terça-feira, 29 de novembro de 2011

Falácias informais do apelo à ignorância, da derrapagem e do boneco de palha

1. Apelo à ignorância

«Os argumentos desta classe concluem que algo é verdadeiro por não se ter provado que é falso; ou conclui que algo é falso porque não se provou que é verdadeiro. (Isto é um caso especial do falso dilema, já que presume que todas as proposições têm de ser realmente conhecidas como verdadeiras ou falsas). Mas, como Davis escreve, "A falta de prova não é uma prova." (p. 59)

Exemplos:

  • Os fantasmas existem! Já provaste que não existem?
  • Como os cientistas não podem provar que se vai dar uma guerra global, ela provavelmente não ocorrerá.
  • Fred disse que era mais esperto do que Jill, mas não o provou. Portanto, isso deve ser falso.

Prova: Identifique a proposição em questão. Argumente que ela pode ser verdadeira (ou falsa) mesmo que, por agora, não o saibamos.»

2. Derrapagem (ou bola de neve)

«Para mostrar que uma proposição, P, é inaceitável, extraiem-se consequências inaceitáveis de P e consequências das consequências... O argumento é falacioso quando pelo menos um dos seus passos é falso ou duvidoso. Mas a falsidade de uma ou mais premissas é ocultada pelos vários passos "se... então..." que constituem o todo do argumento.

Exemplos:

  • Se aprovamos leis contra as armas automáticas, não demorará muito até aprovarmos leis contra todas as armas, e então começaremos a restringir todos os nossos direitos. Acabaremos por viver num estado totalitário. Portanto não devemos banir as armas automáticas.
  • Nunca deves jogar. Uma vez que comeces a jogar verás que é difícil deixar o jogo. Em breve estarás a deixar todo o teu dinheiro no jogo e, inclusivamente, pode acontecer que te vires para o crime para suportar as tuas despesas e pagar as dívidas.
  • Se eu abrir uma excepção para ti, terei de abrir excepções para todos.

Prova: Identifique a proposição, P, que está a ser refutada e identifique o evento final, Q, da série de eventos. Depois mostre que este evento final, Q, não tem de ocorrer como consequência de P.»

3. Espantalho (ou boneco de palha)

«O argumentador, em vez de atacar o melhor argumento do seu opositor, ataca um argumento diferente, mais fraco ou tendenciosamente interpretado. Infelizmente é uma das "técnicas" de argumentação mais usadas.

Exemplos:

  1. As pessoas que querem legalizar o aborto, querem prevenção irresponsável da gravidez. Mas nós queremos uma sexualidade responsável. Logo, o aborto não deve ser legalizado.
  2. Devemos manter o recrutamento obrigatório. As pessoas não querem o fazer o serviço militar porque não lhes convém. Mas devem reconhecer que há coisas mais importantes do que a conveniência.

Prova: Mostre que o argumento oposto foi mal representado, mostrando que os opositores têm argumentos mais fortes. Descreva um argumento mais forte.»

Textos retirados do Guia das falácias de Stephen Downes, tradução e adaptação de Julio Sameiro, na  Crítica, revista de Filosofia online.

Nota: Os textos citados não seguem o acordo ortográfico, tal como acontece no original.

Matriz do 2º Teste do 11º ano: turmas C, D e F

2011-12 11º ano Matriz do 2º teste

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Free will (Livre-arbítrio)

Steven Pinker e Daniel Dennett, professores em algumas das melhores universidades americanas (e também do mundo!) explicam - de forma clara e simples - ideias filosóficas relacionadas com o problema filosófico do livre-arbítrio.

Reconheço que ao ouvi-los, relembrei os discursos palavrosos e "eruditos" de alguns professores universitários portugueses. Estes falam para o seu círculo de fiéis seguidores, preocupados com as suas carreiras e sem se preocuparem minimamente com a divulgação da Filosofia ou a inteligibilidade das suas ideias. E o resultado é que muito pouco se faz nas universidades portuguesas para fazer chegar a Filosofia ao grande público.

E que tal importamos este modelo americano de clareza e eficácia para Portugal, em vez da conversa vaga e pastosa que só serve para nos pôr a milhas da Filosofia em vez de nos incentivar a  pensar e a argumentar?


 

Numa guerra, pode-se escolher não matar?

A propósito do problema filosófico do livre-arbítrio: o chefe da polícia de Saigão ao executar este homem, durante a guerra do Vietname, está a agir livremente? Ele poderia não disparar?

Guerra do Vietname.

Eddie Adams foi o autor desta foto, onde o chefe de polícia de Saigão mata (em 1 e Fevereiro de 1968) um guerrilheiro. Ganhou, com esta fotografia, o prémio Pulitzer em 1969, mas decidiu abandonar a sua carreira de fotógrafo de guerra. Vale a pena ver o documentário realizado sobre este fotógrafo e a história desta fotografia.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Devíamos banir os cigarros? - A opinião do filósofo Peter Singer

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Peter Singer, professor de bioética na Universidade de Princeton, escreveu um artigo de opinião no jornal Público - Devíamos banir os cigarros? - que vale a pena ler.

"Grande parte do livro de Proctor, que será publicado em Janeiro, baseia-se num vasto arquivo de documentos da indústria tabaqueira, divulgados durante processos legais. Mais de 70 milhões de páginas de documentos da indústria estão agora disponíveis online.
Os documentos mostram que, já desde a década de 1940, a indústria detinha provas que sugeriam que o fumo causa o cancro. Em 1953, no entanto, numa reunião dos executivos de topo das maiores companhias tabaqueiras Americanas tomou-se a decisão conjunta de negar que os cigarros fossem prejudiciais. Mais ainda, quando a prova cientifica de que o fumo causa o cancro se tornou pública, a indústria tentou criar a impressão de que a ciência era inconclusiva, de modo análogo ao daqueles que, negando que a actividade humana está a provocar mudanças climáticas, distorcem deliberadamente a ciência actual.
Como diz Proctor, são os cigarros, e não as armas ou as bombas, os artefactos mais mortíferos na história da civilização. Se quisermos salvar vidas e melhorar a saúde, nada mais prontamente alcançável será tão eficaz como uma proibição internacional na venda de cigarros. (Eliminar a pobreza extrema em todo o mundo é talvez a única estratégia que talvez salvasse mais vidas, mas isso seria muito mais difícil de conseguir.)Para os que reconhecem o direito do Estado em banir drogas recreativas como a marijuana e o ecstasy, uma proibição dos cigarros deveria ser fácil de aceitar. O tabaco mata muito mais pessoas do que estas drogas.
Alguns defendem que desde que uma droga apenas prejudique os que escolhem usá-la, o Estado deve deixar que os indivíduos tomem as suas próprias decisões, limitando o seu papel a assegurar-se de que os utilizadores estejam informados dos riscos que correm. Mas o tabaco não é uma droga desse tipo, dados os perigos colocados pelo fumo passivo, especialmente quando adultos fumam numa casa com crianças."

Para continuar a ler ver AQUI.

E o caro leitor tem uma opinião, racionalmente justificada, sobre este assunto?

Nota: O artigo citado do jornal Público não respeita o acordo ortográfico.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Não faremos greve amanhã

Dissemos a algumas pessoas que não faríamos greve amanhã e que gostaríamos que a maioria dos portugueses concordasse connosco e amanhã fosse trabalhar.

Algumas dessas pessoas mostraram-se indignadas e sugeriram que ao falar assim estávamos a negar o direito à greve e a legitimidade de outras pessoas aderirem à greve de amanhã.

Mas é óbvio que não é o caso. Discordar de uma greve não implica negar o direito à greve; considerar que uma greve é politicamente errada não é o mesmo que considerá-la ilegítima. Tal como as pessoas que concordam com uma greve têm o direito de fazê-la e defender publicamente a sua opção, quem não concorda tem o direito de não fazê-la e também defender publicamente a sua opção. Exercer este último direito não põe em causa o outro direito.

Pretender que um desses direitos é incompatível com o outro e que o exercício de um deles é um atentado contra o outro é que constitui, pelo contrário, uma tentativa de negar um direito legítimo.

Sendo assim: amanhã é dia de trabalho!

Carlos Pires, Sara Raposo

Ficha de Trabalho - Argumentos

a) Diga se os exemplos a seguir apresentados constituem ou não argumentos.

b) Caso sejam argumentos, diga qual é a conclusão.

c) Caso possuam premissas ocultas, explicite quais são.

1. O aborto é justo na perspectiva de algumas pessoas e injusto na perspectiva de outras. Há também pessoas que têm opiniões intermédias.

2. “A maior parte das pessoas que visitam galerias de arte, lêem romances e poesia, vão ao teatro e ao ballet, vêem cinema ou ouvem música, já perguntaram a si próprias, num momento ou outro, o que é a arte.” - Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia, Gradiva, pág. 218.

3. A pena de morte é errada, na medida em que pune um crime com outro crime.

4. Ou os alunos do 11º ano respeitam os direitos dos animais ou comem carne. Os alunos do 11º ano respeitam os direitos dos animais. Logo, os alunos do 11º ano não comem carne.

5. A liberdade é um valor mais importante que a segurança, mas há formas de combater a insegurança que limitam a liberdade dos cidadãos. Assim, pode-se dizer que há formas de combater a insegurança que devem ser proibidas.

6. “Hoje em dia, os astrónomos podem fazer coisas inacreditáveis. Por exemplo, se alguém acendesse um fósforo na Lua, eles seriam capazes de distinguir a chama.” - Bill Bryson, Breve História de Quase Tudo, Quetzal Editores, pág. 34.

7. “- Olha lá para cima! – exclamou um dos criados.
Repararam então nas peras que pendiam da árvore, recortando-se contra o céu ainda róseo com os primeiros tons da madrugada. E, ao verem as peras, foram todos presos pelo maior pânico. Porque os frutos não estavam inteiros, havia apenas as metades deles. Tinham sido cortados ao comprido, mas pendiam ainda do seu pedúnculo; cada pêra possuía apenas a metade direita (ou esquerda, conforme o ângulo por que fossem olhadas). Em todo o caso, havia só uma metade e a outra parte tinha desaparecido, cortada ou talvez mesmo mordida.” - Italo Calvino, O Visconde Cortado ao Meio, Editorial Teorema, pp. 27-28.

8. Ítalo Calvino escreveu três livros muito bons para incutir o gosto pela leitura em pessoas que não têm hábitos de leitura. Os seus nomes são: O Visconde Cortado ao Meio, O Barão Trepador e O Cavaleiro Inexistente.

9. “Uma sociedade aberta valoriza os seus membros descontentes e dissidentes porque precisa de pensamento criativo, maior amplitude de alternativas, novas hipóteses e, em geral, do vigoroso diálogo provocado por novas ideias.” - Luís Rodrigues e outros, Filosofia – 11º, Plátano Editora, pág. 22.

10. “A batalha começou pontualmente às dez da manhã. Do alto da sua cela, o lugar-tenente Medardo contemplava a amplidão das fileiras cristãs, a postos para o ataque. E estendia o rosto, oferecendo-o ao bafejo do vento da Boémia, que espalhava um aroma de folhas, como se estivessem numa enorme eira poeirenta.” - Ítalo Calvino, O Visconde Cortado ao Meio, Editorial Teorema, pág. 15.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A teoria do Big Bang

Eis uma série de televisão muito divertida e inteligente: The Big Bang Theory. Mistura de modo genial ciência e problemas pessoais ou afetivos com doses maciças de humor.

Aqui e aqui pode ver dois engraçadíssimos (e legendados) vídeos cuja incorporação não é permitida.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Música: um poema de Vinicius de Moraes

As coisas belas e boas da vida podem ser muito diferentes, por exemplo estas duas:

O poema que Vinicius de Moraes escreveu em homenagem a Amália Rodrigues, cantado pela própria ou pela, também fadista, Kátia Guerreiro. Felizmente, não temos de escolher...

Saudades Do Brasil Em Portugal by Amália Rodrigues on Grooveshark

Saudades Do Brasil Em Portugal by Katia Guerreiro on Grooveshark

Ficha de Trabalho: os instrumentos essenciais da atividade filosófica

Bom trabalho! :)

2011-12 10º ano Ficha de trabalho sobre os instrumentos essenciais da atividade filosófica.

sábado, 19 de novembro de 2011

O Dúvida Metódica no De Rerum Natura

No Dia Mundial da Filosofia, a pedagoga e professora Helena Damião (da Universidade de Coimbra), divulgou no blogue De Rerum Natura o debate online que promovemos (aqui e aqui) e que ainda está a decorrer. Agradecemos a divulgação e também as palavras elogiosas que dirigiu ao Dúvida Metódica, ver AQUI. Obrigada!

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Poema sobre a democracia

DEMOCRACIA

Fui dar com a democracia embalsamada, como
o cadáver do Lenine, a cheirar a formol e aguarrás,
numa cave da Europa. Despejavam-lhe por cima
unguentos e colónias, queimavam-lhe incenso
e haxixe, rezavam-lhe as obras completas do
Rousseau, do saint-just, do Vítor Hugo, e
o corpo não se mexia. Gritavam-lhe a liberdade,
a igualdade, a fraternidade, e a pobre morta
cheirava a cemitério, como se esperasse
autópsias que não vinham, relatórios, adêenes
que lhe dessem família e descendência. Esperei
que todos saíssem de ao pé dela, espreitei-lhe
o fundo de um olho, e vi que mexia. Peguei-lhe
na mão, pedi-lhe que acordasse, e vi-a tremer
os lábios, dizendo qualquer coisa. Um testamento?
a última verdade do mundo? «Que queres?»,
perguntei-lhe. E ela, quase viva: «Um cigarro!»

Nuno Júdice, A Matéria do Poema, Dom Quixote.

Via

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Debater ideias online (2)

Tal como foi referido no post anterior anterior, a segunda questão que sugerimos para debate é a seguinte:

Há situações em que a mentira é moralmente justificável ou não se deve mentir em nenhuma circunstância? Porquê?

Debater ideias online (1)

image (Esperamos que esta imagem não descreva aquilo que vai acontecer aqui).

Segundo a UNESCO, amanhã, dia 17 de Novembro, é o DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA. A melhor forma de o celebrar é discutir ideias e debater problemas filosóficos. Assim, propomos aos alunos das turmas do 10º ano (A, B, C e D) e do 11º ano (C, D e F), e a todos os outros eventuais interessados, que apresentem e discutam – na caixa de comentários deste blogue - as suas ideias. Sugerimos para o debate as seguintes questões:

A pena de morte é moralmente correta ou incorreta? Porquê?

Ver no post seguinte seguinte a segunda questão sugerida. 

Dia da Filosofia

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Na véspera do dia de Filosofia, vale a pena ler o texto Como celebrar o Dia da Filosofia? de Domingos Faria, no P3 (caderno online do jornal Público).

E, já agora, o texto A importância da discussão, publicado no Dúvida Metódica por ocasião do Dia da Filosofia do passado ano.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Será apenas uma questão de perspectiva?

O copo está meio cheio ou meio vazio?

É verdade que a atitude adoptada em relação aos problemas e às situações - sejam elas da vida pessoal ou motivadas pela atual crise económica - interfere no modo como as encaramos ou as ultrapassamos.

Todavia, será apenas uma questão de perspectiva? O copo estará, de facto, meio cheio ou meio vazio dependendo do ponto de vista de cada um? O que dizer dos factos e da sua análise racional? Não haverá uma descrição do copo partilhável por ambos os peixes do cartoon?

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Aula de substituição

Inesperadamente, vejo-me obrigado a faltar às aulas das turmas C e A do 10º ano.

Caso haja aula de substituição, os alunos deverão ler  da página 42 à página 46  do manual, bem como os posts a seguir referidos. Depois deverão responder à ficha de trabalho que consta do primeiro desses posts.

O que é um argumento?
Onde está a conclusão?
Entimema: conceito e exemplos

Até à próxima aula.

domingo, 13 de novembro de 2011

Razões para filosofar

Filosofar

“Persistir numa existência rotineira sem jamais examinar os princípios nas quais esta se baseia pode ser como conduzir um automóvel que nunca foi à revisão. Podemos justificadamente confiar nos travões, na direcção e no motor, uma vez que sempre funcionaram suficientemente bem até agora; mas esta confiança pode ser completamente injustificada: os travões podem ter uma deficiência e falharem precisamente quando mais precisamos deles. Analogamente, os princípios nos quais a nossa vida se baseia podem ser inteiramente sólidos; mas, até os termos examinado, não podemos ter a certeza disso.

Contudo, mesmo que não duvidemos seriamente da solidez dos princípios em que baseamos a nossa vida, podemos estar a empobrecê-la, ao recusarmo-nos a usar a nossa capacidade de pensar. Muitas pessoas acham que dá demasiado trabalho ou que é excessivamente inquietante colocar esse tipo de questões fundamentais: podem sentir-se satisfeitas e confortáveis com os seus preconceitos. Mas há outras pessoas que têm um forte desejo de encontrar respostas a questões filosóficas que representem um desafio.”

Nigel Warburton, Elementos básicos de Filosofia, tradução de Desidério Murcho e Aires de Almeida, Edições Gradiva, Lisboa 2007, pp 19-20.

sábado, 12 de novembro de 2011

O que levarias para uma ilha deserta?

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Os autores deste criaram um novo blogue - O que levarias para uma ilha deserta? - onde disponibilizam sugestões musicais e literárias, por exemplo.

E o caro leitor, o que levaria para uma ilha deserta?

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O dilema do prisioneiro: as vantagens da cooperação

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"No início da década de 1980, Robert Axelrod, sociólogo americano, fez uma descoberta notável acerca da natureza da cooperação. A verdadeira importância do resultado de Axelrod ainda não foi devidamente valorizada fora de um grupo restrito de especialistas. Encerra a potencialidade de alterar não apenas as nossas vidas pessoais, como também o mundo da política internacional.
Para compreendermos o que Axelrod descobriu, precisamos primeiro de saber algo sobre o problema que o interessou — um bem conhecido quebra-cabeças sobre cooperação chamado Dilema do Prisioneiro. O nome vem da forma como o quebra-cabeças é geralmente apresentado: uma escolha imaginária que se apresenta a um prisioneiro. Há muitas versões. Eis a minha:

O leitor e outro prisioneiro jazem em celas separadas da Esquadra Principal da Polícia da Ruritânia. Os agentes tentam fazer-vos confessar ter conspirado contra o estado. Um interrogador vem até à sua cela, serve um copo de vinho da Ruritânia, dá-lhe um cigarro e, num tom de amizade sedutora, propõe-lhe um acordo.
— Confesse o crime! — exorta ele. — E se o seu amigo na outra cela…
O leitor protesta, alegando nunca ter visto antes o prisioneiro que se encontra na outra cela, mas o interrogador ignora a objecção e prossegue:
— Ainda melhor, então, se ele não é seu amigo; pois, como eu estava a dizer, se o senhor confessar, e ele não, usaremos a sua confissão para o engaiolar a ele dez anos. A sua recompensa será a liberdade. Por outro lado, se for estúpido ao ponto de se recusar a confessar, e o seu "amigo" na outra cela confessar, será o senhor a ir para a prisão dez anos, e ele será libertado.
O leitor pensa nisto durante algum tempo e percebe que não tem informação suficiente para decidir, por isso pergunta:
— E se confessarmos ambos?
— Então, e uma vez que não precisamos realmente da sua confissão, não sairá em liberdade. Mas, tendo em conta que estavam a tentar ajudar-nos, passarão os dois oito anos na cadeia.
— E se nenhum de nós confessar?
Uma expressão de desdém perpassa o rosto do interrogador e o leitor receia que ele esteja prestes a golpeá-lo. Mas o homem controla-se e rosna que, então, uma vez que não terão provas para a condenação, não poderão manter-vos lá dentro muito tempo. Mas acrescenta:
— Não desistimos facilmente. Ainda podemos manter-nos aqui seis meses, a interrogar-vos, antes de os sacanas da Amnistia Internacional conseguirem pressionar o governo para vos tirar daqui. Portanto, pense no assunto: quer o seu colega confesse, quer não, o senhor ficará melhor se confessar do que se não o fizer. E o meu colega vai dizer a mesma coisa ao outro tipo, agora mesmo.
O leitor reflecte no que ele disse e compreende que o guarda tem razão. Faça o que fizer o estranho na outra cela, o leitor ficará melhor se confessar. Se ele confessar, a sua escolha é entre confessar também, e apanhar oito anos de prisão, ou não confessar, e passar dez anos atrás das grades. Por outro lado, se o outro prisioneiro não confessar, a sua escolha é entre confessar, e sair livre, ou não confessar, e passar seis meses na cela. Portanto, parece que o melhor a fazer é confessar. Mas, então, ocorre-lhe outro pensamento. O outro prisioneiro está exactamente na mesma situação. Se, para si, é racional confessar, também será racional para ele confessar. Assim, passarão ambos oito anos na cadeia. Por outro lado, se ninguém confessar, ambos ficarão livres dentro de seis meses. Como pode ser que a escolha que parece racional, para cada um dos dois, individualmente — ou seja, confessar — vos prejudique mais a ambos do que se decidirem não confessar? O que deve fazer?

Não há solução para o Dilema do Prisioneiro. De um ponto de vista puramente do interesse próprio (aquele que não toma em consideração os interesses do outro prisioneiro), é racional, para cada prisioneiro, confessar — e se cada um fizer o que é racional do ponto de vista do interesse próprio, ficarão ambos pior do que ficariam se tivessem escolhido de outro modo. O dilema prova que quando cada um de nós, individualmente, escolhe aquilo que é do seu interesse próprio, pode ficar pior do que ficaria se tivesse sido feita uma escolha que fosse do interesse colectivo."

Peter Singer, Como Havemos de Viver? A Ética Numa Época de Individualismo,tradução de Fátima St. Aubyn, Lisboa, Dinalivro, 2006, pp. 241-244.

T.P.C. para os alunos do 10º B

Caros alunos,

Tal como foi combinado, os exercícios que terão de resolver - para a aula da próxima segunda - encontra-se aqui e aqui (neste caso apenas têm de identificar os argumentos).

Outras leituras sobre os temas das últimas aulas:

- O que é um argumento?

- Entimema: conceito e exemplos.

Acerca da discussão da aula de hoje, a propósito deste vídeo, sugiro a leitura do texto do post seguinte.

Bom trabalho e um bom fim de semana a todos!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Jornal escolar online

O Pinhas online

Na Escola Secundária de Pinheiro e Rosa foi recentemente criado um jornal online chamado “O Pinhas”.

É um herdeiro assumido do jornal escolar com o mesmo nome, mas em papel, entretanto desaparecido.

Vale a pena espreitar, ler e colaborar. “O Pinhas” aceita a colaboração de alunos e professores.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Tabelas de verdade

Para construir tabelas de verdade online, ver aqui.

O vídeo inicial contém algumas imprecisões conceptuais, a este propósito ver os comentários do leitor Aires Almeida (a quem agradeço) e os meus.

domingo, 6 de novembro de 2011

Poupança tardia

«Com efeito, tal como pareceu aos nossos antepassados: ‘é tardia a poupança que começa quando batemos o fundo’; não é apenas ínfimo o que permanece lá em baixo: é também da pior qualidade que há.»

Séneca, Cartas a Lucílio, 1.5.3-5, tradução de António De Castro Caeiro (lida no facebook).

Quando Séneca escreveu estas palavras Portugal ainda não existia. Mesmo assim, elas parecem aplicar-se à nossa atual situação económica e política com espantosa precisão.

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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

50/50: as pequenas grandes coisas

Vi no cinema o filme 50/50, a história de um jovem que descobre que tem cancro. É uma descrição realista, inteligente e com sentido de humor: apesar do tema, o filme é uma comédia e tem alguns momentos hilariantes. É um filme sobre as pequenas grandes coisas que podem dar valor e sentido à vida.

Sair da sala de cinema a pensar que um filme não nos acrescenta nada, acontece por vezes,  mas não é o caso deste. Querem perceber porquê? Vão vê-lo!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Oportunidade única

"A vida humana acontece só uma vez e não poderemos jamais verificar qual seria a boa ou a má decisão porque, em todas as situações, só podemos decidir uma vez. Não nos são dadas uma primeira, segunda, terceira ou quarta hipóteses para que possamos comparar decisões diferentes".

Milan Kundera

(Citação encontrada no facebook sem referência à obra.)

A criação artística segundo Tarkovsky

A propósito do "divino Bach", transcrevo duas reflexões de Tarkovsky sobre a criação artística. As citações e as fotografias foram retiradas do livro Instant Light (pág. 62 e 98) referido no post anterior.

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"Devoid of spirituality,

art carries its own tragedy within it.

For even to recognize the spiritual vacuum

of the times in wich he lives,

the artist must have specific qualities                   

of wisdom and understanding.

The true artist always serves immortality,

striving to immortalize the world

and man within the  world."

 

"Whatever it express - image

even destruction and ruin -

the artistic image

is  by definition an embodiment of hope,          

it is inspired by faith.

Artistic creation

is by definition a denial of death.

Therefore it is optimistic,

even if in an ultimate sense the artistic is tragic.

And so there can never be

optimistic artists and pessimistic artists .

There can only be talent and mediocrity."

Nota: Infelizmente o meu inglês permite-me ler, mas não traduzir de forma adequada.