sábado, 31 de janeiro de 2015

Os compromissos e os interesses, seja qual for o grau de consciência (e, sff, não procure exemplos apenas no mundo da política)

Ato publico a corrupção não existe apenas na política

“De tentação em tentação, de fraqueza em fraqueza, os compromissos de consciência levam um homem honrado à prática de todos os crimes...”

Florbela Espanca

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

"A noite cairá" - hoje às 23.30 na RTP 1

«Esta noite muitas televisões do mundo passam “A Noite Cairá”, um documentário incrível com muitas das primeiras imagens recolhidas no campo de concentração pelas tropas aliadas. Na verdade, "A noite cairá" é um documentário sobre um documentário (com dedo de Hitchcock), que esteve demasiados anos na gaveta e por acabar, tal era a força e o choque das imagens recolhidas.

A 27 de janeiro de 1945, as tropas soviéticas entravam no campo de concentração de Auschwitz - foi há precisamente 70 anos. Para assinalar um dia histórico, o Expresso disponibiliza online um texto publicado originalmente a 28 de janeiro de 1995, onde alguns dos sobreviventes evocam o drama e se reflete sobre um episódio julgado impensável.»
Ler mais: http://expresso.sapo.pt/oficio-de-matar=f908141#ixzz3Q4829tCH

Não vender a alma ao diabo

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A independência de espírito, o sentido crítico e a integridade moral são bens raros (e a crise torna-os ainda mais escassos). Porém, felizmente, podem ainda encontrar-se nalguns seres humanos.

No contexto do estudo da teoria ética de Kant, a minha aluna Inês Marcelino (do 10º D) enviou-me algumas excelentes imagens e cartoons que irei publicar neste blogue, esta é primeira delas.

Muito obrigada Inês!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Outro imperativo categórico

4.1.1

“Algo é correto quando tende a preservar a integridade, a estabilidade e beleza da comunidade biótica. É incorreto quando tende ao contrário.”

Aldo Leopold, Ética da Terra – citado por Alfredo Marcos,  ”Ética Ambiental”.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Opiniões premiadas no Dia Mundial da Filosofia

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Foi colocado neste blogue um desafio aos alunos, no Dia da Filosofia (ver AQUI):

"Devemos fazer o que está certo mesmo quando não ganhamos com isso?

Ao responder tem em conta o exemplo da notícia de jornal: “Três funcionários da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim foram distinguidos pela autarquia com um voto de louvor por devolverem um envelope com mais de quatro mil euros que encontraram num centro de processamento de lixo". Jornal Diário de Notícias de 18-11-2014.

Como agirias se fosses um dos três funcionários na situação seguinte? Porquê?"

Os autores dos dois melhores comentários* - a quem se será entregue o livro "Logicomix" da Gradiva pela direção da escola - foram as alunas Patrícia Cunha, do 10º D e Vanda Evaristo, do 11º A. Parabéns a ambas!

E um agradecimento a todos os alunos que participaram (do 11º A, 11º B e 10º D)!

Eis as respostas dadas pelas duas alunas (os textos não foram editados):

Na minha opinião, este é um problema filosófico extremamente atual e que diz respeito a todos nós como cidadãos. Talvez a posição que defendo será a que muitos pensam ser a mais plausível, mas eu fico contente se nem todos partilharem da mesma opinião que eu, pois em Filosofia não deve existir consenso. Argumentar é a melhor forma de testar as nossas crenças…
Em primeiro lugar, penso que fazer o que está certo é uma virtude do ser humano. Devemos “ser uns para os outros”, seja qual for a raça, o género ou a idade. Uma ação designada como “correta” desencadeia outras ações corretas e assim sucessivamente. Não devemos praticar o que está certo, procurando segundas intenções nisso e/ou mérito por o praticar. Fazer o está correto é a inocência da nossa "alma", a utilização de virtudes, como a generosidade, a sinceridade e a cooperação. Praticar algo certo não é esperar ganhar nada em troca, porque afinal também não perdemos nada por o fazer…É seguir o nosso coração, colocar um sorriso no mundo que nos rodeia e agir por pura espontaneidade.
No caso apresentado, em que três funcionários foram reconhecidos com um louvor por terem devolvido um envelope, no qual se encontravam mais de quatro mil euros, verificamos um excelente exemplo do que suprarreferi. Estes homens agiram com inocência e sem segundas intenções, devolvendo o dinheiro que não lhes pertencia, sem esperar uma recompensa por isso. Existem dois bons argumentos para defender a ação executada: o dinheiro não pertence aos funcionários mas sim a alguém, que pode estar a necessitar muito dele e, se fossem os funcionários na situação da pessoa possuidora do envelope, também gostariam que lhes devolvessem o dinheiro.
Trata-se de pura bondade e ajuda ao próximo. Se fossemos nós não ficaríamos muito gratos por nos entregarem quatro mil euros que com tanto trabalho poupámos e valorizamos? Devemos pensar desta forma. O que está certo pode ser praticado por todos e pode ajudar todos também. Durante a nossa vida todos nós já praticámos pelo menos uma vez, uma ação correta, involuntariamente e sem esperar um louvor por isso.

Pense nisso… Tal como disse Martin Luther King: “Sempre é hora de fazer o que é certo”.

Patrícia Cunha, 10º D

Discernimento, coragem, honestidade, respeito pelo “outro”, entre outros talentos do espírito, são sem duvida desejáveis, pois espelham o bom caráter. Contudo, estes esbatem-se diariamente nas múltiplas situações com que nos deparamos.
As minhas ações diárias são movidas por máximas que cultivo e agir em conformidade com o dever é materializar a minha vontade.
"Devemos fazer o que está certo mesmo quando não ganhamos com isso? Se eu encontrasse uma quantia considerável de dinheiro devolvê-lo-ia?"
As questões colocadas suscitam em nós um debate moral e a resposta às mesmas implica sinceridade.
Considero que se ganha sempre algo com as nossas ações independentemente de qual escolhermos. O valor do que se ganha é que é diferente e cada pessoa sabe a importância que cada valor tem para si.
A vontade e a faculdade de escolher só aquilo que a razão reconhece como correto são unas. Contudo, nem sempre a razão determina suficientemente a vontade. Por vezes esta está sujeita a condições subjetivas.
As dificuldades extremas tornam o ser humano corruptível e nem sempre a razão e o agir correto vencem as nossas emoções ou outras motivações.
Se a vida de uma pessoa que amo ou até a minha própria vida dependessem de uma ação minha, provavelmente enfrentaria um árduo dilema moral, pois não agiria tendo apenas em conta os meus princípios.
Se eu encontrasse dinheiro e se este se revelasse vital para mim, provavelmente não o devolveria. Afirmo tal hipoteticamente, pois tudo dependeria das circunstâncias do momento.
O ser humano cultiva a imagem perfeita e alimenta-se do elogio. Afirmarmos que todas as nossas ações são desinteressadas e visam apenas o dever em consonância com a nossa vontade, sem ter em conta todo e qualquer condicionalismo, é mascarar as nossas inclinações e emoções. Não somos seres perfeitos e o nosso entendimento é frequentemente desafiado pelos nossos sentimentos. Face a um dilema moral, a minha resposta será sempre a mesma: as minhas ações traduzem princípios que defendo convictamente, contudo não são inabaláveis.

Vanda Evaristo, 11º A

* Os critérios de avaliação utilizados foram os seguintes: clareza, pertinência e originalidade das ideias filosóficas defendidas; estruturação do discurso; utilização correta da terminologia filosófica e da expressão escrita.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

3º teste de Filosofia do 10º ano: turma D

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2014-15 10º Matriz Do 3º Teste by dmetódica

Links de apoio ao estudo:

1. O problema da justificação dos Juízos morais

A cigarra, a formiga e os valores

Enterrar viva uma pessoa é errado ou isso é relativo?

Uma tradição admissível, segundo os relativistas culturais

A tolerância não implica o relativismo

A verdade dos juízos morais depende da opinião pessoal?

Será a ética subjectiva?

Haverá provas em ética?

A defesa dos direitos humanos e do relativismo cultural serão compatíveis?

Objectivismo Moral

Tem razão quem se apoiar nas melhores razões

Se há valores morais objetivos, pode-se defender os direitos humanos

Qual é, afinal, a tradição?

A divergência de opiniões é incompatível com a objetividade?

Algumas regras morais são universais

Direitos humanos e liberdade de expressão

2. A questão da fundamentação da moral: a teoria ética de Kant

Um dilema moral da Medicina

Discussão de um dilema moral: qual seria a acção correta?

Cumprir o dever pelo dever: um exemplo

Os imperativos de Kant

Agir bem para evitar problemas

Por dever ou apenas em conformidade ao dever?

Quais são as acções que têm valor moral?

Devemos mentir para salvar a vida de um amigo? – Não, diz Kant (1)

Devemos mentir para salvar a vida de um amigo? – Não, diz Kant (2)

Quando é que as nossas ações têm valor moral?

“Mentiras boas” e outras objeções à ética kantiana

Qual é o critério da moralidade?

Teste de Filosofia do 11º ano: turma A

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2014-15 11º Matriz Do 3º Teste by dmetódica

Links de apoio ao estudo:

1. Descrição e interpretação da atividade cognitiva

Algumas relações entre os vários tipos de conhecimento

O conhecimento por contacto facilita as cunhas.

Ficha de trabalho: identificação dos diferentes tipos de conhecimento

O carácter factivo do conhecimento

O tempo até pode ser relativo, mas a verdade não

Informação “útil” para adolescentes sobre a hora de deitar

Uma crença pode ser útil mas falsa

Previsão certeira de sismo em Itália: crença verdadeira, mas não justificada

O Deco não percebe nada de Epistemologia

Dois contra-exemplos à chamada definição tradicional de conhecimento

2. O ceticismo.

Uma dúvida inspiradora para os alunos do 11º ano

O argumento céptico da divergência de opiniões.

Exemplo de divergência de opiniões: a música de Strauss é sublime ou mera gritaria?

O argumento céptico da regressão infinita da justificação: um exemplo

Algumas imagens que nos levam a duvidar dos nossos olhos e o cepticismo radical

Como são parecidas a ilusão e a realidade!

Uma objecção ao argumento céptico dos erros e ilusões perceptivas

O que é que realmente sabemos?

A minha vida é real: conhecimento ou mera crença?

Cegos que não sabem que são cegos

Em terra de cegos quem tem um olho não é rei

3. A teoria do conhecimento de Descartes.

A dúvida metódica (este deveria ter sido o primeiro post deste blogue)

Um mar de dúvidas

Razões para duvidar, segundo Descartes

A matemática é a priori mas não é inata

O caro leitor não está a ler

Descartes: da dúvida à certeza (Ficha realizada na aula)

Como é que Descartes pretendeu ultrapassar o ponto de vista dos cépticos

O solipsismo e a necessidade de Deus no sistema cartesiano (esquema analisado na aula)

Provar a existência de Deus a partir de uma ideia: uma piada de mau gosto?

Descartes: argumentos para provar a existência de Deus

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Quem deve falar em nome de uma cultura?

                                               Raif Badawi Malala Yousafzay

Algumas pessoas pensam que nunca se deve criticar os valores e os costumes dos outros povos, pois os valores e os costumes são relativos: cada sociedade tem um certo conjunto de valores e costumes e os de uma sociedade não são melhores nem piores do que os de outra sociedade, são apenas diferentes. O critério do certo e do errado reside nas tradições populares e na aceitação social de que gozam. Como disse a antropóloga Ruth Benedict, “a moralidade varia em todas as sociedades, e é apenas um termo cómodo para os hábitos que uma sociedade aprova”1. Essa maneira de pensar costuma ser designada relativismo cultural, ou apenas relativismo.

É frequente encontrar pessoas a defendê-la (talvez por pensarem – erradamente – que ser relativista é a única maneira de não ser intolerante), mas muitas sem consciência das suas implicações. Se o relativismo cultural fosse verdadeiro, censurar costumes como o casamento de crianças ou a excisão seria uma atitude arrogante e intolerante; invocar os direitos humanos para justificar essas críticas não seria também legítimo, pois para essa doutrina os direitos humanos não exprimem valores universais, mas apenas ocidentais.

Felizmente, o relativismo cultural presta-se a várias objeções mais plausíveis que ele. Eis uma dessas objecções. Se uma certa sociedade não é homogénea e as pessoas têm estatutos, interesses e opiniões diferentes, quem deve falar em nome da sua cultura?2 Por exemplo: quem deve falar em nome dos ciganos – apenas os mais velhos, que impedem as raparigas adolescentes de irem à escola e impõem o seu casamento precoce, ou também essas raparigas? E numa sociedade esclavagista, como era a Roma imperial ou os Estados do Sul nos EUA antes da Guerra Civil, quem deve falar em nome da sua cultura – os donos dos escravos ou também os escravos?

Parece assim que o relativismo não exclui apenas as críticas dos estrangeiros mas também as críticas dos membros da sociedade em causa. A aceitação do relativismo leva, portanto, à suspensão do pensamento crítico e ao conformismo social.

Um relativista coerente não poderá, por exemplo, apoiar o cidadão saudita Raif Badawi (condenado a 10 anos de prisão e a mil chicotadas, 50 a cada sexta-feira durante 20 semanas, por supostamente “insultar o Islão” com os seus escritos num blogue) nem a jovem paquistanesa Malala Yousafzay (um dos vencedores do Nobel da Paz 2014), baleada na cabeça pelos talibãs como retaliação pela sua campanha em defesa do direito à educação das raparigas. Com efeito, as ideias e acções de Raif Badawi e de Malala Yousafzay são desviantes relativamente às tradições largamente maioritárias dos seus povos.

Como é implausível não poder defender Raif Badawi e Malala Yousafzay, resta rejeitar o relativismo cultural. Raif Badawi e Malala Yousafzay também podem falar em nome da sua cultura, mesmo que seja para rejeitar alguns dos seus costumes e valores. Mas se eles podem pensar criticamente acerca desses costumes e valores porque não poderão fazer o mesmo as pessoas de outras sociedades? 3

1 Citada por: James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, tradução de F. J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, 2004, Colecção Filosofia Aberta, Edições Gradiva, pág.33.

2 James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Lisboa, 2009, Colecção Filosofia Aberta, Edições Gradiva, pp. 240-241.

3 Vários links para saber mais acerca do assunto: aqui.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A dor e a morte são boas

leoa atacando zebra

«O mundo natural, como é efectivamente constituído, é um mundo em que um ser vive à custa de outros. Como disse Paul Shepard, “a estrutura da natureza é uma sequência de atos de matar”. Cada organismo, para usar a metáfora de Darwin, luta para manter a sua própria integridade orgânica. Os animais mais complexos parecem experienciar (a julgar pelo nosso próprio caso e raciocinando por analogia) estados psicológicos apropriados e adaptativos que acompanham a existência orgânica. Há uma paixão manifesta pela auto-preservação. Há desejos, prazer com a satisfação dos desejos, uma agonia intensa que acompanha os danos físicos, frustração e um medo crónico da morte. Mas estas experiências são a substância psicológica da vida. Viver é estar ansioso com a vida, sentir prazer e dor numa mistura apropriada e morrer mais cedo ou mais tarde. É assim que o sistema funciona. Se a natureza como um todo é boa [como sustenta a Ética da Terra], então a dor e a morte também são boas.»

J. Baird Callicott, “Uma Questão Triangular” in Os animais têm direitos? – Perspectivas e Argumentos, organizado e traduzido por Pedro Galvão, Dinalivro, Lisboa, 2011, pp. 167-168.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Heróis

Não chega provavelmente para justificar a ideia de que há males que vêm por bem, mas já sucedeu muitas vezes acontecimentos horríveis inspirarem obras de arte maravilhosas: Guernica, de Picasso; Os fuzilamentos de três de Maio, de Goya; Coração das Trevas, de Joseph Conrad; Se isto é um homem, de Primo Levi; etc.

O atentado contra o jornal Charlie Hebdo, sendo este um jornal que publicava muitos cartoons, inspirou também inúmeros cartoons e outros desenhos belos e inteligentes. Até à data, este - um exemplar de uma arte considerada menor por muitas pessoas, incluído as que são sensíveis à beleza e gostam de arte – é o meu preferido.

I am Charlie Hebdo

Desenho de Molto. Encontrado aqui: moltonel72.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Liberdade de expressão

                                                                   sem liberdade a verdade não aparece

“Se todos os seres humanos, menos um, tivessem uma opinião, e apenas uma pessoa tivesse a opinião contrária, os restantes seres humanos teriam tanta justificação para silenciar essa pessoa como essa pessoa teria justificação para silenciar os restantes seres humanos, se tivesse poder para tal.”

John Stuart Mill, Sobre a Liberdade, Lisboa, Edições 70, 2006, pág. 51.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Desresponsabilizar é desrespeitar

ataque terrorista contra o jornal francês Charlie Hedbo atentados terroristas de 11 de setembro de 2001

Porque é que aconteceu o ataque terrorista contra o jornal francês Charlie Hedbo que, no dia 7 de Janeiro de 2015, provocou doze mortos?

Por incrível que possa parecer a um leitor imparcial e sensato, há quem diga que a culpa – ou pelo menos parte dela - foi da austeridade e do desinvestimento no Estado Social. Há também quem diga que a culpa – ou pelo menos parte dela - é da política externa do governo francês, que não é suficientemente crítica de Israel e dos EUA. Há também quem diga que a culpa – ou pelo menos parte dela - é dos próprios jornalistas e cartoonistas assassinados, pois abusaram da liberdade de expressão e ofenderam a religião muçulmana. Há também quem diga que a culpa – ou pelo menos parte dela - é dos cristãos, pois no passado diversas igrejas cristãs, com destaque para a Igreja Católica, perseguiram pessoas de outras religiões, nomeadamente os muçulmanos. Há também quem diga que a culpa – ou pelo menos parte dela – é dos muçulmanos moderados que não se demarcam publicamente dos muçulmanos fundamentalistas e radicais. E, claro, há quem junte algumas dessas culpabilizações.

Por incrível que possa parecer a um leitor imparcial e sensato que tenha estado em coma nos últimos 15 anos e tenha agora acordado, explicações equivalentes costumam ser dadas quando se trata de explicar os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, que visaram vários alvos nos EUA, nomeadamente as Torres Gémeas em Nova Iorque, em que morreram quase três mil pessoas.

Contudo - seja o que for que pensemos sobre a política externa deste ou daquele país ou sobre a história e a convivência das várias religiões existentes, para não falar do modo como a actual crise económica está a ser enfrentada nos países envolvidos nos acontecimentos mencionados -, devia ser óbvio que a responsabilidade ou culpa de tais ações é, em primeiro lugar, de quem as praticou e, em segundo lugar, de quem as apoiou logisticamente e de quem as inspirou através de influências religiosas ou outras.

A responsabilidade relaciona-se com a autoria das ações. Dizer que uma pessoa é responsável por uma ação significa que sem a sua intervenção isso não teria sucedido. Se a pessoa é responsável por uma ação então deve responder por ela, ou seja, deve prestar contas. Se se tratar de uma ação errada diz-se que a pessoa é culpada – nesse caso, a responsabilidade significa culpa. Se se tratar de uma ação correta diz-se que a pessoa tem mérito – nesse caso, a responsabilidade significa mérito.

Atribuir a responsabilidade de acções como o 11 de Setembro ou o atentado de Paris a factores sociais económicos ou políticos - mesmo que estes sejam problemas a precisar de solução - constitui não só uma desresponsabilização dos seus autores como também a sua menorização enquanto pessoas e agentes livres e racionais. Dizer que realizaram essas acções - que envolveram grande premeditação, planeamento e preparação prática – apenas devido à influência nefasta destas ou daquelas entidades exteriores é apresentá-los como uma espécie de marionetas e negar-lhes o livre-arbítrio e a autonomia. Esse tipo de desculpabilização, portanto, constitui um desrespeito pelas pessoas desculpabilizadas. E, claro, pelas suas vítimas.

(No post De quem é a culpa? encontrará uma história de Fernando Savater que coloca o dedo na ferida relativamente à questão da responsabilidade por ações eticamente erradas, como é o caso do homicídio.)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Direitos humanos e liberdade de expressão

«Três homens vestidos de negro invadiram o hall da sede do semanário Charlie Hebdo, em Paris, com lança-foguetes e kalachnikovs. Há pelo menos 12 mortos, dois dos quais polícias, o diretor da publicação e três ilustradores. Presidente francês apelou à 'união do país' na luta contra o terrorismo: 'Este ato bárbaro nunca vai extinguir a liberdade de imprensa. Nós somos um país unido que vai reagir e não bloquear'.»

Notícia do Jornal Expresso. Vale também a pena ler este artigo de opinião de Henrique Monteiro: Je suis, somos todos, Charlie.

Nos cartoons  deste semanário francês também se caricaturavam outras religiões, a católica por exemplo. Não houve nunca manifestações violentas ou mortes devido a isso.

Porque não haveriam os cartoonistas de poder satirizar a religião islâmica e fazer o mesmo que fazem em relação às outras religiões? Porque é que se deveriam autocensurar neste caso?

Vivemos em países democráticos, onde a liberdade de pensamento e de expressão são direitos fundamentais. Este ataque terrorista é uma tentativa de mostrar que os que acreditam na democracia estão errados. Por isso, todos os cidadãos democratas foram hoje alvo deste ataque e não apenas os jornalistas que foram assassinados. Por isso, não devemos deixar-nos dominar pelo medo e abdicar da nossa liberdade.

No vídeo a seguir apresentado explica-se - em linguagem clara e acessível - o que são direitos humanos. Aconselho o seu visionamento.

No final do vídeo é defendida uma ideia (a mais importante, a meu ver): os direitos humanos só existem, para lá do que está escrito, se cada um de nós os colocar em prática e os respeitar no dia a dia. É bom não esquecer isto!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O Farol: um retrato do que a vida tem de melhor

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Este é um maravilhoso filme de animação - simples e muito, muito belo - a propósito do problema do sentido da vida. Apresenta uma resposta possível, há outras. Mas vale a pena conhecer esta.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Os preconceitos dos filósofos

maquiavel acerca dos preconceitos

 

«A filosofia deve pôr em questão os pressupostos básicos da época. Creio que pensar crítica e cuidadosamente naquilo que a maioria das pessoas tem por garantido é a tarefa principal da filosofia – é esta a tarefa que faz da filosofia uma actividade valiosa. Lamentavelmente, a filosofia nem sempre está à altura do seu papel histórico. Os filósofos são seres humanos e estão sujeitos a todos os preconceitos da sociedade a que pertencem. Por vezes conseguem libertar-se da ideologia prevalecente; com maior frequência, tornam-se os seus defensores mais sofisticados.

[Um exemplo disso é o especismo na filosofia contemporânea, ou seja, a ideia de que a espécie humana merece sempre um tratamento privilegiado relativamente às outras espécies animais.] Neste caso, a filosofia, como hoje é praticada nas universidades, não desafia os preconceitos sobre as nossas relações com as outras espécies. Através do que escrevem, os filósofos que se ocupam de problemas relacionados com a questão mostram que aceitam os mesmos pressupostos dogmáticos que a maior parte dos outros seres humanos, e aquilo que dizem contribuem para reforçar no leitor os seus confortáveis hábitos especistas.»

Peter Singer, “Todos os animais são iguais”, in Os animais têm direitos? – Perspectivas e Argumentos, organizado e traduzido por Pedro Galvão, Dinalivro, Lisboa, 2011, pp. 40-41.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Janelas Para a Filosofia

Janelas Para a Filosofia, de Aires Almeida e Desidério Murcho.
Coleção Filosofia Aberta.
Gradiva, Novembro de 2014, 311 pp
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Janelas Para a Filosofia de Aires Almeida e Desidério Murcho Gradiva coleção Filosofia Aberta

 

Muitas pessoas acreditam que existe um ser omnipotente, omnisciente, sumamente bom e criador do Universo – Deus. Mas se Deus existe como se explica que exista tanto mal (homicídios, guerras, doenças, terramotos, inundações, etc.) no mundo? Se Deus é sumamente bom não quer o mal, se é omnisciente conhece todos os males e se é omnipotente pode impedir esses males de ocorrerem. Por isso, a existência de mal sugere que Deus não existe. Contudo, pode-se objectar que o mal é o preço a pagar pelo facto de os seres humanos terem livre-arbítrio: se Deus nos tivesse criado sem a possibilidade de escolher entre o bem e o mal, se só pudéssemos escolher entre acções boas, essas escolhas não seriam moralmente significativas. Mas, mesmo que aceitemos esse argumento, ele só se aplica ao mal moral (resultante das acções humanas), deixa de fora o mal natural. Ora, um Deus sumamente bom, omnisciente e omnipotente conseguiria certamente evitar o enorme sofrimento provocado nos seres humanos e nos outros animais por acontecimentos naturais como as doenças e os terramotos. Mas um mundo sem essas desgraças seria realmente melhor que o nosso? Talvez não, pois não haveria oportunidade de desenvolver qualidades de carácter como a coragem e o heroísmo. Tudo pesado, a existência de Deus é ou não compatível com a existência do mal?

Como deve a riqueza ser distribuída para que haja justiça social? Imagine dois romancistas: um vende muitos livros e por isso tem muito dinheiro e o outro vende pouco e por isso vive com dificuldades. Os filhos do romancista rico frequentam uma excelente escola privada, inacessível aos filhos do romancista pobre. Terá o romancista rico a obrigação de pagar a educação dos filhos do romancista pobre? Ou seja: deverá o estado cobrar ao romancista rico e aos outros ricos impostos suficientemente elevados para financiar escolas públicas de qualidade? Robert Nozick achava isso injusto: comparava os impostos ao trabalho forçado e considerava-os uma violação dos direitos à liberdade e à propriedade legitimamente adquirida. John Rawls, pelo contrário, considerava justo cobrar tais impostos, pois isso permitiria redistribuir a riqueza, ajudar os mais pobres e promover a igualdade de oportunidades. Quem tem razão?

Os problemas aqui resumidos são dois dos problemas filosóficos discutidos no livro Janelas Para a Filosofia, de Aires Almeida e Desidério Murcho. Na introdução e nos seus nove capítulos o livro apresenta os problemas centrais de várias disciplinas filosóficas: ética, filosofia política, filosofia da arte, filosofia da religião, filosofia do conhecimento, filosofia da ciência, lógica e metafísica. Por exemplo: os valores são relativos ou objetivos? Haverá casos em que violar deliberadamente a lei seja moralmente aceitável? O que é a arte? O que é conhecer? Como se podem diferenciar teorias científicas e teorias não científicas? A vida tem sentido ou é absurda?

Janelas Para a Filosofia inspira-se em duas obras anteriores dos autores: os manuais 50 Lições de Filosofia (da Didáctica Editora) destinados ao 10º ano e ao 11º ano do ensino secundário. Apesar de alguns acrescentos os temas são os mesmos e o texto de muitas explicações é semelhante, embora existam também diversos aspetos que são mais aprofundados. A organização dos temas e a linguagem foram adaptadas para um público não escolar, mas, como reconhecem os autores no prefácio, este livro “vai buscar a sua espinha dorsal” a 50 Lições de Filosofia.

Tal como sucede com esses manuais, Janelas Para a Filosofia está escrito de uma maneira clara e simples e pode ser compreendido por leitores que pouco ou nada saibam de filosofia. Está escrito de maneira simples mas não simplista, conseguindo um notável equilíbrio entre o rigor conceptual e a simplicidade requerida por uma obra destinada a leitores não especialistas. A filosofia é por vezes associada a um discurso obscuro e vago em que não se percebe muito bem o que cada frase quer dizer, não conseguindo o leitor ou o ouvinte perceber se concorda ou discorda. Infelizmente, foi esse discurso que muitas pessoas ouviram nas suas aulas de Filosofia. Contudo, não é esse o género de filosofia que Aires Almeida e Desidério Murcho praticam: aquilo que escrevem exprime literalmente e sem vagueza as ideias em causa, pelo que os leitores poderão discuti-las e concordar ou discordar delas.

E esse é mesmo o seu objetivo confesso: querem divulgar a filosofia e apresentar os seus problemas ao leitor comum de uma maneira crítica e não dogmática, querem que o leitor pense acerca dos problemas filosóficos e tente formar opiniões informadas acerca deles – querem, em suma, fazê-lo filosofar.

“Procurámos abrir caminhos de reflexão e dar instrumentos de autonomia intelectual. (…) Esperamos que as janelas abertas tenham permitido ficar com uma ideia razoavelmente precisa da natureza e da importância da filosofia. E que, além disso, tenham estimulado o leitor a participar (…) na discussão filosófica.” (pp. 12 e 300)

Para interpelar os leitores desse modo é necessário apresentar a filosofia como uma discussão crítica e racional e não como um museu de filósofos que é preciso venerar e de teorias que é preciso repetir. Os problemas filosóficos são problemas em aberto: os especialistas não estão de acordo acerca das soluções (muitas vezes não estão sequer de acordo acerca da formulação dos problemas). Por isso, é necessário comparar as diferentes teorias e avaliar tanto os argumentos que existem a seu favor como as objeções que suscitam, para que o leitor possa descobrir por si próprio quem tem razão e qual é a teoria mais plausível. É precisamente esse o método seguido nestas  Janelas Para a Filosofia abertas de par em par – e que, por isso, convidam o leitor não só a espreitar como a entrar na casa da filosofia.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Um Ano Novo que mereça este nome

mafalda ano novo mundo melhor

A capa do Tintin publicado no primeiro número de 1947

calvin hobbes new years resolutions resoluções de ano novo

 o-que-o-ano-novo-ira-nos-trazer-365-oportunidades-2126

“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”

Um 2015 :)