sábado, 3 de janeiro de 2015

Janelas Para a Filosofia

Janelas Para a Filosofia, de Aires Almeida e Desidério Murcho.
Coleção Filosofia Aberta.
Gradiva, Novembro de 2014, 311 pp
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Janelas Para a Filosofia de Aires Almeida e Desidério Murcho Gradiva coleção Filosofia Aberta

 

Muitas pessoas acreditam que existe um ser omnipotente, omnisciente, sumamente bom e criador do Universo – Deus. Mas se Deus existe como se explica que exista tanto mal (homicídios, guerras, doenças, terramotos, inundações, etc.) no mundo? Se Deus é sumamente bom não quer o mal, se é omnisciente conhece todos os males e se é omnipotente pode impedir esses males de ocorrerem. Por isso, a existência de mal sugere que Deus não existe. Contudo, pode-se objectar que o mal é o preço a pagar pelo facto de os seres humanos terem livre-arbítrio: se Deus nos tivesse criado sem a possibilidade de escolher entre o bem e o mal, se só pudéssemos escolher entre acções boas, essas escolhas não seriam moralmente significativas. Mas, mesmo que aceitemos esse argumento, ele só se aplica ao mal moral (resultante das acções humanas), deixa de fora o mal natural. Ora, um Deus sumamente bom, omnisciente e omnipotente conseguiria certamente evitar o enorme sofrimento provocado nos seres humanos e nos outros animais por acontecimentos naturais como as doenças e os terramotos. Mas um mundo sem essas desgraças seria realmente melhor que o nosso? Talvez não, pois não haveria oportunidade de desenvolver qualidades de carácter como a coragem e o heroísmo. Tudo pesado, a existência de Deus é ou não compatível com a existência do mal?

Como deve a riqueza ser distribuída para que haja justiça social? Imagine dois romancistas: um vende muitos livros e por isso tem muito dinheiro e o outro vende pouco e por isso vive com dificuldades. Os filhos do romancista rico frequentam uma excelente escola privada, inacessível aos filhos do romancista pobre. Terá o romancista rico a obrigação de pagar a educação dos filhos do romancista pobre? Ou seja: deverá o estado cobrar ao romancista rico e aos outros ricos impostos suficientemente elevados para financiar escolas públicas de qualidade? Robert Nozick achava isso injusto: comparava os impostos ao trabalho forçado e considerava-os uma violação dos direitos à liberdade e à propriedade legitimamente adquirida. John Rawls, pelo contrário, considerava justo cobrar tais impostos, pois isso permitiria redistribuir a riqueza, ajudar os mais pobres e promover a igualdade de oportunidades. Quem tem razão?

Os problemas aqui resumidos são dois dos problemas filosóficos discutidos no livro Janelas Para a Filosofia, de Aires Almeida e Desidério Murcho. Na introdução e nos seus nove capítulos o livro apresenta os problemas centrais de várias disciplinas filosóficas: ética, filosofia política, filosofia da arte, filosofia da religião, filosofia do conhecimento, filosofia da ciência, lógica e metafísica. Por exemplo: os valores são relativos ou objetivos? Haverá casos em que violar deliberadamente a lei seja moralmente aceitável? O que é a arte? O que é conhecer? Como se podem diferenciar teorias científicas e teorias não científicas? A vida tem sentido ou é absurda?

Janelas Para a Filosofia inspira-se em duas obras anteriores dos autores: os manuais 50 Lições de Filosofia (da Didáctica Editora) destinados ao 10º ano e ao 11º ano do ensino secundário. Apesar de alguns acrescentos os temas são os mesmos e o texto de muitas explicações é semelhante, embora existam também diversos aspetos que são mais aprofundados. A organização dos temas e a linguagem foram adaptadas para um público não escolar, mas, como reconhecem os autores no prefácio, este livro “vai buscar a sua espinha dorsal” a 50 Lições de Filosofia.

Tal como sucede com esses manuais, Janelas Para a Filosofia está escrito de uma maneira clara e simples e pode ser compreendido por leitores que pouco ou nada saibam de filosofia. Está escrito de maneira simples mas não simplista, conseguindo um notável equilíbrio entre o rigor conceptual e a simplicidade requerida por uma obra destinada a leitores não especialistas. A filosofia é por vezes associada a um discurso obscuro e vago em que não se percebe muito bem o que cada frase quer dizer, não conseguindo o leitor ou o ouvinte perceber se concorda ou discorda. Infelizmente, foi esse discurso que muitas pessoas ouviram nas suas aulas de Filosofia. Contudo, não é esse o género de filosofia que Aires Almeida e Desidério Murcho praticam: aquilo que escrevem exprime literalmente e sem vagueza as ideias em causa, pelo que os leitores poderão discuti-las e concordar ou discordar delas.

E esse é mesmo o seu objetivo confesso: querem divulgar a filosofia e apresentar os seus problemas ao leitor comum de uma maneira crítica e não dogmática, querem que o leitor pense acerca dos problemas filosóficos e tente formar opiniões informadas acerca deles – querem, em suma, fazê-lo filosofar.

“Procurámos abrir caminhos de reflexão e dar instrumentos de autonomia intelectual. (…) Esperamos que as janelas abertas tenham permitido ficar com uma ideia razoavelmente precisa da natureza e da importância da filosofia. E que, além disso, tenham estimulado o leitor a participar (…) na discussão filosófica.” (pp. 12 e 300)

Para interpelar os leitores desse modo é necessário apresentar a filosofia como uma discussão crítica e racional e não como um museu de filósofos que é preciso venerar e de teorias que é preciso repetir. Os problemas filosóficos são problemas em aberto: os especialistas não estão de acordo acerca das soluções (muitas vezes não estão sequer de acordo acerca da formulação dos problemas). Por isso, é necessário comparar as diferentes teorias e avaliar tanto os argumentos que existem a seu favor como as objeções que suscitam, para que o leitor possa descobrir por si próprio quem tem razão e qual é a teoria mais plausível. É precisamente esse o método seguido nestas  Janelas Para a Filosofia abertas de par em par – e que, por isso, convidam o leitor não só a espreitar como a entrar na casa da filosofia.

2 comentários:

Carlos Pires disse...

Exclui este parágrafo (seria o segundo ou terceiro) pois o texto já ia longo:

O que é a arte? Dar exemplos parece fácil: o quadro ‘A Persistência da Memória’ de Dalí é arte mas a fotografia do BI não é arte, a Basílica da Estrela é arte mas os seus sanitários não são arte. Porém, essa facilidade desaparece se pensarmos em obras como ‘Fonte’ de Marcel Duchamp: um urinol adquirido numa fábrica de loiça sanitária e que é uma das mais famosas obras de arte do século XX. Porque é que os urinóis de uma casa de banho não são arte e o urinol de Duchamp é arte? Que características deve uma coisa ter para ser arte? Deve ser, como queria Aristóteles, uma imitação? Mas a arte abstrata não parece imitar nada. Deve ser uma representação de algo? Contudo, a música minimal repetitiva não parece representar nada. Ou deve ser, como defendeu R. G. Collingwood, “uma expressão intencional e clarificadora de certos sentimentos”? Mas, se para haver arte o artista tivesse de sentir o que exprime, os atores de teatro e cinema não fariam arte, pois provavelmente não sentem todos os sentimentos que tentam exprimir. Afinal, talvez a distinção entre o que é arte e o que não é arte não resida em nenhuma característica intrínseca à obra, mas derive do contexto institucional em que a obra surge: algo é arte, como defende George Dickie, se for proposto para ser apreciado por alguém do “mundo da arte” (artistas, críticos, galeristas, etc.). No fundo, algo é arte se alguém do meio artístico disser que é arte. Não parece fácil arranjar contra-exemplos a esta tentativa de definição, mas ela não é imune a objeções. Uma delas acusa-a de ser circular: o conceito de “mundo da arte” pressupõe o conceito que se pretende definir – arte. Será que, afinal, a arte – por ser um conceito aberto e constantemente sujeito a revisões – é indefinível? Talvez, mas também existem objeções contra essa ideia.

Anónimo disse...

NOVO OLHAR SOBRE A MATEMÁTICA, Jornal Beira do Rio, UFPA, Abril 2011,

www.jornalbeiradorio.ufpa.br/novo/index.php/2011/124-edicao-93--abril/1189-novo-olhar-sobre-a-matematica



MÁRIO SERRA - ENGENHEIRO, MATEMÁTICO E AMAZÔNIDA, Jornal Beira do Rio, UFPA, Ano XXVIII Nº 120. Agosto e Setembro de 2014,

http://www.jornalbeiradorio.ufpa.br/novo/index.php/2014/152-2014-08-01-17-25-17/1618-2014-08-04-14-34-28



ALGUMAS MULHERES DA HISTÓRIA DA MATEMÁTICA E QUESTÃO DE GÊNERO EM C & T.

http://opirata2.blogspot.com.br/2012/05/livro-algumas-mulheres-da-historia-da.html

http://sitiodascorujas.blogspot.com.br/2013/06/mulheres-na-matematica.html



CONSTANTINO MENEZES DE BARROS I - MATEMÁTICO QUE LIGA O PARÁ/BR AOS MAIORES CENTROS DO MUNDO E COMPARÁVEL AOS GRANDES ÍCONES DA HISTÓRIA DA MATEMÁTICA (II a V não publicados, disponível por e-mail), (Óbidos-Pa, 19/08/1931, Rio de Janeiro-RJ, 06/03/1983), Ex-Docente UFF e UFRJ,

www.chupaosso.com.br/index.php/obidos/educacao/2149-vida-e-obra-de-constantino-menezes-de-barros

JOAQUIM GOMES DE SOUZA, "O SOUZINHA" (1829-1864) E MARÍLIA CHAVES PEIXOTO (1921 - 1961): OS PAIS DA MEDALHA FIELDS BRASILEIRA (não publicado, disponível por e-mail)



PROFESSORA SANTANA: Candidata a Melhor Docente do Ensino Básico Paraense, Blog Chupa Osso, 23 Junho 2013, www.chupaosso.com.br/index.php/obidos/educacao/2453-proessora-santana-candidata-a-melhor-docente-do-ensino-basico-paraense



SABER MATEMÁTICO E CULTURA INDÍGENA, blogue da AICL, 20 de Setembro de 2011,

http://coloquioslusofonia.blogspot.com.br/2011/09/saber-matematico-e-cultura-indigena.html



PAIRÉ CAMETAENSE: UMA BELA OBRA EM MATEMÁTICA E ENGENHARIA (não publicado, disponível por e-mail)



DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA E PATRIMÔNIO CULTURAL EM MATEMÁTICA (não publicado, disponível por e-mail)



NOTAS DE CÁLCULO I, SEGUNDO PRECEITOS DA FILOSOFIA ZENONISTA,

www.sobralmatematica.org/editora/notas_calculo_JBNascimento.pdf