível das conjunções constantes.

11. Explicar a análise feita por Hume ao problema da indução.

12. Mostrar porque é que David Hume é um cético moderado.

Natureza das questões:

Escolha múltipla, questões de resposta curta e questões de resposta extensa.

Para estudar:

No manual: da página 171 à página 191. Quanto à páginas sobre Descartes, o aluno deve escolher quais vai ler ou reler, tento em conta os objetivos.

No blogue Dúvida Metódica:

Descartes:

Os links sobre Descartes, se o aluno entender consultá-los novamente, podem ser encontrados AQUI.

Hume:

A crítica de David Hume a Descartes

Impressões e ideias

Uma folha de papel em branco

Cegos que começam a ver: impressões e ideias

Como se originou, segundo Hume, a ideia de Deus?

O problema da causalidade

Exemplos de inferências causais
Sol vai nascer amanhã? Não podemos saber!
Hume e a relação causa-efeito

A crença na causalidade é instintiva

Hume e o problema da indução: vídeos da Kahn Academy
Objeção à teoria da causalidade de David Hume

Three Minute Philosophy - David Hume e Descartes

Aconselhado:

A minha vida
Milagre??
Como transformar a ignorância numa virtude?

sábado, 5 de março de 2016

Como transformar a ignorância numa virtude?

Statue of David Hume by Alexander Stoddart

«Os filósofos que se dão ares de superior sabedoria e confiança têm uma dura tarefa quando se encontram com pessoas de feitio inquiridor, que os expulsam de todos os cantos onde se refugiam e não podem deixar de acabar por os fazer cair em algum dilema perigoso. O melhor expediente para evitar esta confusão é sermos modestos nas nossas pretensões, e até sermos nós mesmos a apontar as dificuldades antes de elas serem apresentadas como objeções contra nós. Podemos por este meio converter nossa a própria ignorância numa espécie de mérito.»

David Hume, Tratados I: Investigação sobre o Entendimento Humano, tradução de João Paulo Monteiro, Lisboa, INCM, 2002, pág. 48.

Na imagem: Estátua de David Hume de Alexander Stoddart, em Edimburgo.

sexta-feira, 4 de março de 2016

O que é a vontade boa?

Kantian_hero

«Na moral, o ponto de partida de Kant é o de que o único bem irrestrito é uma vontade boa. Talento, carácter, autodomínio e fortuna podem ser usados para alcançar maus fins; até mesmo a felicidade pode corromper. O que constitui o bem de uma vontade boa não é o que esta alcança; a vontade boa é um bem em si e por si (...)

Não foi para procurar a felicidade que os seres humanos foram dotados de vontade; para isso, o instinto teria sido muito mais eficiente. A razão foi-nos dada para originar uma vontade boa não enquanto meio para outro fim qualquer, mas boa em si. A vontade boa é o mais elevado bem e a condição de possibilidade de todos os outros bens, incluindo a felicidade.

Que faz, pois, uma vontade ser boa em si? Para responder a esta questão, temos de investigar o conceito de dever. Agir por dever é exibir uma vontade boa face à adversidade. Mas temos de distinguir entre agir de acordo com o dever e agir por dever. Um merceeiro destituído de interesse pessoal ou um filantropo que se deleite com o contentamento alheio podem agir de acordo com o dever. Mas acções deste tipo, por melhores e por mais agradáveis que sejam não têm, de acordo com Kant, valor moral. O nosso carácter só mostra ter valor quando alguém pratica o bem não por inclinação mas por dever — quando, por exemplo, um homem que perdeu o gosto pela vida e anseia pela morte continua a dar o seu melhor para preservar a sua própria vida, de acordo com a lei moral (…).

O que é, pois, agir por dever? Agir por dever é agir em função da reverência pela lei moral; e a maneira de testar se estamos a agir assim é procurar a máxima, ou princípio, com base na qual agimos, isto é, o imperativo ao qual as nossas acções se conformam. Há dois tipos de imperativos: os hipotéticos e os categóricos. O imperativo hipotético afirma o seguinte: se quisermos atingir determinado fim, age desta ou daquela maneira. O imperativo categórico diz o seguinte: independentemente do fim que desejamos atingir, age desta ou daquela maneira. Há muitos imperativos hipotéticos porque há muitos fins diferentes que os seres humanos podem propor-se alcançar. Há um só imperativo categórico, que é o seguinte: "Age apenas de acordo com uma máxima que possas, ao mesmo tempo, querer que se torne uma lei universal" (…).

Kant oferece uma formulação complementar do imperativo categórico. "Age de tal modo que trates sempre a humanidade, quer seja na tua pessoa quer na dos outros, nunca unicamente como meios, mas sempre ao mesmo tempo como um fim." Kant pretende, apesar de não ter convencido muitos dos seus leitores, que este imperativo é equivalente ao anterior e que permite retirar as mesmas conclusões práticas. Na verdade, é mais eficaz do que o anterior para expulsar o suicídio. Tirar a nossa própria vida, insiste Kant, é usar a nossa própria pessoa como um meio de acabar com o nosso desconforto e angústia.»

Anthony Kenny, A filosofia moral de Kant, in Crítica, revista de Filosofia online.