terça-feira, 7 de maio de 2013

Rawls: ideias a reter

«Suponha que tinha acabado de acordar numa cama de hospital. Primeiro, apercebia-se de que tinha sofrido uma perda considerável de memória. Olhando para baixo, via que estava enfaixado dos pés à cabeça. Não se recordava do seu nome nem do seu sexo e raça – também não conseguia descobri-los através das ligaduras (a etiqueta no pulso enfaixado revelava apenas um número). Os factos acerca da família, ocupação, classe, capacidade, competência, etc., estão completamente perdidos. Recorda-se de algumas teorias gerais aprendidas, em tempos, nas aulas de economia e sociologia, mas de nada se lembra das aulas de história. Na verdade, nem sequer sabe em que século está. Nessa altura, um homem de bata branca entra na enfermaria. “Bom dia”, diz ele. “Sou o professor John Rawls. Amanhã a sua memória regressará, as ligaduras ser-lhe-ão retiradas e poderá partir. Portanto, não temos muito tempo. O que precisamos que nos diga é como gostaria que a sociedade fosse concebida, tendo sempre em mente que, a partir de amanhã, viverá na sociedade que tiver escolhido. Embora não saiba quais são os seus verdadeiros interesses, posso dizer-lhe que precisa de tantos bens primários quanto possível (…). Regressarei, ao fim da tarde, para saber o que decidiu”. Nestas circunstâncias o que seria racional escolher?»

Jonathan Wolff, Introdução à filosofia política, tradução de Fátima St. Aubyn, Lisboa, 2004, Edições 70, págs. 229-230.

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