
«É possível, num poema ou num conto, escrever sobre coisas e objetos quotidianos usando linguagem quotidiana mas precisa, e dotar essas coisas – uma cadeira, uma cortina, um garfo, uma pedra, os brincos de uma mulher – de um poder imenso, quase espantoso. É possível escrever uma linha de diálogo aparentemente inócuo e fazer com que essa linha provoque um arrepio na espinha do leitor – a fonte de deleite artístico, como queria Nabokov. É esse género de escrita que me interessa. Detesto escrita confusa ou aleatória, seja ela experimentação ou simplesmente realismo desastrado. No maravilhoso conto “Guy de Maupassant”, de Isaac Babel, o narrador tem o seguinte a dizer sobre a escrita de ficção: Nenhum ferro pode trespassar o coração com tanta força como um ponto final no lugar certo.”»
Raymond Carver, Fogos, Quetzal, 2012.
Na filosofia também é desejável o uso de uma linguagem clara e precisa, como defende Raymond Carver relativamente à literatura, não para provocar “arrepios na espinha do leitor” ou “deleite artístico”, mas porque a clareza torna mais fácil perceber quais são realmente as ideias expressas pelas palavras - de modo a podermos fazer aquilo que é mais importante em filosofia: discutir se essas ideias são verdadeiras ou falsas. Quando um autor usa uma linguagem pouco clara não sabemos muitas vezes se devemos ou não concordar com ele, pois não sabemos bem se as palavras usadas exprimem a ideia X, Y ou Z.
Julgo que a filosofia teria muito a ganhar se todos os filósofos e aprendizes de filósofos tentassem escrever com clareza. Duvido, contudo, que a literatura ficasse melhor se todos os escritores adotassem o estilo de Raymond Carver, apesar de eu gostar bastante dos livros dele. Como é óbvio, há escritores palavrosos e rebuscados cujas obras causam “arrepios na espinha do leitor” e outras formas de “deleite artístico”. Escrever com clareza é a única forma de fazer boa filosofia, mas escrever como Raymond Carver não é a única forma de fazer boa literatura.