quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Desprezo pela superstição

H. G. Wells    david lodge

Um Homem de Partes, o livro mais recente de David Lodge, é um excelente romance biográfico sobre o escritor H. G. Wells, o famoso autor de A Guerra dos Mundos e A Máquina do Tempo.

Eis um excerto. Pode ler aqui outro excerto apetitoso.

«Na primavera de 1944, Hanover Terrace, uma elegante fiada de moradias de Nash no perímetro ocidental de Regent’s Park, apresenta-se claramente danificada pela guerra. A sua fachada de estuque creme, sem conservação desde 1939, está enegrecida, cheia de fendas e com a pintura a estalar; muitas janelas, estilhaçadas pela explosão das bombas ou pelas ondas de choque provocadas pelas baterias antiaéreas de Primrose Hill, estão entaipadas (…).

Só uma casa, a n. º 13, foi permanentemente ocupada durante a guerra pelo seu proprietário, Mr. H. G. Wells. Durante o Blitz [bombardeamentos aéreos perpetrados pela aviação nazi] sobre Londres, em 1940-1, foi frequentemente importunado com a sugestão de que o número da sua porta podia dar azar, ao que reagiu, em coerência com o desprezo que sempre tivera pelas superstições, mandando pintar um “13” maior ao lado da porta da entrada. Recusou-se obstinadamente a ir viver para o campo, dizendo que ”o Hitler (ou, se estava em companhia masculina, ‘esse Hitler de merda’) não me vai obrigar a fugir”, e manteve-se firme em Hanover Terrace enquanto os seus vizinhos, um a um, se esgueiravam sorrateiramente para refúgios rurais seguros e as respetivas casas eram subarrendadas ou ficavam devolutas. (…)

[Mas] H. G. nunca arredou pé, fiel à sua rotina de escrever livros, responder a cartas, dar o seu passeio higiénico diário - atravessando a rua, entrando no parque e indo até ao Zoo ou ao Rose Garden, ou descendo Baker Street até ao Savile Club, em Brook Street, com uma paragem pelo caminho para dar uma olhadela pelos livros na livraria Smith’s.»

David Lodge, Um Homem de Partes, Asa, 2013, pp. 13-14.

sábado, 17 de agosto de 2013

Para termos amigos temos de saber ser amigos

fotografia de Pierre Verger 

«Se fosse preciso provar que os seres humanos são essencialmente criaturas sociais , a existência da amizade fornecer-nos-ia tudo o que desejássemos. Como afirmou Aristóteles: “Ninguém escolheria viver sem amigos, mesmo que tivesse todos os outros bens”. (…)

Os amigos prestam auxílio, mas os benefícios da amizade vão muito além da assistência material. Sem amigos, estaríamos psicologicamente perdidos. Os nossos triunfos parecem vazios a menos que tenhamos amigos para os partilhar, e os nossos fracassos tornam-se suportáveis graças à sua compreensão. Até mesmo o nosso amor-próprio depende em grande medida das garantias dos amigos: ao retribuírem o nosso afeto, confirmam o nosso valor como seres humanos.

Se necessitamos de amigos, necessitamos igualmente das qualidades de caráter que nos capacitam para ser amigos. No topo da lista está a lealdade. Os amigos são pessoas com quem se pode contar. Apoiam-se mutuamente mesmo quando as coisas ficam feias, ou mesmo quando, falando objetivamente, o amigo merecia ser abandonado. Fazem concessões entre si; perdoam ofensas e refreiam juízos mais duros. Há limites, naturalmente. Por vezes, um amigo será a única pessoa capaz de nos dizer as verdades mais duras sobre nós mesmos. Mas as críticas são aceitáveis da parte de amigos porque sabemos que as sua repreensão não significa rejeição (…).

Todos precisam de amigos, e para termos amigos temos de saber ser amigos; por isso, todos precisamos de lealdade.»

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Gradiva, Lisboa, 2004, pp 255-256, 260.

(Fotografia de Pierre Verger)

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Simon Blackburn em Coimbra: “de cara levantada ao lado da tradição”

simon blackburn    Simon Blackburn  Dicionário de Filosofia    Pense, Uma introdução à filosofia, de Simon Blackburn

Simon Blackburn, autor de Dicionário de Filosofia e Pense: Uma introdução à filosofia, será um dos oradores do 11.º Encontro Nacional de Professores de Filosofia que decorrerá em Coimbra nos dias 6 e 7 de Setembro. A comunicação de Simon Blackburn intitula-se “Philosophy, Science, and Human Nature”. (Veja o programa completo aqui.)

Como aperitivo aqui fica um excerto da Introdução a Pense.

«Nos últimos 2 mil anos, a tradição filosófica tem (…) insistido na ideia de que uma vida não examinada não vale a pena ser vivida. Tem insistido no poder da reflexão racional para descobrir o que há de errado nas nossas práticas e para as substituir por práticas melhores. Tem identificado a autorreflexão crítica com a liberdade — e a ideia é que só quando nos conseguimos ver a nós mesmos de forma adequada podemos controlar a direção em que desejamos caminhar. Só quando conseguimos ver a nossa situação de forma estável e a vemos na sua totalidade podemos começar a pensar no que fazer a seu respeito. Marx disse que os filósofos anteriores tinham procurado compreender o mundo, ao passo que o que era preciso era mudá-lo — uma das asserções famosas mais tolas de todos os tempos (e completamente desmentida pela sua própria prática intelectual). Teria sido melhor que Marx tivesse acrescentado que sem compreender o mundo, pouco saberemos em termos de como o mudar — pelo menos para melhor. Rosencranz e Guildenstern admitem não saber tocar gaita-de-foles, mas tentam manipular Hamlet. Quando agimos sem compreensão, o mundo está perfeitamente preparado para dar voz à reação de Hamlet: “Pensais que eu sou mais fácil de controlar que uma gaita-de-foles?”

Há correntes académicas no nosso tempo que são contra estas ideias. Há pessoas que questionam a própria noção de verdade, de razão, ou a possibilidade da reflexão desapaixonada. Na sua maior parte, fazem má filosofia, muitas vezes sem saberem que é isso que estão a fazer (…). Voltaremos a esta questão várias vezes ao longo do livro, mas para já posso prometer que este livro está de cara levantada ao lado da tradição e contra qualquer ceticismo moderno, ou pós-moderno, quanto ao valor da reflexão.»

Simon Blackburn, Pense: Uma introdução à filosofia, Gradiva, Lisboa, 2000, pp. 21-22.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A filosofia pode mudar o mundo?

as ideias podem mudar o mundo

«Os filósofos gostam de pensar que as suas ideias podem mudar o mundo. Geralmente, trata-se de uma vã esperança: escrevem livros que são lidos por pensadores como eles, enquanto o resto da humanidade prossegue o seu caminho, indiferente. Algumas vezes, uma teoria filosófica pode, no entanto, alterar a forma como as pessoas pensam.»

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Gradiva, Lisboa, 2004, pág. 135.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A educação não impede o mal, mas torna-o um pouco menos provável

A woman and her child are killed as they run across the fields

«O ensino – e, em especial, o “ensino liberal” – é aquilo que torna possível a sociedade civil. (…)

Com “ensino liberal” refiro-me ao ensino que inclui literatura, história e apreciação das artes, atribuindo-lhe um peso igual ao que é dado às matérias científicas e práticas. O ensino nestas áreas oferece-nos a possibilidade de viver mais reflexiva e conhecedoramente, especialmente no que diz respeito à gama da experiência e do sentimentos humanos, tal como existe aqui e agora, assim como alhures e no passado. Isso, por sua vez, faz-nos entender melhor os interesses, necessidades e desejos dos outros, permitindo que os tratemos com respeito e compreensão, por muito diferentes das nossas que sejam as escolhas que fazem ou as experiências que moldaram as suas vidas. Quando o respeito e a compreensão são retribuídos, tornando-se mútuos, as brechas que poderiam suscitar fricção entre as pessoas, e até guerra, são unidas ou, pelo menos, toleradas. E basta o último caso.

A visão é utópica: não há dúvida que havia oficiais das SS que liam Goethe e ouviam Beethoven, e a seguir iam trabalhar para as câmaras de gás – portanto, o ensino liberal não produz automaticamente pessoas melhores. Mas fá-lo muito mais frequentemente do que a estupidez e o egoísmo que acompanham a falta de conhecimento e o discernimento medíocre.»

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pág. 187.

Lembrei-me destas palavras de Grayling ao ler que “the highest proportion of Nazi party members came from the educated classes” (aqui, no 15º parágrafo).

domingo, 11 de agosto de 2013

Tem que se fazer justiça, nem que o céu desabe

“Os prejuízos que alguns possam enfrentar devido à dissolução de alguma prática ou instituição não serve para defender que permitamos a sua manutenção. Ninguém tem o direito a ser protegido de prejuízos se a proteção em questão envolver a violação dos direitos dos outros. Ninguém tem o direito a ser protegido pela manutenção de uma prática injusta, que viola os direitos dos outros. Tem de se fazer justiça, nem que o céu desabe.”

Tom Regan, The Case for Animal Rights

(Citado por Carl Cohen, no ensaio “Os animais têm direitos?”, do livro Os animais têm direitos? – Perspectivas e Argumentos, organizado e traduzido por Pedro Galvão, Dinalivro, Lisboa, 2011, pág. 66).

touro de fogo em espanha

Segundo Tom Regan, não são apenas os seres humanos que têm tais direitos mas também muitos animais não humanos. As duas principais questões que lhe podemos colocar são:

Os animais não humanos terão realmente direitos?

Haverá direitos absolutos e invioláveis?

(Informações sobre os touros de fogo aqui.)

5 anos

O Dúvida Metódica faz hoje cinco anos e… Adiante, que o calor desencoraja os balanços. Este foi o primeiro post: Filosofar. Se quiser soprar as velas clique, por exemplo, aqui.

Filósofos-em-Ação-Volume-1

o pensador

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Algumas regras morais são universais

Há «valores que têm de ser mais ou menos universais. Imagine-se o que seria uma sociedade que não valorizasse a verdade. Quando uma pessoa falasse com outra, não poderia partir-se do princípio de que estaria a dizer a verdade, pois poderia facilmente estar a mentir. Nessa sociedade não haveria qualquer motivo para dar atenção ao que os outros dizem. (Pergunto que horas são e alguém responde “quatro horas”. Mas não posso presumir que a pessoa está a dizer a verdade; poderia facilmente ter dito a primeira coisa que lhe tivesse passado pela cabeça. Não tenho, pois, qualquer razão para dar atenção à sua resposta. De facto, não faz qualquer sentido ter-lhe sequer perguntado.) A comunicação seria então extremamente difícil, senão mesmo impossível. E uma vez que as sociedades complexas não podem existir sem comunicação entre os seus membros, a vida em sociedade tornar-se-ia impossível. Daqui se conclui que em qualquer sociedade complexa tem de haver uma presunção em favor da boa-fé. Pode haver exceções a esta regra: pode haver situações nas quais se considere permissível mentir. No entanto, estas serão exceções a uma regra que está em vigor na sociedade. (…)

Há aqui uma conclusão teórica geral, a saber, há algumas regras morais que todas sociedades têm em comum, pois essas regras são necessárias para a sociedade poder existir. As regras contra a mentira e o homicídio são dois exemplos disso, pois, de facto, encontramos estas regras instituídas em todas as culturas viáveis. As culturas podem diferir relativamente ao que encaram como exceções legítimas às regras, mas esta discordância existe contra um acordo de fundo nas questões fundamentais. Logo, é um erro sobrestimar as diferenças entre culturas. Nem todas as regras morais podem variar de sociedade para sociedade.»

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Gradiva, Lisboa, 2004, pp. 46-47.

Elementos de Filosofia Moral de James Rachels

sábado, 3 de agosto de 2013

Ateísmo

“Não se trata apenas de eu não acreditar em Deus e de, como é natural, esperar ter razão. Trata-se de eu ter a esperança de que não exista Deus! Não quero que exista Deus; não quero que o universo seja dessa maneira.”
Thomas Nagel, A Última Palavra, Gradiva, Lisboa, 1999, pág. 155.
Thomas Nagel