quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Simon Blackburn em Coimbra: “de cara levantada ao lado da tradição”

simon blackburn    Simon Blackburn  Dicionário de Filosofia    Pense, Uma introdução à filosofia, de Simon Blackburn

Simon Blackburn, autor de Dicionário de Filosofia e Pense: Uma introdução à filosofia, será um dos oradores do 11.º Encontro Nacional de Professores de Filosofia que decorrerá em Coimbra nos dias 6 e 7 de Setembro. A comunicação de Simon Blackburn intitula-se “Philosophy, Science, and Human Nature”. (Veja o programa completo aqui.)

Como aperitivo aqui fica um excerto da Introdução a Pense.

«Nos últimos 2 mil anos, a tradição filosófica tem (…) insistido na ideia de que uma vida não examinada não vale a pena ser vivida. Tem insistido no poder da reflexão racional para descobrir o que há de errado nas nossas práticas e para as substituir por práticas melhores. Tem identificado a autorreflexão crítica com a liberdade — e a ideia é que só quando nos conseguimos ver a nós mesmos de forma adequada podemos controlar a direção em que desejamos caminhar. Só quando conseguimos ver a nossa situação de forma estável e a vemos na sua totalidade podemos começar a pensar no que fazer a seu respeito. Marx disse que os filósofos anteriores tinham procurado compreender o mundo, ao passo que o que era preciso era mudá-lo — uma das asserções famosas mais tolas de todos os tempos (e completamente desmentida pela sua própria prática intelectual). Teria sido melhor que Marx tivesse acrescentado que sem compreender o mundo, pouco saberemos em termos de como o mudar — pelo menos para melhor. Rosencranz e Guildenstern admitem não saber tocar gaita-de-foles, mas tentam manipular Hamlet. Quando agimos sem compreensão, o mundo está perfeitamente preparado para dar voz à reação de Hamlet: “Pensais que eu sou mais fácil de controlar que uma gaita-de-foles?”

Há correntes académicas no nosso tempo que são contra estas ideias. Há pessoas que questionam a própria noção de verdade, de razão, ou a possibilidade da reflexão desapaixonada. Na sua maior parte, fazem má filosofia, muitas vezes sem saberem que é isso que estão a fazer (…). Voltaremos a esta questão várias vezes ao longo do livro, mas para já posso prometer que este livro está de cara levantada ao lado da tradição e contra qualquer ceticismo moderno, ou pós-moderno, quanto ao valor da reflexão.»

Simon Blackburn, Pense: Uma introdução à filosofia, Gradiva, Lisboa, 2000, pp. 21-22.

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