sábado, 31 de dezembro de 2011

Em 2012: vamos inventar o futuro!

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A fotografia foi tirada daqui.

O futuro tem muitos nomes.
Para os fracos é o inalcançável.
para os temerosos, o desconhecido.
Para os valentes é a oportunidade.

Victor Hugo

O poema foi copiado deste sítio.

Um Bom Ano Novo a todos os leitores do Dúvida Metódica!

Respostas temporárias: um estímulo para seguir em frente

Na parte final do livro - "O grande inquisidor" - sobre o grande físico italiano, Ettore Majorana (desaparecido misteriosamente em 1938, tal como é relatado no vídeo),  João Magueijo faz algumas reflexões acerca da relação entre a verdade e a ciência que vale a pena ler.

“Este livro não poderia ficar mais em aberto , a verdadeira razão por que quis escrevê-lo: odeio verdades eternas. Não sabemos o que aconteceu a Ettore, e não sabemos se o neutrino é de Majorana. Mas que interessa? Como Einstein e Infeld uma vez disseram, a ciência é um mau triller, daqueles em que nunca se chega a saber quem é o culpado.

Mesmo que um dia uma experiência mostre que o neutrino é de Majorana, podemos ter a certeza que antes que passem mais cem anos outra experiência acabará por demonstrar que a construção de Ettore continua a ser apenas uma aproximação grosseira da realidade. A natureza é sempre mais profunda e complexa do que conseguimos imaginar, e com o benefício de uma visão retrospectiva os nossos pequenos passos acabarão sempre por parecer simplórios e ingénuos. Neste sentido, o neutrino nunca poderá ser de Majorana – nem de Dirac. Nem de quem quer que seja. A falta de uma resposta definitiva não é apenas o fim deste livro: é a natureza da ciência.

Tal como acontece com o neutrino, a história de Ettore também é esquiva. Mesmo que viéssemos a descobrir com certeza o que lhe aconteceu, nunca saberíamos porque o fez – o que é muito mais importante. Esta ausência de uma verdade final não deve entristecer-nos: pelo menos não alimentamos ilusões de omnisciência.

(…) Não me importo de viver na ignorância, desde que saiba que foi feito um esforço; são as visões de respostas temporárias que nos estimulam para seguir em frente, criando tensão e vida.”

João Magueijo, O Grande Inquisidor, a vida extraordinária e o desaparecimento misterioso de Ettore Majorana, génio atormentado da era nuclear, tradução de Helena Ramos, 1ª edição, Lisboa 2011, Editora Gradiva págs. 442-444.

O poder da ciência ao serviço do poder político?

Este é um excelente documentário da BBC, realizado em 1992 por David Sington, sobre o contributo de alguns físicos (Heisenberg, entre outros) para a construção da bomba atómica e as pressões políticas a que estiveram sujeitos durante a Segunda Guerra Mundial. Um caso em que o génio e as descobertas científicas de alguns influenciaram o rumo da história e vida de muitos.

Aconselho o visionamento, sobretudo, a quem tem dúvidas acerca do poder do conhecimento e quer compreender melhor o mundo em que vivemos.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O facto de sermos falíveis não significa que somos incapazes de descobrir a verdade

«As novas descobertas estão constantemente a obrigar-nos a rever as ideias que temos acerca do passado. Mas a verdade está lá à nossa espera. Nós podemos chegar à verdade. É só uma questão de fazermos o nosso trabalho. Nada mais que isso.»

V.S. Naipaul, A curva do rio, Quetzal, Lisboa, 2011, pág. 198.

geocentrismo

Qual é a medida do possível?

Melhor é desejar do céu
coisas que assentem a um espírito mortal,
sabendo o que se encontra a nossos pés,
e qual a sorte para que nascemos.

Ó minh'alma, não aspires
a uma existência de imortal,
mas goza plenamente
tudo o que esteja ao teu alcance.

Píndaro, 3ª Pítica (excerto encontrado aqui, no blogue Primeiros Escritos.)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Qual é o balanço de 2011?

polícia grego em chamas

Polícia grego em chamas após ser atingido por uma bomba de petróleo atirada por manifestantes, em Atenas, no dia 23 de Fevereiro de 2011.

bpm

Aurora boreal, no Alasca, a 9 de Março de 2011.

(Fotografias encontradas aqui, entre dezenas de outras excelentes fotografias de acontecimentos ocorridos em 2011.)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Uma canção de Natal diferente

… agora que o Natal já passou.

Viver e nada mais talvez seja pouco

“Quando chegámos a África [vindos do norte da Índia], ninguém saberia dizer-me. O que não admira, não éramos gente que se preocupasse com essas coisas. Limitávamo-nos a viver, viver e nada mais; fazíamos o que se esperava que fizéssemos, o que as gerações anteriores tinham feito. Nunca perguntávamos porquê; nunca escrevemos a nossa história. (…)

Na nossa casa nunca houve uma discussão política. Não eram tolos ou ingénuos os meus familiares. O meu pai e os irmãos dele eram comerciantes, negociantes; à sua maneira tinham de se adaptar às mudanças dos tempos. Eram capazes de avaliar situações; corriam riscos e por vezes mostravam-se mesmo audaciosos. Mas estavam tão profundamente envolvidos nas suas vidas que nunca seriam capazes de parar para examinar a natureza dessas vidas.”

V.S. Naipaul, A curva do rio, Quetzal, Lisboa, 2011, pp. 21-22 e 28.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sabias que és parecido a uma pessoa acorrentada no fundo de uma caverna?

Segundo Platão, eu, __________________________ (nome), sou parecido(a) aos prisioneiros da Alegoria da Caverna. Julgo que Platão está _________________(certo/errado), pois_______.

No primeiro teste de Filosofia do 10º da turma D, realizado no passado mês de Outubro, esta era a pergunta 8. Houve várias respostas boas, mas as melhores foram dadas pelos alunos Fábio Gonçalves e Rafael Fonseca. Pedi-lhes para conversarem um com o outro e com base nas respostas dadas no teste construírem um texto com que ambos concordassem. Ei-lo.

Segundo Platão, nós somos parecidos aos prisioneiros da Alegoria da caverna. Julgamos que Platão está certo, pois, tal como os prisioneiros, nós - Fábio e Rafael, mas também os outros seres humanos – muitas vezes adotamos crenças acriticamente. Tal como os prisioneiros, estamos presos por “correntes” (metafóricas, claro) que nos iludem, parcialmente ou mesmo globalmente, acerca do que é real e do que não é.

A Alegoria da Caverna fala-nos de um grupo de seres humanos que se encontram presos no fundo de uma caverna. A única coisa que conseguem ver são sombras e julgam que estas são reais – julgam que são a realidade. Depois, há um prisioneiro que sai da caverna: vivia numa ilusão mas liberta-se das correntes da ignorância e alcança o conhecimento após um árduo processo de aprendizagem.

Os prisioneiros viveram sempre com a certeza de que as sombras eram a realidade e não as viam como aparências ou ilusões, mas estavam errados. Julgavam saber o que era a realidade mas não sabiam. Como foi dito, esses prisioneiros podem ser comparados a cada um de nós, pois nós podemos estar iludidos como eles - parcialmente ou até globalmente.

Vejamos primeiro a hipótese da ilusão parcial. Uma pessoa pode estar “acorrentada”, querendo isto dizer que vive iludida relativamente a certos aspetos da realidade. Por causa de coisas como o amor, o ódio, a preguiça, experiências traumáticas, etc., pode ignorar alguns aspetos da sua vida ou até vivê-los de uma forma falsa. Por exemplo: uma pessoa que esteve na guerra pode ter alucinações visuais ou sonoras quando confrontada com uma situação que lhe lembre uma situação passada traumatizante. Uma pessoa que ama outra de forma intensa pode não conseguir perceber que a outra pessoa a engana ou então pode suavizar e desculpar coisas erradas que a outra pessoa faz, como agredi-la ou insultá-la. Essas pessoas vivem convencidas que as coisas da sua vida são de um certo modo e afinal a realidade é muito diferente.

Mas pode suceder que a nossa ilusão não seja apenas parcial mas sim global. Não é impossível, embora seja pouco plausível, que toda a nossa vida atual seja uma ilusão e estejamos, por exemplo, a sonhar. Talvez toda a nossa vida seja um sonho ou uma ilusão semelhante à descrita no filme Matrix. Quem sabe? Talvez exista uma outra vida, uma outra verdade, completamente transcendente e diferente daquilo em que habitualmente acreditamos. Embora a hipótese seja pouco plausível não a devemos rejeitar sem discussão: que razões temos para considerar que a realidade é aquilo que julgamos ser?

O prisioneiro libertado regressou à caverna mas os outros prisioneiros não o quiseram ouvir nem discutir ideias com ele. Isto pode ser interpretado como o uso da filosofia para a discussão das nossas crenças básicas. As pessoas que não aceitam as crenças acriticamente e usam a Filosofia como um instrumento de sabedoria (isto é, uma forma de procurar a verdade) podem ser comparadas ao prisioneiro que se libertou e descobriu o que era de facto a realidade e que tudo o que tinha visto até então era falso. Aquelas pessoas que se recusam a discutir as suas crenças e as aceitam acriticamente - talvez por terem medo de não terem as mesmas ideias da maioria - são comparáveis aos prisioneiros que, no fim, se recusaram a sair da caverna. São dogmáticas, ou seja, acham as suas ideias tão corretas que nem se preocupam em justifica-las e recusam discuti-las e compará-las com as ideias das outras pessoas.

De qualquer forma, a conclusão é que qualquer um de nós pode estar parcialmente ou globalmente iludido, pelo que somos comparáveis aos prisioneiros descritos por Platão.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Concerning Hobbits…

Não é prudente fazer planos com muita antecedência, mas tenciono ver este filme assim que estrear. Falta pouco menos de um ano.

Por falar nisso: O Hobbit, o livro de J. R. R. Tolkien em que se baseia o filme, seria uma boa leitura de férias, para os alunos e para qualquer outro leitor.

O Hobbit, de Tolkien

O fim do Inverno

A bela música de Grieg e Vivaldi, bem como algumas imagens da Noruega,  para nos ajudar a imaginar o fim do Inverno – literal e metaforicamente falando.

‘Primavera’, de Edward Grieg.

Spring by Antonio Vivaldi on Grooveshark

‘Primavera’, de Antonio Vivaldi.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Estudar Filosofia: evita choques elétricos e malentendidos no namoro

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Atenção: no título atribuído a este post estou mesmo a falar a sério!

Vejam nas seguintes situações (exemplos que utilizei no último teste de avaliação):

O Ernesto está a renovar a instalação elétrica da sua casa. Está prestes a tocar num fio quando, de súbito se pergunta se terá desligado a corrente e faz o seguinte raciocínio: “Se a corrente estiver desligada, então a luz não se acenderá. A luz não acende. Logo a corrente está desligada.” Confiante de que estará em segurança, o Ernesto toca no fio e apanha um choque. Afinal, a lâmpada estava fundida! (Adaptado do texto de Stephen Law, Filosofia, ed. Civilização, pág. 204)

É claro que se o Ernesto conhecesse as formas válidas e inválidas dos argumentos condicionais, saberia que o seu argumento é incorreto do ponto de vista formal. Na verdade, trata-se da falácia da afirmação da consequente e a conclusão a que ele chegou é, obviamente, falsa.

E eis o "poder" (citando as palavras de um dos meus alunos do 10º ano) do estudo da Lógica formal: ao ensinar-nos como devemos raciocinar de forma válida, evita que apanhemos choques eléctricos! Mas este "poder" não se fica por aqui, pode também evitar equívocos entre namorados e decisões precipitadas. Ora, vejam a seguinte situação, bastante trivial:

A Felismina, que tem algumas dúvidas sobre a paixão do Hipólito por ela, pensou assim:

image A fotografia foi tirada deste sítio.

"Se o Hipólito não quiser sair mais comigo, então dirá, ao telefone, que está ocupado hoje. Como ele disse ao telefone que estava ocupado hoje. Posso concluir que ele não quer sair mais comigo." E decidiu, por isso, acabar o namoro. (Adaptado do texto de Stephen Law, Filosofia, ed. Civilização, pág. 204)

Se a Felismina tivesse estudado Filosofia, saberia que o seu raciocínio é formalmente inválido: é também uma falácia da afirmação da consequente. Afinal, o Hipólito pode ter outras razões para estar ocupado, contudo esse facto não significa que ele não queira sair mais com ela. E, portanto, a decisão de acabar o namoro foi errada e não não está racionalmente justificada.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O último livro do físico João Magueijo

Há portugueses que falam e (ao contrário do que se diz no post anterior) dizem muitas coisas interessantes. Veja-se o caso do físico João Magueijo no vídeo seguinte.

João Magueijo é professor de Física Teórica no Imperial College de Londres. O seu novo livro, “O Grande Inquisidor – A vida extraordinária e o desaparecimento misterioso de Ettore Majorana, génio atormentado da era nuclear”, é uma biografia do enigmático e genial físico nuclear italiano Ettore Majorana desaparecido na noite de 26 de Março de 1938.

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"Magueijo relata a vida trágica de Majorana e o seu desaparecimento bizarro ao mesmo tempo que nos fala das mais interessantes personalidades da ciência do século XX. Oferece-nos uma visão surpreendente dos meandros sombrios do mundo científico - tanto as suas dificuldades éticas como as suas por vezes complexas dinâmicas de grupo. O resultado é uma obra arrebatadora que dá conta da descoberta extraordinária de Majorana - o neutrino de Majorana - e sugere novas pistas para um dos mais intrigantes mistérios da ciência" (texto retirado daqui).

"O Grande Inquisidor", editado pela Gradiva, é o livro que estou a ler. Aconselho-o, vivamente, aos leitores que se interessem não só por física como pela reflexão sobre o sentido da vida e a política. O livro, escrito como uma espécie de policial, é entusiasmante e é difícil parar de o ler.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Transformar problemas em soluções

A saída para esta crise (ou outra qualquer), é fácil: depende do modo como encaramos os problemas. Será mesmo assim?

É um excelente vídeo! Soluções para quem quer sair da crise...

Preparação e apresentação de trabalhos orais

Sara Batalha - consultora de comunicação e diretora  da Media Training Worldwide (MTW) - dá alguns conselhos práticos a ter em conta nas apresentações. Julgo que alguns deles vos poderão ser úteis quando tiverem de expor nas aulas os vossos trabalhos sobre as falácias informais. Podem ver um vídeo: AQUI.

Outras sugestões, retiradas do blogue de Sara Batalha:

"O que aborrece uma audiência e o que a faz sorrir

SEMPRE:
1. Seja interessante.
2. Seja apaixonante.
3. Conte histórias.
4. Dê exemplos.
5. Conte histórias de caso.
6. Olhe para a audiência.
7. Deixe a audiência fazer perguntas quando quiser.
8. Diga à audiência porque deve estar a ouvi-lo!
9. Mexa a cabeça, mãos e corpo.
10. Acabe a horas (ou mais cedo)


NUNCA:
1. Leia o seu discurso.
2. Despeje matéria.
3. Mostre slides complexos com imensas palavras e pequenas fotos e gráficos
4. Fique a olhar para os slides e evite a audiência.
5. Seja abstracto.
6. Use palavras complexas e difíceis.
7. Use linguagem técnica.
8. Seja monótono.
9. Seja aborrecido."

Preparação e apresentação de trabalhos orais

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Trabalho sobre as falácias informais: turmas C, D e F

Caros alunos:

Seguem-se as indicações para o trabalho a realizar, no 2º período, sobre as falácias informais.

Devem pesquisar na net os vídeos (criativos... de preferência!)

Bibliografia obrigatória: Guia das falácias de Stephen Downes.

Umas boas férias!

E boas leituras! :)

2011-12 11º ano Indicações para o trabalho a realizar sobre as falácias informais.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Há quem goste muito de ler!

gostar de ler Tailândia

Mais fotografias fora do comum aqui.

Uma mensagem para as gerações futuras

Num programa de televisão foi perguntado a Bertrand Russell, um grande filósofo e matemático inglês, que mensagem deixaria para as gerações vindouras. A resposta dele foi que diria duas coisas: uma intelectual e outra moral.

Se querem saber quais são vejam o vídeo. É um espantoso testemunho, pela inteligência e pela simplicidade.

Palavras imperdíveis e, verdadeiramente, inspiradoras.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Proposta de revisão curricular do ensino básico e secundário

A proposta de revisão curricular hoje apresentada pelo governo estará em discussão pública até 31 de Janeiro. Deverá ser aplicada a partir do próximo ano letivo.

No caso do Secundário, as principais novidades parecem ser o desaparecimento da Formação Cívica do 10º ano e o desaparecimento de uma das disciplinas de opção no 12º ano.

Esta última medida parece-me um enorme erro, pois constitui um empobrecimento  curricular significativo. 

Acresce que o desaparecimento dessa disciplina de opção não é acompanhado pelo reforço da carga horária de nenhuma das outras disciplinas (nomeadamente na disciplina de Português, onde esse reforço se justificaria tendo em conta as dificuldades reveladas por muitos alunos).

No documento da proposta há um endereço (revisao.estrutura.curricular@mec.gov.pt) para onde se podem enviar sugestões acerca da revisão curricular.  Por motivos óbvios, seria boa ideia as pessoas interessadas enviarem sugestões. E objeções.

Proposta de revisao curricular do ensino básico e secundário

A opinião dos alunos sobre a moralidade ou a imoralidade da mentira

Pinóquio

Na minha opinião, mentir não é moralmente correto. Mas isso não significa que não o possamos fazer quando enfrentamos situações em que mentir é a nossa única opção para que ninguém - próximo de nós e de quem gostamos - saia prejudicado.

Para responder a esta questão temos de analisar as hipóteses mais extremas e depois criar, se for possível, uma hipótese aplicável a todos os casos. Assim, se pensarmos que mentir é sempre correto, acabamos por tornar esta crença num hábito que acaba por prejudicar as nossas relações na sociedade, pois as pessoas começam a aperceber-se de que estão sempre a ser enganadas e acabam por perder a confiança em nós, marginalizando-nos direta ou indiretamente. Por outro lado, se considerarmos verdadeira a crença que diz que nunca se deve mentir, poderemos acabar por ser confrontados com uma situação em que se dissermos a verdade, ficamos prejudicados ou, então, as outras pessoas próximas de nós. Um bom exemplo deste caso é o seguinte: se nos aparecesse à porta a nossa mãe e nos dissesse que se ia esconder de um assassino e ele aparecesse mais tarde, com uma faca na mão - extremamente exaltado e agressivo - e nos perguntasse onde é que a nossa mãe estava, diríamos o local exato onde ela se encontrava só porque devemos dizer sempre a verdade?

Obviamente que não. Mentiríamos e tentaríamos arranjar forma de apanhar este assassino, salvando quem nós gostamos. Ao pensarmos em dizer só a verdade ou só a mentira, acabamos por ter um pensamento acrítico em relação à solução do problema porque nunca questionamos se haveria uma outra solução mais correta e se a que nós optámos seria a melhor. Por isso, é que tem de haver um meio termo: não devemos mentir sempre, nem dizer sempre a verdade, temos de escolher - de forma consciente e racional - dependendo da situação e de forma a beneficiar a maior quantidade de pessoas possível.

Alexandre Mendes, 10º B

Penso que é preciso ter em conta que a moralidade ou não de uma conduta não se deve somente aos efeitos do ato praticado mas também à intenção, motivação e à finalidade com que a ação é realizada.
Habitualmente, a mentira é uma coisa má, quando está associada a intenções egoístas, visa mais o meu bem do que o do outro, por exemplo. Todavia, há muitas situações onde a mentira é lícita. Se numa unidade oncológica o meu familiar perceber que há uma agitação dos enfermeiros e me perguntar se o "senhor do quarto ao lado" morreu, é de todo positivo mentir. Aliás, as comissões de ética hospitalar a isso aconselham. Não devemos esquecer que devemos ponderar sempre a mentira em função desta linha de conduta: procuro a minha realização ou a felicidade do outro ou dos outros?

Nelson Rodrigues (antigo aluno)

A meu ver, não é moralmente correto mentir, mas há exceções. Quem mente sem necessidade, com o tempo começa a fazê-lo por hábito. Depois pode acontecer que ao refletir sobre o que tem sido a sua vida chegue à conclusão que tudo o que tem dito, feito, passado e talvez vivido não é verdadeiro nem autêntico.

Imaginemos que estamos a passear e, por acaso, vemos um amigo nosso a correr numa direção. Embora o questionemos para onde vai, ele - em pânico - diz não ter tempo para explicar e ficamos a vê-lo seguir num dado caminho. Passado poucos segundos, vemos um homem com mau aspeto e armado. Este pergunta-nos para onde foi o nosso amigo. É verdade que mentir não é correto. Porém, nesta situação, tenho a certeza que ninguém hesitaria em fazê-lo, mesmo quem defendesse que mentir é errado. Para além de ser um amigo nosso que está a correr risco de vida, ao dizermos a direção que este tomou é certo que o homem vai atrás dele e vai tirar-lhe a vida. Com efeito, nestas circunstâncias pode colocar-se outra questão: é moralmente correto tirar a vida a alguém? Não. E, embora não o façamos diretamente, ao estarmos a ajudar o sujeito estamos a fazer com que o nosso amigo perca a vida. Mentir não é correto. Porém, como em tudo, há casos e casos e nas decisões que tomamos temos de ter em conta os valores que são prioritários para nós. Assim, se para nós for prioritário dizer sempre - sem exceções - a verdade, acabamos por fazer com que o nosso amigo perca a vida. No entanto, se for prioritário salvar a vida de um ser humano, ainda por cima o nosso amigo, então aí não hesitaremos em mentir.

Miguel Dionísio, 11ºD

“Não há mentira, apesar do que se diz, sem intenção, desejo ou vontade de enganar”

Santo Agostinho

Mentir é moralmente (in)correto?

Costumo aceitar, tal como a maioria das pessoas, a ideia de que “a verdade é de cada um”. Contudo, se a verdade dependesse apenas de um ponto de vista subjetivo, como poderíamos distinguir a verdade da mentira?

Eu penso que todos nós temos a capacidade de destacar a mentira da omissão e da privacidade.
O facto de se mentir pode ter razões mais justificáveis ou menos justificáveis. Por exemplo: muitas vezes as pessoas, especialmente adolescentes, mentem devido a insegurança e baixa autoestima que têm, tentando transmitir uma outra imagem de si e acreditando ser essa a melhor. Este é um dos casos em que, a meu ver, a mentira é moralmente incorreta. Cada um de nós tem uma forma específica de pensar, de agir, de falar, de andar, de se vestir, que por vezes pode assemelhar-se mais aos comportamentos do grupo social onde estamos inseridos, ou então, pode assemelhar-se muito pouco. No entanto, isso não faz de nós menos pessoas ou menos especiais. Sempre ouvi dizer que cada um é belo a sua maneira.
Um outro exemplo são os indivíduos que sofrem de demência, esquizofrenia, delírio crónico, depressão grave e sintomas psicóticos. Estas são algumas doenças que levam o indivíduo a criar o seu próprio mundo e a viver, muitas vezes, uma realidade completamente diferente da nossa, sem ter consciência do que o rodeia. O ato de mentir neste caso não é condenável do ponto de vista ético, visto que tais pessoas não têm noção daquilo que fazem ou falam e por isso não lhes podemos atribuir responsabilidade moral.
Os outros dois conceitos - privacidade e omissão - nada têm a ver com a mentira. Muitas vezes as pessoas afirmam que se alguém nos fizer uma pergunta de caráter pessoal e nós não quisermos dizer a verdade, por vários motivos (como a privacidade, a própria segurança), estamos a mentir. Eu considero que isso não é mentir, é simplesmente passar uma informação falsa (no caso de haver uma resposta à respetiva pergunta) ou então omitir, pois todos nós temos direito à nossa privacidade.

Maria Bumbuk, 11º F

domingo, 11 de dezembro de 2011

Votos de bom estudo!

Votos de bom estudo para os alunos do 10º D, que devido à lotaria dos feriados, greve e visita de estudo apenas farão teste amanhã.

Estou certo que, mesmo que os vossos computadores, lápis e cadernos tenham “vírus”, o vosso pensamento não tem. Por isso… :)

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A opinião dos alunos sobre a pena de morte

pena de morte cadeira elétrica

Eis algumas das opiniões apresentadas pelos alunos, em resposta ao desafio colocado no Dia da Filosofia [Debater ideias online (1)]:

Na minha opinião, a pena de morte é correta e devia ser aplicada em todos os estados. Um indivíduo que mate, torture ou viole repetidamente e vezes sem conta, não devia continuar vivo. Não defendo que seja aplicada a qualquer crime, mas deve sê-lo a todos os crimes mais graves.
Penso que a aplicação da pena de morte desincentiva criminalidade, fará os criminosos pensarem duas vezes antes de matarem, como já aqui foi referido por outros colegas. E não só defendo a pena de morte, como também defendo a execução pública para os crimes mais graves, para situações extremas, o que servirá de exemplo para todos os cidadãos.
Claro que defendo que a pena de morte apenas deve ser aplicada em casos extremos, e quando não houver dúvidas sobre a culpabilidade do réu, de modo a que não sejam cometidos erros. Além disso, a pena de morte apenas deve ser aplicada por tribunais imparciais, e após julgamentos justos.
Não posso deixar de discordar de quem disse que a pena de morte está errada pois viola os Direitos Humanos. Será que alguém que violou grave e/ou repetidamente os direitos das outras pessoas, deve continuar a ter os mesmos direitos?
Por fim, tenho de concordar com o Rui Branco do 10º C quando ele diz que é "preciso cortar o mal pela raiz". E tal só acontece com a pena de morte. Ninguém me convence que os criminosos vão repensar os seus atos. Eles continuaram a ser assassinos e continuaram a matar. Por isso é necessário eliminá-los.

Lucas Sá, 10º A


Na minha opinião em certas circunstâncias a pena de morte é um ato moralmente justificável. De facto, um dos direitos humanos é o direito à vida. Contudo, num homicídio, o homicida não tem em conta o facto de todos termos direito à vida. Neste caso acho que deve ser utilizada a justiça retributiva, ou seja, deve ser aplicada a pena de morte. Quem tira a vida a pessoas inocentes, que não fizeram qualquer mal, não deve usufruir do direito de viver.
Pode-se tentar refutar o meu ponto de vista dizendo que a pessoa que cometeu o crime pode ser presa, pois enquanto estiver presa terá tempo suficiente para se arrepender de todo o mal que fez e certamente não irá matar mais ninguém.
Porém, o que se tem vindo a verificar é que muitas pessoas quando abandonam a cadeia continuam a matar. Um serial killer normalmente é uma pessoa que possui um distúrbio mental, mesmo que uma pessoa assim seja presa quando for posta em liberdade continuará a matar pessoas inocentes, pois este é um dos impulsos que tem e sente-se feliz e "completa" quando mata alguém, matar proporciona-lhe prazer.
Em caso de pedofilia e violação, as pessoas que praticam estes atos horrendos também deviam ser sujeitas à pena de morte. Apesar da pedofilia e da violação não tirarem a vida uma pessoa diretamente, fazem-no indiretamente. As vítimas destes tipos de crimes, na maioria dos casos, ficam "marcadas" para sempre. Muitas têm medo da possibilidade de voltar a encontrar o criminoso, apresentam dificuldades em estabelecer relações com outras pessoas e ficam psicologicamente transtornadas. A nível físico, embora os danos em certos casos sejam menos evidentes, ainda assim podem existir: por exemplo a contração de doenças sexualmente transmissíveis, como SIDA, entre outras. Perante todos estas razões, parece-me bastante plausível que estes sejam mais dois casos em que a pena de morte deva ser aplicada.

Tatiana Valente, 11º C

Para responder à questão da moralidade da pena de morte, em primeiro lugar gostaria de colocar uma questão: matar é errado? Suponho que todos irão responder "sim". Como tal, não entendo como alguém pode achar a pena de morte uma forma de punição aceitável. Claro, um indivíduo ao matar outro (ou outros) está a violar o direito à vida (expresso claramente na Declaração Universal dos Direitos Humanos) do(s) agredido(s), mas, por outro lado, o estado (através dos tribunais) ao declarar a sentença de morte, não está a ter uma atitude melhor que o assassino. Assim, outra questão que coloco é: o estado tem mais direitos que os simples cidadãos? Suponho que a resposta é "não", porque o estado é composto por simples cidadãos.

Então, para aquelas pessoas que defendem a pena de morte, respondam-me: como é possível acharem aceitável o estado condenar alguém à morte (matar alguém) praticando o mesmo ato que o criminoso? Faz sentido o estado ter o poder de decidir se as pessoas têm o direito de viver ou não?

A verdade é que os tribunais nem sempre decidem do modo mais justo: muitas vezes, um culpado que tem dinheiro ou influência sai sem ser "castigado". Imaginem um polícia a matar alguém (por exemplo, tinha consigo uma arma e, num momento de desvario, dá um tiro em alguém inocente que se encontra próximo). Será que o tribunal iria condenar um polícia à morte ou tenderia a aplicar uma pena mais leve? Imaginem, seria um escândalo: as pessoas voltariam a confiar nos polícias? Reinaria o pânico, se as pessoas nem pudessem confiar nos indivíduos que supostamente têm a função de proteger os cidadãos. Provavelmente, o tribunal limitava-se a simplesmente a "varrer o acontecido para baixo do tapete" por assim dizer, sem condenar o polícia. Isto seria justo? Não. O ser humano não é um ser imparcial por natureza e é facilmente influenciável e falível: quem nos garante que uma sentença tenha sido decidida imparcialmente e não venha a mostrar-se que contém erros? Ninguém. Portanto, se aplicássemos a pena de morte, não seria possível corrigir erros que viessem a ser detetados.

Um outro exemplo que eu gostaria de apresentar é o seguinte: imagine que o seu pai agredia constantemente a sua mãe e a si. Um dia, num ato de agressão a si, a sua mãe decide intervir e bate com uma cadeira na cabeça do pai, matando-o. Agora imagine que no seu país a pena de morte era legal. Provavelmente, a sua mãe iria ser condenada, por não se poder provar que o ato cometido foi por defesa pessoal (seria considerado homicídio). Assim, pode-se considerar moralmente correto condenar a sua mãe à morte? Ou outra situação: a sua mãe mata o seu pai, num ato de loucura ou por ter bebido uns copos a mais. Já não seria suficientemente mau perder o seu pai? Continua a defender que a sua mãe merecia morrer? Se defende a pena de morte, defende que a sua mãe, uma pessoa que sempre o tratou bem e que possivelmente daria a sua vida por si, devia ser condenada à morte.

Em suma, sou completamente contra a pena de morte por considerar essa forma de castigo um ato moralmente incorreto, desumano e irracional.

Alina Dahmen, 11ºC

Em muitos sistemas de justiça, a pena perpétua não existe. Na minha opinião, esta pena é o castigo ideal para crimes graves e propositados. Não se tira a vida ao criminoso, mas este irá passar o resto da vida numa prisão; ao menos com esta pena não poderá mais cometer crimes. O que resolve também o problema de alguns psicopatas, não importando o tempo que passam na cadeia, quando são libertados, voltarem a matar. Num sistema de justiça em que a pena perpétua exista, como em vários estados dos E.U.A, no Canadá (em que esta é obrigatória em caso de assassinato provado), a pena de morte é completamente incorreta, pois a pena perpétua seria, e é uma alternativa infinitamente melhor.

A pena de morte termina com a vida do criminoso. Apesar de efetivamente acabar com a ameaça deste particular indivíduo, o direito à vida é independente do sujeito. Apesar da justiça retributiva ser uma proposta extremamente atraente, admito, pois traz ao de cima os instintos da justiça popular e da vingança, temos de tentar pensar no caso (e aliás, em quase todos os problemas filosóficas) de forma totalmente imparcial. Tirar a vida ao criminoso seria descer ao seu nível. Sim, ele violou os Direitos Humanos elementares, mas, ao matarmos esse indivíduo, estaríamos nós também a violar esses direitos. Como várias pessoas disseram, como por exemplo a Ana Rita do 10º C, o criminoso de facto passou por cima dos direitos humanos, não merecendo assim que os consideremos em relação a ele. Mas não é em relação a ele que temos de pensar. Temos de pensar em relação a algo geral. Os Direitos Humanos são princípios por si só, princípios morais que são totalmente independentes do caso. Nunca devem ser violados. Seria uma violação dos nossos deveres morais pessoais estar a ignorar os direitos de outra pessoa, nem que fosse o pior monstro existente. Como estava dizendo, o direito à vida é independente do sujeito. A pena de morte é, então moralmente incorreta.

Apesar de haver tantos criminosos horríveis completamente alheados da realidade, não dando assim nenhum valor à vida ou a qualquer coisa que lhes possa acontecer, a pena perpétua, quando possível, é o castigo ideal. Tem as vantagens relacionadas com a pena de morte (impedir que o criminoso volte a cometer um crime), sem várias desvantagens desta (não causa tanto sofrimento aos familiares do criminoso, e, efetivamente, não tira a vida a este.)
Gostaria ainda de mencionar, em relação a vários comentários nesta página que na Alemanha, a pena máxima é de 15 anos. No entanto, o país tem um índice de criminalidade muito baixo. Isto prova que não é a duração ou a gravidade da pena que influencia a criminalidade
Refiro também que me agradaram bastante os argumentos apresentados pelo Leonardo Louro do 10º A, e pela Alina Dahmen do 11º C.

Rafael Fonseca, 10º D

No momento em que decidimos matar um assassino através da pena de morte estamos a assumir que matar é errado, pois foi por esse motivo que foi tomada a decisão de aplicar a pena de morte. Se matar é errado, então porque fazê-lo? Por o indivíduo não ser melhor que nós? A verdade é que nesse momento tornamo-nos criminosos. Não temos o direito de retirar a vida a nenhum ser humano, independentemente do motivo. Quando se trata de resolver problemas devemos analisar o caso com atenção e expor todas as resoluções, e não saltar para a pior possibilidade. Além disso, o facto de o assassino ter morrido não irá fazer com que nada volte atrás e melhore. Será apenas mais uma morte.
Na minha opinião é que a pena de morte é moralmente errada e dispensável.
Para concluir queria fazer um comentário em relação à opinião da aluna Rafaela Vera do 10ºD. Ela referiu que devemos “fazer [o criminoso] sofrer de forma igual de modo a que o mesmo consiga sentir o que o ofendido sentiu” através da tortura. Como é que isso é certo? Será que não evoluímos desde o tempo em que a violência era a solução para tudo? Espancar uma pessoa seria realmente a melhor opção? Para além disso, não sabemos se as feridas que forem feitas não cheguem aos órgãos e matem a pessoa. Nesse momento temos uma morte ainda pior porque para além de ser dolorosa é muito mais lenta.

Cristina Cochela, 10ºC

Muitos colegas defenderam que se aplicarmos a pena de morte a um criminoso não estamos a cumprir os direitos humanos. Então, e esse criminoso não passou por cima dos direitos de alguém? Se ele matou uma pessoa ou a torturou também não cumpriu o combinado na Declaração universal dos Direitos Humanos.
Discordo do Carlos Fonseca do 10º A, pois penso que um criminoso tem mais medo da morte do que da prisão, pelo menos eu teria se estivesse no lugar dele. E muitas vezes voltam a sair cá para fora e cometer crimes ainda piores.

Além disso as despesas que os criminosos fazem ao estar na cadeia é o Estado que as paga, ou seja, todos nós ao pagarmos os impostos (que têm estado a aumentar cada vez mais) estamos a pagar refeições, cama e roupa para pessoas que cometem crimes imperdoáveis e horríveis. Quer dizer: eles cometem os crimes, matam pessoas e nós temos de lhes pagar comida enquanto eles estão no "hotel" (cadeia) sem fazer praticamente nada. Têm cama comida, roupa lavada e cometeram crimes horríveis, enquanto cá fora existem pessoas com piores condições de vida e não fizeram mal a ninguém. É injusto não?

Ana Rita, 10ºC

As reflexões dos alunos no Dia da Filosofia

No Dia da Filosofia propusemos aos alunos que discutissem:

- se a pena de morte é moralmente correta ou incorreta

- se a mentira pode ser ou não moralmente justificável

A maior parte dos alunos preferiu discutir o primeiro desses problemas, mas também houve muitos que discutiram o segundo. Alguns alunos discutiram ambos. Foi um debate vivo e muito participado.

Queremos agradecer a todos os alunos a disponibilidade e o esforço. Uma palavra especial para os alunos que entraram em diálogo com os colegas e com eles argumentaram e contra-argumentaram. A saber: o Bruno Cardoso e o Carlos Fonseca, do 10º A; a Ana Rita Mendonça e o Rui Branco, do 10º C; o Fábio Gonçalves, o Filipe Jesus e a Rafaela Vera, do 10º D, o Emanuel Noivo e a Raquel Duarte do 10º B.

Queremos também chamar a atenção dos leitores para o facto dos comentários dos alunos do 10º ano se deverem apenas às suas reflexões e a eventuais leituras, uma vez que os problemas propostos tinham sido referidos nas aulas a título de exemplos, mas não analisados nem discutidos. Os alunos do 11º ano já tinham discutido, no ano transato, estes problemas nas aulas.

Nos dois posts seguintes serão publicados alguns dos comentários feitos pelos alunos:

A opinião dos alunos sobre a pena de morte

A opinião dos alunos sobre a moralidade ou imoralidade da mentira

sábado, 10 de dezembro de 2011

“Como não justificar a filosofia”

Desidério Murcho escreveu um artigo de opinião, na revista Crítica, que vale a pena ler e discutir. Deste transcrevemos, seguidamente, algumas passagens.

“Afinal, a esmagadora maioria dos professores de filosofia não parece ter realmente escolhido a sua profissão; o indício favorável a esta asserção é que fazem exactamente o mínimo que for possível fazer sem serem despedidos: não se interessam por livros nem revistas da sua área, dedicam muito mais tempo a actividades paralelas do que à filosofia ou ao seu ensino, e entusiasmam-se muito mais a falar de qualquer inanidade da vida contemporânea do que de filosofia.

E, no entanto, a justificação da relevância cognitiva da filosofia é ridiculamente simples — desde que se conheça razoavelmente a filosofia. Basta dar alguns exemplos e mostrar que em filosofia estudamos problemas reais e importantes, e que a única esperança de ter respostas amplamente consensuais para eles, como acontece nas ciências, é tentar ter respostas amplamente consensuais para eles, pelo que é uma boa ideia continuar a tentar. Além disso, compreendemos muito melhor um problema importante depois de o estudar e de estudar as diferentes tentativas de resolução, mesmo que não tenhamos chegado a resultados amplamente consensuais. O nosso alargamento cognitivo é justamente valorizado pelos seres humanos — pelo menos, por aqueles que não se renderam ainda completamente às inanidades televisivas — e a filosofia tem desempenhado um papel fundamental nesse mister. Esta é a justificação apropriada da filosofia.”

O artigo pode ser lido na integra: AQUI.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Anões aos ombros de gigantes

«Somos como anões aos ombros de gigantes, pois podemos ver mais coisas do que eles e mais distantes, não devido à acuidade da nossa vista ou à altura do nosso corpo, mas porque somos mantidos e elevados pela estatura de gigantes.»

Bernardo de Chartres, referido por João de Salisbúria, Metalogicon, III, 4.

O físico e divulgador científico Carlos Fiolhais  (num post onde também apresenta o original latino e outra tradução) interpreta a  metáfora de Bernardo de Chartres do seguinte modo:

“A afirmação [de Bernardo de Chartres] tem um enorme poder metafórico. Lida no contexto geral da história das ciências, significa que Newton não podia ter visto o que viu sem que antes Galileu, Kepler, Descartes e outros não o tivessem precedido (…). A construção da ciência é uma pirâmide humana. Einstein subiu para os ombros de Newton e há lugar aos ombros de Einstein para mais alguém subir. Não é fácil subir tão alto, claro.”

Carlos Fiolhais  refere apenas a ciência, não menciona a filosofia. Contudo, julgo que a metáfora também se aplica à filosofia, pois nesta - embora não exista um progresso cumulativo tão óbvio como nas ciências –  também existe algum progresso. Embora os filósofos de cada época discutam as ideias dos filósofos anteriores e discordem frequentemente delas, nem por isso deixam de ter essas ideias em conta e de se apoiar nelas para tentar formular com mais clareza os problemas filosóficos e para descobrir soluções mais plausíveis para eles. A construção da filosofia faz lembrar mais depressa uma cidade grande e dispersa do que a pirâmide única referida por Carlos Fiolhais, mas mesmo assim hoje conseguimos ver mais “longe” do que, por exemplo, Platão e Descartes. Graças a eles.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Tintim e o segredo do Licorne

O argumento do filme O segredo do Licorne é baseado em dois dos  livros de Hergé: O segredo do Licorne e o Caranguejo das tenazes de ouro. O filme é bom. Não é  excelente como a banda desenhada, mas vale a pena ser visto. A história, embora seja uma adaptação de ambos os livros, é fiel aos originais, tal como as imagens o são em relação aos desenhos de Hergé.

Os livros de Hergé, clássicos da banda desenhada, costumam ser lidos na infância ou na adolescência. Contudo, não penso que nem estes nem este filme se destinem apenas a crianças ou jovens. São ambos bons exemplos de como podemos aprender e divertir-nos com uma excelente prosa e magníficas imagens.

Uma das minhas frases favoritas do filme (e que é uma boa divisa de vida) é dita pelo capitão Hadoque: "Quando não conseguires fazer algo porque tens uma parede diante de ti, faz um buraco e passa por baixo."

Para quem ainda não conhece: vão ver o filme e leiam os livros. Garanto-vos que vale mesmo a pena!

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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Votos de bom estudo!

Votos de bom estudo para os alunos das turmas A e C do 10º ano e das turmas D e F do 11º ano, que farão teste amanhã.

As afirmações feitas pelo Filipe podem ser interpretadas como um argumento por analogia para defender quem não estuda. Mas trata-se de um argumento claramente inválido. Por isso…

Preguiça Desenho de Quino, representando Filipe, uma das personagens das histórias da Mafalda.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Argumento por analogia

analogia entre o código de barras e as prisões

Um argumento por analogia é um argumento não dedutivo, muito frequente na vida quotidiana e na filosofia.

Num argumento por analogia defende-se que, se duas coisas são semelhantes em alguns aspetos, é provável que também sejam semelhantes noutros. Uma das premissas é uma analogia entre duas coisas, ou seja, apresenta semelhanças conhecidas entre elas. Com base nisso infere-se que entre elas devem existir outras semelhanças menos óbvias.

Por exemplo:

O Henrique e o Heitor usam meias e sapatos.
O Heitor é rico.
Logo, o Henrique também é rico.

Este doente tem diarreia, dores abdominais, náuseas, vómitos e anúria. As pessoas com esses sintomas geralmente têm cólera.
Logo, este doente tem cólera.

Os argumentos por analogia têm a seguinte forma lógica (ou outras análogas):

x é como y.
y é A.
Logo, x é A.

Se as semelhanças referidas nas premissas forem numerosas e significativas, e se não existirem diferenças muito relevantes, é improvável que a conclusão seja falsa.

O que sucede com o segundo exemplo apresentado, mas não com o primeiro. Neste as semelhanças são escassas e pouco significativas, pelo que a probabilidade da conclusão ser falsa apesar das premissas serem verdadeiras é elevada. Trata-se, portanto, de um argumento por analogia inválido ou fraco.

(A respeito da validade não dedutiva ver o post Generalizações e previsões.)

Bibliografia:

- Dicionário Escolar de Filosofia, Organização de Aires Almeida - http://www.defnarede.com/
- Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, direção de João Branquinho e Desidério Murcho, Gradiva, Lisboa, 2001.
- Desidério Murcho, O Lugar da Lógica na Filosofia, Plátano, Lisboa, 2003.

Matriz do 2º teste de Filosofia do 10º ano: turmas A, C e D

Matriz do 2º teste de Filosofia do 10º ano

Generalizações e previsões

generalização

As induções são argumentos não dedutivos que podem ser generalizações ou previsões. Trata-se de argumentos muitos usados na vida quotidiana e nas ciências, mas não na filosofia.

Numa generalização conclui-se que, se algumas coisas possuem uma certa característica, então todas as coisas dessa classe possuem essa característica. As premissas de uma generalização são menos gerais que a conclusão: referem-se a alguns casos e depois, na conclusão, a ideia é estendida a todos os casos.

As generalizações têm a seguinte forma lógica (ou outras análogas):

Alguns A são B.
Logo, todos os A são B

Por exemplo:

Alguns políticos dizem mentirem.
Logo, todos os políticos dizem mentiras.

As pessoas que até à data caíram de uma altura superior a 50 metros morreram.
Logo, qualquer pessoa que caia de uma altura superior a 50 metros morre.

Quantos mais numerosos e representativos forem os casos referidos nas premissas mais provavelmente verdadeira é a conclusão da generalização.

Parece claro que o primeiro exemplo apresentado não respeita essas regras.

Habitualmente, uma previsão é um argumento cujas premissas se baseiam no passado e cuja conclusão se refere ao que acontecerá no futuro – no próximo ou nos próximos casos. Se em várias ocasiões sucedeu algo conclui-se que na próxima (ou próximas) ocasião sucederá o mesmo. A conclusão de uma previsão é menos geral que as premissas.

(Por vezes, as previsões incidem em casos desconhecidos do presente ou do passado.)

Por exemplo:

Alguns vendedores enganam-se nos trocos.
Por isso, da próxima vez que eu entrar numa loja o vendedor enganar-se-á nos trocos.

As gaivotas que nasceram até hoje tinham menos de 10 quilos.
Por isso, a próxima gaivota que nascer na ilha da Berlenga terá menos de 10 quilos.

Tal como sucede com a generalização, quanto mais numerosos e representativos forem os casos considerados mais provavelmente verdadeira é a conclusão da previsão.

Parece claro que o primeiro exemplo apresentado não respeita essas regras.

Contudo, por muito provável que seja a conclusão de uma generalização ou de uma previsão (tal como sucede nos outros argumentos não dedutivos), a sua verdade nunca está completamente garantida. Contrariamente ao que sucede nos argumentos dedutivos válidos, nos argumentos não dedutivos a verdade de todas as premissas não chega para garantir a verdade da conclusão – apenas a torna provável ou plausível. (As regras referidas são condições necessárias mas não suficientes.)

Essa probabilidade pode ser maior ou menor, pelo que a validade não dedutiva é uma questão de grau. As generalizações, as previsões e os outros argumentos não dedutivos podem ser mais ou menos válidos. Outra maneira de exprimir essa ideia é falar de força em vez de validade: os argumentos não dedutivos podem ser mais ou menos fortes.

Por outro lado, a validade das generalizações e das previsões (e de qualquer outro argumento não dedutivo) é informal. Contrariamente ao que sucede com os argumentos dedutivos que analisámos nas aulas, não basta inspecionar a forma lógica para determinar se uma generalização ou uma previsão é válida ou inválida, sendo necessário considerar o conteúdo do argumento para fazer essa avaliação.

Bibliografia:

- Dicionário de Filosofia, direção de Thomas Mautner, Edições 70, Lisboa, 2010.
- Dicionário Escolar de Filosofia, Organização de Aires Almeida -
http://www.defnarede.com/
- Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, direção de João Branquinho, Desidério Murcho e Nelson Gonçalves Gomes, artigo “Indução” - http://criticanarede.com/docs/etlf_inducao.pdf
Desidério Murcho, O Lugar da Lógica na Filosofia, Plátano, Lisboa, 2003.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Livre-arbítrio e responsabilidade moral: duas situações

1. «O homem que, em Julho, matou na Noruega 77 pessoas, maioritariamente jovens, vive num "universo delirante", que lhe permite pensar que pode decidir "quem pode viver e quem pode morrer". As conclusões de psiquiatras nomeados pelo tribunal de Oslo, divulgadas na terça-feira, podem fazer com que Anders Behring Breivik seja declarado inimputável. Em vez de ser condenado à prisão, deverá ser internado numa instituição de saúde.» Para continuar a ler a notícia do jornal Público, ver AQUI.

Se o tribunal norueguês considerar Anders Behring Breivik inimputável, estará a ser justo? Porquê?

2. «Suponha que o raptam e o obrigam a cometer uma série de crimes terríveis. O raptor fá-lo disparar sobre a primeira vítima forçando-o a premir o gatilho de uma arma, hipnotizando-o para que envenene uma segunda e depois empurrra-o de um avião fazendo-o esmagar uma terceira. Milagrosamente sobrevive à queda. A situação deixa-o atordoado, aliviado por ter chegado ao fim da dolorosa experiência. Mas então, para sua surpresa, é detido pela polícia, que o algema e o acusa de homícidio. Os pais das vítimas gritam-lhe obscenidades enquanto a polícia o leva, humilhado.»

Estarão os pais e a polícia a ser justos ao culpá-lo pelas mortes? Porquê?

Theodore Sider, Livre arbítrio e determinismo, Editorial Bizâncio, (capítulo 6), pág. 145.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Afirmação da antecedente e negação da consequente

A afirmação da antecedente (Modus ponens) e a negação da consequente (Modus tollens) são duas formas argumentativas válidas muito frequentes, tanto na vida quotidiana como na filosofia.

Afirmação da antecedente:

Se P então Q
P
Logo, Q

Se não P então Q
Não P
Logo, Q

Se P então não Q
P
Logo, não Q

Se não P então não Q
Não P
Logo, não Q

Negação da consequente:

Se P então Q
Não Q
Logo, não P

Se não P então Q
Não Q
Logo, P

Se P então não Q
Q
Logo, não P

Se não P então não Q
Q
Logo, P

Não se deve confundir estas formas válidas com formas parecidas mas inválidas. Como é o caso da Negação da antecedente e da Afirmação da consequente. Ei-las, respetivamente:

Se P então Q
Não P
Logo, não Q

Se P então Q
Q
Logo, P

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Exageros! Protestou ele enquanto coçava a tromba com a pata do meio

Texto de Mário Henrique Leiria (do engraçadíssimo livro Contos do Gin Tonic) dito por Mário Viegas, num antigo programa televisivo chamado Palavras Ditas.

Mudar o programa de Filosofia: uma proposta

Que o programa de Filosofia, atualmente em vigor no ensino secundário, deveria ser mudado é um facto. Só os professores que há anos debitam os mesmos manuais e não se atualizam cientifica e pedagogicamente é que não sentem essa necessidade de mudança. A questão que se coloca é: mudar como?

Faustino Vaz escreveu um artigo publicado na revista Crítica em que apresenta várias sugestões. Cabe agora aos professores de Filosofia lê-las e discuti-las.

Penso que todos nós, professores do secundário, devemos fazer algo para divulgar e melhorar o ensino da disciplina que leccionamos, pois se conjugarmos esforços no sentido do bem comum, todos sairemos beneficiados. E, já agora, só mais um motivo: imaginemos, no meio de tanta necessidade de cortar na educação, surge a hipótese de supressão da Filosofia dos currículos (que, ao que parece, já esteve em cima da mesa e depois foi retirada).

Parece-me que a habitual indiferença dos professores de Filosofia do secundário em relação a este assunto não se justifica de modo nenhum.

Portanto, vale a pena discutir a proposta apresentada, criticá-la e sugerir, se for o caso, alternativas melhores.

Um poema de António Lobo Antunes

Valsa by Katia Guerreiro on Grooveshark