quinta-feira, 31 de março de 2011

Mais informações sobre a exposição: Sexo e então?!

imageCaros alunos do 10º C e 11º A, deixo-vos mais algumas informações sobre uma das exposições que iremos visitar, amanhã, em Lisboa.

A exposição, “Sexo e então?!”, está dividida em cinco partes:

1. Estar apaixonado.

2. Puberdade.

3. Fazer sexo.

4. Abre a pestana.

5. Escola.

Eis algumas das questões que ao longo da exposição (para obter informações e explicações mais detalhadas, consultar o roteiro do professor no link anterior) irão ter resposta:

  • O que é isso de estar apaixonado?
  • Deve-se fazer sexo quando não se tem vontade?
  • Que tipo de beijos é que se podem dar?
  • Quais são as transformações que o corpo sofre na puberdade?
  • Como sobreviver as borbulhas, às dúvidas e aos complexos?
  • O que é que se pode aprender (ou não?) sobre sexo ao ver filmes pornográficos?
  • O que é a privacidade? Porque motivo os pais dos adolescentes devem respeitá-la?
  • A adolescência é a idade da parvoeira? Porquê?
  • O que é fazer sexo?
  • Numa relação é importante respeitar o pudor e a intimidade do outro. Porquê?
  • Como é que se gera e cresce um bebé?

Deixo-vos também duas sugestões musicais: dois poemas de Carlos Tê (belíssimos) sobre o que é viver a adolescência. Quem canta é o Rui Veloso.

terça-feira, 29 de março de 2011

Um cartaz político falacioso (3)

Love_it_or_leave_it

A imagem foi retirada daqui.

Falso Dilema

A falácia do falso dilema ocorre quando duas situações possíveis são colocados como sendo as únicas opções, ou seja, quando uma disjunção contém apenas duas alternativas, existindo no entanto uma ou mais opções que não foram consideradas, ou ainda quando ambas as alternativas podem ser escolhidas simultaneamente. Ou seja, é dado um limitado número de opções (na maioria dos casos apenas duas), quando de facto há mais.

Pôr as questões ou opiniões em termos de "ou sim ou sopas" gera, com frequência (mas nem sempre), esta falácia. A versão mais simples desta falácia tem a seguinte forma lógica.

P ou Q.

Não P.

Logo, Q.

Qualquer argumento com esta forma lógica é dedutivamente válido, mas se analisarmos o conteúdo de um falso dilema, podemos verificar que a premissa disjuntiva é falsa, o que faz com que o argumento não seja sólido apesar de o parecer à primeira vista, em grande parte devido à sua forma lógica válida.

A frase apresentada na imagem surgiu por volta dos anos 70 aquando da guerra com o Vietname e no final da Guerra Fria com a Rússia. Esta frase reflecte o radicalismo patriótico que caracterizava a mente dos cidadãos americanos na altura. Mais tarde, passou de “grito de guerra” a frase política, acabando por se tornar icónica e estando presente hoje em dia em autocolantes e t-shirts.

Ao analisar esta imagem apercebemo-nos que estamos perante a dita falácia.

“América, ame-a ou deixe-a": esta frase sugere que tem que amar a América ou então tem que deixá-la e ir para outro lugar, mas essas estão longe de serem as duas únicas opções. Uma pessoa pode permanecer no país, mesmo sem amá-lo, talvez porque é onde trabalha, ou onde está toda a família. Na verdade, existem inúmeros motivos para permanecer num país sem o amar. Mas uma pessoa também pode deixar a América e ir viver para outro lugar, sem deixar de a amar pelo que é também possível que as duas alternativas se verifiquem em simultâneo.

Esta é, no entanto, uma frase célebre nos Estados Unidos, o que demonstra que as pessoas não entendem o que está subjacente à apresentação de apenas duas alternativas opostas. A frase – note-se que é uma frase imperativa – diz que se alguém não está contente com o funcionamento do país deve simplesmente deixá-lo, negando aos cidadãos a possibilidade de o tentar melhorar, de exporem as suas queixas e de procederem a alterações, o que é, diga-se de passagem, uma total contradição do que foi afirmado na “Declaração da Independência” e das ideias filosóficas subjacentes à constituição americana. A frase exprime assim conservadorismo e negação de toda a liberdade, à excepção da liberdade de deixar o país, promovendo a aceitação resignada por parte dos cidadãos.

Trabalho realizado por: Ana Nunes e Inês Ambrósio, 11ºC

Bibliografia:

http://www.gforum.tv/board/1643/237327/senciencia-animal.html

http://www.filedu.com/hlafollettedireitosdosanimaiseerrosdoshumanos.html

http://criticanarede.com/welcome.htm

- Aires de Almeida e outros, “A Arte de Pensar”, Didáctica Editora (o manual adoptado).

Nota: Outros trabalhos da aluna Ana Marta Nunes podem ser lidos aqui e aqui.

Análise filosófica de um anúncio publicitário (2)

Apelo à Piedade (Ad Misericordium)

Esta falácia consiste em apelar a sentimentos, em vez de boas razões, para levar à aceitação da conclusão. Na maior parte dos casos, a pena não é uma boa justificação para aceitar a conclusão de um argumento. Imagine-se, por exemplo, que um aluno fez directa para terminar um trabalho e reclama da nota baixa que teve, invocando a sua dedicação e sacrifício. Ora, será essa uma boa razão para ter uma boa nota?

Não, essa é uma boa razão para admirar o esforço do aluno, porém este  nada tem a ver com o conteúdo do trabalho. Esse argumento destina-se apenas a invocar um sentimento de pena que leve o professor a subir a nota sem apresentar, no entanto, qualquer justificação racional para tal.

No anúncio considerado, encontra-se também presente uma falácia do apelo à piedade. A cena de apedrejamento a uma mulher desperta certamente sentimentos de pena por esta, os quais são, devido à comparação facilmente perceptível (e discutível como foi referido anteriormente), alargados aos touros. Pretende-se assim influenciar a opinião dos espectadores a respeito das touradas, apelando apenas à reacção emocional despoletada por este anúncio.

Neste caso, a pena pelos animais até é uma boa razão para considerar as touradas imorais se partirmos do princípio de que eles sentem dor. No entanto, o que aqui se tenta fazer não se trata de persuasão racional mas sim de manipulação, visto que o objectivo não é fazer as pessoas pensar acerca da dor que os animais sentem mas sim chocá-las com as imagens apresentadas, ao ponto de as suas emoções se sobreporem ao pensamento. Além disso, o anúncio não nos mostra uma tourada mas sim uma pessoa a ser apedrejada e as únicas imagens de touros são mostradas apenas no final. Porque será? Talvez porque algo que toda a gente está habituada a ver não é de maneira alguma chocante pelo que não teria um impacte emocional tão grande na audiência.

Apelo à Tradição

Esta falácia, também  presente no anúncio,  consiste na justificação de acções ou opiniões apelando a tradições. Ou seja, afirma-se que por algo ser praticado há muito tempo, está correcto. Podemos considerá-lo como sendo um argumento de autoridade falacioso em que a autoridade à qual se apela é a tradição. Ora esta é não qualificada, pois o simples facto de algo ser tido como correcto ou praticado há muito tempo não constitui prova alguma da sua correcção ou veracidade. De facto, existem inúmeros exemplos de ideias que, após séculos de certeza, foram provadas erradas. Um exemplo bastante conhecido, e que retrata bem a situação, é o da posição da Terra relativamente ao Sol. O geocentrismo vigorou durante séculos baseado nos princípios religiosos. Contudo, mais tarde, provou-se a incorrecção de tal ideia e admitiu-se a posição heliocêntrica como correcta.

Neste anúncio, a falácia referida não é apresentada de forma explicita. É antes transmitida na parte falada do texto e é contradita pelas imagens e pelo final do anúncio.

O argumento expresso é:

As touradas fazem parte da nossa tradição há muito tempo.

Logo, a realização de touradas deve ser aceite por todos.

Ora, o que se faz no anúncio é refutar tal argumento, dizendo que uma tradição não é razão para se considerar algo como sendo moralmente correcto e dever ser praticado. Aliás, este apelo à tradição é, em parte, o que inspirou a comparação presente no anúncio: tal como na Península Ibérica temos esta tradição de realizar touradas, também os países do Médio Oriente têm a tradição de apedrejar as mulheres que, por exemplo, cometem adultério. Ora, se afirmamos que temos de respeitar a prática de touradas porque se trata de uma tradição, temos de afirmar o mesmo relativamente a tais tradições. No entanto, não o fazemos. Consideramos que tais práticas são completamente imorais, pois existem razões óbvias para o fazer. Apesar disso, os habitantes desses países continuam a fazê-lo porque é uma tradição. Do mesmo modo, realizamos touradas em Portugal porque foi algo que “sempre se fez”. Uma das coisas que o anúncio tenta mostrar - e com a qual concordo plenamente – é que o facto de as touradas serem uma tradição nacional não as torna moralmente correctas. O facto de se realizarem há muito tempo nada tem a ver com as razões que há para o fazer ou não. Aquilo que é relevante e deveria ser discutido é o sofrimento dos animais ou a sua inexistência.

Trabalho realizado por: Ana Marta Nunes e Inês Ambrósio, 11º C.

Análise filosófica de um anúncio publicitário (1)

Os meus alunos das turmas A e C do 11º ano realizaram trabalhos sobre o tema: A utilização de falácias informais no discurso político e publicitário.

O melhor trabalho foi elaborado pelas alunas Ana Marta Nunes e Inês Ambrósio da turma C do 11º ano.

Ei-lo:

Falácias Informais

Uma falácia pode ser definida como um argumento que parece cogente (é sólido porque é válido e tem premissas verdadeiras e, além disso, estas são mais plausíveis que a conclusão) mas não é. Um argumento evidentemente inválido é fácil de reconhecer e, por isso, não é enganador. Um argumento falacioso, por outro lado, pode ser enganador e levar a conclusões erradas se não for devidamente analisado e identificado como sendo inválido. Baseando-se neste conhecimento, partidos políticos e empresas utilizam, com frequência, vários tipos de falácias como um meio de vender as suas ideias e produtos, pois é muito mais fácil fazê-lo deste modo, do que provando a sua qualidade (muitas vezes inexistente) através da argumentação racional. Utilizando a manipulação, em vez da persuasão racional, poupa-se tempo e ganha-se dinheiro e/ou votos, mas retira-se à audiência o conhecimento e a possibilidade de avaliar as razões por si mesma e chegar às suas próprias conclusões. As falácias informais são argumentos não sólidos, não devido à sua forma lógica (que pode até ser válida), mas devido ao seu conteúdo. Por isso, para identificarmos um argumento que seja uma falácia informal não nos basta formalizá-lo e verificar a validade da sua forma lógica – precisamos de analisar o seu conteúdo.

Anúncio publicitário a analisar:

Falsa Analogia

Esta falácia ocorre quando um argumento por analogia é fraco. Um argumento por analogia é um argumento não dedutivo que se baseia nas semelhanças existentes entre duas coisas para inferir que uma delas possui uma outra propriedade que se verifica na outra. Para que um argumento por analogia seja informalmente válido (ou seja, seja um argumento forte), têm de se verificar duas condições (as quais são necessárias mas não suficientes):

1. As semelhanças observadas têm de ser relevantes e numerosas;

2. Não pode haver diferenças relevantes.

A relevância das semelhanças e diferenças prende-se com a conclusão, ou seja, é relativa a esta. Por exemplo, tanto a minha pessoa como o leitor somos seres humanos mas podemos ter uma cor de cabelo ou de olhos diferente, no entanto, isso nada tem a ver com a definição do que é um ser humano. O facto de termos um esqueleto semelhante, o mesmo cariótipo, sermos seres racionais e inúmeras outras semelhanças são relevantes em relação à classificação de “ser humano”.

Quando uma das condições previamente referidas não se verifica, ou seja, quando não existem semelhanças relevantes suficientes ou existem diferenças relevantes relativamente à conclusão, estamos na presença de um argumento por analogia fraco, isto é da falácia da falsa analogia.

Neste vídeo, um anúncio publicitário contra as touradas, está expresso o argumento:

Os touros são como os humanos.

É moralmente errado fazer um ser humano sofrer para divertimento do público.

Se é moralmente errado fazer um humano sofrer para divertimento do público, então também é moralmente errado fazer um touro sofrer para divertimento do público.

Logo, a realização de touradas é errada do ponto de vista moral.

Existem semelhanças entre os seres humanos e os touros na medida em que ambos são animais e ambos são sencientes, ou seja, têm a capacidade de sentir e como tal, têm a capacidade de sofrer, de sentir dor. No entanto, existem também diferenças relevantes que se prendem com o facto de os seres humanos serem racionais, enquanto os touros não o são e simplesmente pertencerem a uma outra espécie. Repare-se que a relevância das diferenças, e consequentemente o facto deste argumento se tratar de uma falsa analogia é discutível, assim como os direitos dos animais e a sua abrangência (o tema patente neste anúncio) também o são.

Será que é errado fazer sofrer um ser humano porque este tem consciência da sua própria existência ou será que infligir sofrimento desnecessário a um ser humano é imoral pelo simples facto de ele sentir dor? É esta última uma razão suficiente?

Independentemente da resposta a estas perguntas, as quais determinarão a nossa posição face à moralidade das touradas, podemos basear-nos apenas na realidade para fazer a nossa análise do argumento. E sendo assim, pode-se afirmar que existe pelo menos uma diferença relevante: a sociedade não trata humanos e outros animais de maneira igual ou mesmo semelhante. Se devia ou não, isso é uma outra questão, no entanto, aceitamos a morte de animais pelas mais variadas razões – para alimentação, realização de experiências laboratoriais, caça desportiva, entre outros. Matar um ser humano por uma destas razões é considerado moralmente errado por todos. Mas somos indiferentes à matança de outros animais por estas mesmas razões. Sendo assim, não podemos comparar os seres humanos aos touros e este argumento pode ser considerado falacioso. (Note-se que esta mesma sociedade de que falo é a audiência à qual o anúncio é destinado, a qual este pretende persuadir.)

Admito, no entanto, que o facto de este argumento constituir uma falácia informal é discutível, pois a este facto estão subjacentes outras questões altamente controversas, nomeadamente a discussão dos direitos dos animais.

sábado, 26 de março de 2011

Estudar filosofia política: imagens inspiradoras

Para os meus alunos do 10º ano que têm teste na segunda.

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Capa do livro Leviathan de Hoobes

A primeira imagem corresponde à página de rosto da primeira edição do livro Leviathan, escrito pelo filósofo Thomas Hobbes.

A segunda imagem corresponde a uma adaptação da imagem original à era tecnológica. Foi descoberta aqui.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Links para o 4º teste de Filosofia: turmas B e D do 11º

Cepticismo:

O argumento céptico da divergência de opiniões

Algumas imagens que nos levam a duvidar dos nossos olhos e o cepticismo radical

O argumento céptico da regressão infinita da justificação: um exemplo

Uma objecção ao argumento céptico dos erros e ilusões perceptivas

 

Descartes:

A minha vida é real: conhecimento ou mera crença?

A dúvida metódica (este deveria ter sido o primeiro post deste blogue)

Um mar de dúvidas

Razões para duvidar, segundo Descartes

Objecção a Descartes: o Cogito é um entimema e não uma crença básica

Descartes: argumentos para provar a existência de Deus

O argumento ontológico: diálogo entre um crente e um ateu

Objecção ao argumento da marca: criar a ideia de perfeição é diferente de criar a própria perfeição

A objecção de Kant ao argumento ontológico: a existência não é um predicado

A objecção de Gaunilo ao argumento ontológico: tem consequências absurdas

A esposa de Descartes

Versão materialista do "Penso, logo existo"

Descartes e a Matemática

 

Aconselhado:

Uma dúvida inspiradora para os alunos do 11º ano

Os abraços: realidade ou fantasia? - A importância de refutar o cepticismo

Exemplo de divergência de opiniões: a música de Strauss é sublime ou mera gritaria?

Como é que Descartes pretendeu ultrapassar o ponto de vista dos cépticos

Uma dúvida existencial e uma certeza póstuma

Cartoons cartesianos

Se o solipsismo for verdadeiro o caro leitor não existe: eu é que existo

Visita de estudo: Informações (2)

image Pavilhão do Conhecimento em Lisboa.

No Pavilhão do Conhecimento, no Parque das Nações, iremos visitar e realizar actividades nos locais que se seguem (para obter mais informações, clicar nas palavras com links). Podes também ler um resumo do que vais poder ver e experimentar.

1. Exposição interactiva: “Sexo e então?!

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2. Explora

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  • Podes realizar experiências online, em módulos interactivos, e ter acesso à explicação científica dos fenómenos que observas. Os temas são:

       - ponto esbatido;

       - pêndulo caótico;

       - deformações circulares.

3. Exposição: “Corpo e imagem”.

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Visita de estudo: Informações (1)

No próximo dia 1 de Abril, as turmas do 10º C e do 11º A irão realizar uma visita de estudo a Lisboa. Disponibilizo, seguidamente, informações (clicar nas palavras com links para aceder) acerca dos locais a visitar e das actividades a realizar.

Vale a pena consultar esta informação antes da visita, não só  para perceber o que iremos ver e fazer, como para compreender que se trata de uma oportunidade para conhecer mais, experimentar e, é claro, conviver.

Espero assim ter despertado a vossa apetência para desfrutar, a sério, este evento. 

1. Museu da Electricidade (10º C).

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2. Museu Calouste Gulbenkian (11º A).

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3. Outros locais e actividades de interesse na Fundação Calouste Gulbenkian (que os alunos poderão explorar livremente à hora do almoço).

  •  Exposição: A Perspectiva das Coisas. A Natureza-morta na Europa
    Segunda parte: 1840 – 1955.

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Fotografias das esculturas e dos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian.

Questões da sexualidade: o que é o prazer sexual? (3)

“O que é exactamente o prazer sexual? Assemelha-se ao prazer de comer e de beber? Ao de repousar num banho quente? Ao de olhar a nossa criança a brincar? É claramente como todos eles e diferente de todos eles. É diferente do prazer de comer no facto do seu objecto não ser consumido. É diferente do prazer do banho no facto de envolver ter prazer numa actividade, e na outra pessoa que se nos junta. É diferente do de olhar a nossa criança a brincar no facto de envolver sensações corporais e uma entrega ao desejo físico. O prazer sexual assemelha-se, no entanto num ponto crucial, ao prazer de olhar algo: tem intencionalidade. Não é apenas uma sensação de formigueiro; é uma resposta a outra pessoa, e ao acto em que se está envolvido com ele ou ela. A outra pessoa pode ser imaginária: mas é na direcção dessa pessoa que os nossos pensamentos são orientados, e o prazer depende do pensamento.

Esta dependência do pensamento significa que o desejo sexual pode ser enganado, e que cessa quando o engano é conhecido. (…) a descoberta de que é uma mão indesejada que me toca extingue de imediato o meu prazer.”

Roger Scruton, Guia de Filosofia para pessoas inteligentes, Editora Guerra e Paz, Lisboa, 2007, págs. 155-156.

Questões da sexualidade: discussão de preconceitos sobre a homossexualidade (2)

As actividades que iremos realizar acerca do tema enunciado no título deste post são as seguintes:

É preciso prestar atenção aos preconceitos.
Análise e discussão de preconceitos sobre a homossexualidade.
Questionário: análise de preconceitos sobre a homossexualidade.

Questões da sexualidade: adolescência e identidade sexual (1)

Caros alunos das turmas A e C do 11º ano, no âmbito do tema proposto no título deste post vamos visionar nas próximas aulas o filme, de André Téchiné, “Os juncos silvestres”.

O guião de análise do filme, a que terão de responder, encontra-se AQUI.

Bom trabalho!

terça-feira, 22 de março de 2011

As boas-vindas à Primavera

Textos no Dúvida Metódica sobre problemas da filosofia política

Caros alunos do 10º ano, seguem-se alguns dos textos, fichas e esquemas, cuja leitura é aconselhável para o teste da próxima semana. Chamo a atenção, sobretudo, para aqueles que foram utilizados nas aulas.

Bom trabalho! :)

1. A justificação do Estado: as perspectivas de Locke e Hobbes

As noções de “estado de natureza” e “contrato social” na perspectiva de Hobbes

A estrada de Giges

O que pode acontecer na ausência do Estado? – Um exemplo (1)

O que pode acontecer na ausência do Estado? – Um exemplo (2)

Como manter o poder?

A manipulação no discurso político

Ficha de trabalho: Hobbes e Locke

Será o estranho mundo de alguns políticos?

2. Anarquismo e democracia

O anarquismo e as teorias contratualistas de Hobbes e Locke

Anarquismo: a vida social é possível sem o estado

O que é a democracia?

Críticas de um anarquista à democracia

Críticas dos anarquistas à democracia: tópicos para o debate

O elogio de Péricles à democracia

Declaração Universal dos Direitos do Homem

Os líderes políticos, a preguiça e a obediência

O que fará sorrir estas pessoas?

Que tipo de relação deve existir entre os cidadãos e o Estado?

3. Desobediência civil

É legítimo desobedecer às leis do Estado? - Algumas considerações acerca do problema filosófico da desobediência civil

Strange fruit: o racismo não é estranho, é imoral

segunda-feira, 21 de março de 2011

domingo, 20 de março de 2011

É preciso dizer a verdade

image Sophia de Mello Breyner Andresen, fotografada  por Eduardo Gageiro.

Nesta hora

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo

Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida

O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados

Não basta gritar povo é preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar

Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão

Para construir o canto do terrestre
- Sob o ausente olhar silente de atenção –

Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra poética III, 2ª Edição, Editorial Caminho, Lisboa, 1996, pág. 197-198.

Para ler outros poemas (seleccionados pelos autores deste blogue) no Dia da Poesia ou noutro qualquer, pode ver AQUI.

sábado, 19 de março de 2011

Citação muito actual, tendo em conta o estado da pátria

“Sendo as virtudes primeiras da actividade humana, a verdade e a justiça não podem ser objecto de qualquer compromisso.”

John Rawls

Justiça pesa a verdade e a mentiraCitação lida aqui.

quinta-feira, 17 de março de 2011

O dia em que o Dúvida Metódica foi mais visitado

image

O número de visitantes deste blogue, cuja média diária é actualmente mais de 450, nos dias que antecederam o teste intermédio de Filosofia subiu significativamente. Num dos dias chegou a 1200 (este numero não inclui, como é óbvio, as visitas dos autores deste blogue). O aumento destes números explica-se pela consulta dos materiais disponibilizados sobre os temas que iriam ser alvo de avaliação no teste intermédio (pode-se também verificar o aumento do número de leituras e cópias das  fichas disponibilizadas no programa Scribd: ver aqui e aqui).

Os autores deste blogue tornam públicos os seus materiais com o objectivo destes serem lidos e utilizados e, por isso, este aumento de visitantes é um facto muito positivo que nos apraz registar. Deixamos aqui um agradecimento a todos os leitores.

Contudo, não posso deixar de salientar um aspecto negativo. Sabemos que algumas destas visitas foram de professores de Filosofia: é fácil verificar (clicando no contador) que existem links para este blogue no Moodle de várias escolas e sabemos também, informalmente - por intermédio dos nossos alunos que têm colegas noutros pontos do país e aqui em Faro - que muitos professores utilizam os recursos que aqui disponibilizamos nas aulas, alguns deles sem indicarem sequer a fonte. No entanto, desde Setembro de 2008 (data em que este blogue foi criado) e apesar de ter mais de 186.000 visitas (e o número total de páginas visualizadas ser de 358.253, em média 888 páginas diárias) cabem nos dedos de duas mãos os professores de Filosofia que emitiram opiniões, críticas ou sugestões sobre o trabalho que aqui desenvolvemos. O que pensar então desta “partilha” (agora também decretada pelo Ministério da Educação como um critério de avaliação dos professores)?

O que pensar da ausência de feedback por parte alguns professores de Filosofia que, embora sejam utilizadores frequentes dos recursos que aqui disponibilizamos, não deixam um único comentário, crítica ou sugestão?

Não julgo que este súbito aumento de visitantes se explique por uma valorização da partilha, ou da discussão e da troca de ideias. Penso que a causa será antes a lei do menor esforço: utilizar o trabalho dos outros para não ter trabalho. É humano. Porém, era desejável que houvesse por parte dos professores de Filosofia, um genuíno interesse intelectual pela disciplina que leccionam ou pelos materiais aqui disponibilizados, em vez de uma perspectiva puramente instrumental. Pode não ser simpático ou agradável, mas creio ser esta a verdade, na maioria dos casos. Há poucas excepções e isso diz muito acerca do nível do ensino secundário, em particular da Filosofia, em Portugal.

terça-feira, 15 de março de 2011

Críticas dos anarquistas à democracia: tópicos para o debate

críticas de um anarquista à democracia

Para quem quer saber mais sobre o anarquismo:

- Um exemplo de uma comunidade, na Dinamarca, que vive de de acordo com os ideais anarquistas.

- Um texto sobre essa comunidade e um sítio de divulgação das ideias anarquistas.

Agradeço ao meu antigo aluno, Gonçalo Correia, o facto de me ter fornecido estas informações.

O que é a democracia?

«A democracia, costuma dizer-se, é o governo “do povo, pelo povo e para o povo”. Governo para o povo quer dizer que o governo existe em proveito dos seus cidadãos, não para benefício dos governantes. Os governos democráticos governam “no interesse dos governados”, para utilizar as palavras de Bentham.”

Haverá algo que possamos acrescentar em defesa do tipo de sistema democrático que temos? Talvez o melhor a dizer seja isto: no mundo contemporâneo, temos de aceitar que não conseguimos sobreviver sem estruturas de autoridade coerciva. Mas, se temos tais estruturas, precisamos de pessoas que ocupem os seus lugares no seu seio - por outras palavras, governantes. (…) Só aceitaremos que os indivíduos têm direito de governar se tiverem sido nomeados pelas pessoas e puderem ser destituídos pelas pessoas. Ou seja, só a democracia nos permite dar uma resposta aceitável à questão: “por que devem estas pessoas governar?” ou “o que torna legítimo o seu governo?”. Através de meios democráticos podemos, claro está, exercer igualmente um controlo, até certo ponto, sobre a conduta dos governantes. Talvez isto seja o melhor que podemos esperar, tanto em termos de estrutura política como enquanto defesa derradeira da democracia moderna.»

Jonathan Wolff, Introdução à filosofia política, Edições Gradiva, pp. 95 e 152.

O anarquismo e as teorias contratualistas de Hobbes e Locke

Esquema Sobre o Anarquismo e as Teorias Contratualistas

domingo, 13 de março de 2011

O dilema das provas nacionais de Filosofia

Uma das objecções que por vezes é feita aos exames nacionais e a outras formas de avaliação externa, como os testes intermédios, afirma que provas desse género levam os professores e os alunos a ficar obcecados com a sua preparação e a descurarem actividades escolares mais interessantes e úteis – como, por exemplo, os debates e os trabalhos de pesquisa. A ideia subjacente é que ou se prepara os alunos para responderem a provas nacionais ou se ensina os alunos a pensarem criticamente e a discutir ideias.

Esse argumento é uma falácia (um falso dilema), pois as duas coisas não são incompatíveis. Contudo, para conseguir alcançar ambas é necessário (mas não suficiente, claro) que se verifiquem três condições.

1) Os conteúdos alvo de avaliação devem ser científica e pedagogicamente correctos.

2) A selecção desses conteúdos e da terminologia utilizada nas questões não pode ser arbitrária e completamente imprevisível.

3) As provas devem incluir questões que apelem ao pensamento crítico e não apenas à memorização.

É uma evidência que o actual programa de Filosofia para o Ensino Secundário dificulta bastante a satisfação da condição 1) e impede a satisfação da condição 2).

Por isso, agora que se iniciou a realização de testes intermédios em Filosofia e que está prevista a realização de um exame nacional no final do 11º ano, é indispensável que o programa seja alterado ou que sejam estabelecidas orientações para a sua gestão capazes de minimizar os seus defeitos (vagueza, extensão excessiva, desorganização, inadequação ou mesmo incorrecção de certas partes, irrelevância filosófica de outras, etc).

Caso contrário, um professor poderá cumprir o programa (de acordo com a interpretação que dele faz), dar boas aulas de filosofia e mesmo assim não preparar bem os seus alunos para o teste intermédio e para o exame.

Este ano não tenho turmas do 10º. Mas se tivesse, ao ler em algumas questões do teste intermédio de Filosofia (realizado no passado dia 22 de Fevereiro, com uma matriz muito vaga e sem quaisquer orientações de gestão do programa) expressões como “preferência valorativa” e “diálogo de culturas”, teria sentido o receio de não ter preparado bem os alunos. (A propósito, vale a pena ler os “receios” da Sara Raposo e do Carlos Café.)

Se os receios desse género condicionarem negativamente o modo como os professores de Filosofia dão as aulas (enchendo-as de mais e mais matéria, para evitar que nas provas nacionais sejam utilizados termos e conceitos por eles não usados), o argumento referido no início deixará de ser uma falácia e a existência de testes intermédios e exames a Filosofia deixará de ser benéfica. Por isso, repito, é necessário que haja ou uma reformulação do programa ou a implementação de orientações para a sua gestão.

Quando? Já no próximo ano lectivo, se quisermos que o exame nacional e os futuros testes intermédios corram bem.

Filosofia da música em Portimão

cartaz XII Conferência de Filosofia da Teixeira Gomes filosofia da música

Na próxima sexta-feira, 18 de Março, na Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, em Portimão, decorrerá a XII Conferência de Filosofia da Teixeira Gomes.

Tema: Filosofia da música. Conferencista: Vitor Guerreiro, da Universidade do Porto. Hora: 15:00.

Está prevista a participação da Orquestra de Cordas Joly Braga Santos, dirigida pelo maestro João Miguel Cunha.

sábado, 12 de março de 2011

Textos sobre o cepticismo, Descartes e Hume

Seguem-se links para textos e outro tipo de recursos existentes no Dúvida Metódica sobre o cepticismo, Descartes e David Hume. Esperamos que vós possam úteis.

Bom estudo! :)

1. Cepticismo

Textos sobre o cepticismo

Uma dúvida inspiradora para os alunos do 11º ano

2. Descartes

A dúvida metódica (este deveria ter sido o primeiro post deste blogue)

Um mar de dúvidas

Razões para duvidar, segundo Descartes

Os sonhos de Akira Kurosawa: cinema em tempo de lazer (2)

O solipsismo e a necessidade de Deus no sistema cartesiano

Descartes: argumentos para provar a existência de Deus

A objecção de Kant ao argumento ontológico: a existência não é um predicado

O argumento ontológico: diálogo entre um crente e um ateu

Objecção ao argumento da marca: criar a ideia de perfeição é diferente de criar a própria perfeição

O “Deus dos filósofos” e o “Deus da fé”

Críticas a Descartes: Ficha de trabalho

Como é que Descartes pretendeu ultrapassar o ponto de vista dos cépticos

Descartes e a Matemática

Os conceitos cartesianos de intuição e dedução

A matemática é a priori mas não é inata

Cartoons cartesianos

Como aplicar ideias da Física ao marketing

3. David Hume

Impressões e ideias

Cegos que começam a ver: impressões e ideias

Como se originou, segundo Hume, a ideia de Deus?

O problema da causalidade

A crença na causalidade é instintiva

As superstições e a crítica de Hume à ideia de causalidade

A minha vida é real: conhecimento ou mera crença?

Matriz do 4º teste do 11º ano: turmas A e C

2010-11 11º matriz do 4 teste

sexta-feira, 11 de março de 2011

Mais testes intermédios nos cursos de humanidades?

Para finalizar a reflexão acerca dos testes intermédios é importante assinalar o seguinte facto: o Ministério da Educação trata de forma desigual os alunos dos cursos científicos e dos cursos humanísticos. Ambos os cursos têm exames nacionais, mas até agora só os alunos das áreas de ciências podiam realizar testes intermédios: a Matemática A; Biologia e Geologia; Física e Química A e agora também Filosofia. Os alunos de humanidades realizaram este ano, pela primeira vez, um teste intermédio: o de Filosofia.  Como se explica esta prática instituída há vários anos por parte do ministério? A necessidade de realizar testes intermédios só se faz sentir nos cursos de ciências? Porque é que não existem testes intermédios em disciplinas como História, Geografia e MACS?

Muitos alunos de ciências já me colocaram essas questões, queixando-se de trabalhar mais do que os outros. 

É evidente que esse tratamento desigual é injusto, pois contribui para que os alunos de humanidades tenham uma preparação pouco adequada. Além disso, contribui para a falta de exigência que, por vezes, se verifica nas disciplinas dos cursos de humanidades. É bom lembrar que estes são frequentados por alunos que, em geral, revelam mais dificuldades de aprendizagem e menos pré-requisitos que os alunos de ciências e que, por isso, precisam de trabalhar mais e não menos.

Em suma, uma forma de aumentar a qualidade dos cursos humanísticos e introduzir maior exigência, seria  dar a estes alunos a possibilidade de fazerem o mesmo número de testes intermédios que os alunos dos cursos de ciências (pressupondo, naturalmente, que as escolas aderiam a esse projecto e não se repetia o que sucedeu agora no teste intermédio de Filosofia, em que apenas um terço das escolas decidiu realizá-lo).

quinta-feira, 10 de março de 2011

Uma reflexão sobre o teste intermédio de Filosofia

Considero imprescindível que haja avaliação externa do trabalho desenvolvido pelos professores e pelos alunos. Por isso, julgo que devem existir testes intermédios e exames nacionais. Para um professor perceber se as suas práticas são ou não adequadas tem de se dar ao trabalho de as comparar com as dos outros professores. A avaliação externa incentiva ao diálogo e à crítica, que são os melhores meios para corrigir ou aperfeiçoar o que pensamos e o que fazemos. Os testes intermédios e os exames possibilitam a aferição dos resultados obtidos pelos alunos e a avaliação da qualidade do ensino ministrado pelos professores, distinguindo o mérito ou a falta dele. É óbvio que esta finalidade só é alcançável se os exames e os testes forem adequados, do ponto de vista científico e pedagógico e não promoverem o facilitismo e a consequente inflação das classificações.

Duvido que a maioria dos professores (à semelhança, aliás, dos profissionais de outras áreas) sinta a necessidade de se actualizar cientificamente ou alterar as suas práticas sem um constrangimento exterior que os leve a expor publicamente os resultados do seu trabalho. Os testes intermédios e os exames são o melhor meio – com imperfeições, é certo - de conseguir avaliar de forma imparcial, com o rigor e a objectividade possíveis, o que é mais importante: a qualidade do ensino e das aprendizagens.

Há testes intermédios e exames a várias disciplinas. A Filosofia não deve ser uma excepção. Como se poderia justificar que fosse?

Existem vários outros argumentos favoráveis à aplicação dos testes intermédios e dos exames. Desses destaco este: promove um maior empenho dos alunos (e professores), como pude verificar agora no teste intermédio de Filosofia.

Fui correctora dos testes intermédios de Filosofia. Penso que o teste foi acessível e os resultados globalmente positivos. Mas confesso que esperava pior, dada a inexistência de orientações específicas relativas aos conteúdos programáticos a testar, a vagueza da linguagem utilizada no programa e, sobretudo, a disparidade de abordagens efectuadas pelos diferentes manuais e professores.

No entanto, impõem-se várias críticas. Eis algumas delas.

Julgo que a formulação de algumas questões era pouco clara. Por exemplo: no Grupo I, a questão 2, em que se pedia para explicitar o conceito de acção presente no texto. Na questão 2 do Grupo III, na indicação dada aos alunos dos aspectos a abordar, há uma sobreposição entre o primeiro tópico: a explicitação do “princípio ético da maior felicidade em Stuart Mill”, e o segundo tópico, em que era necessário explicar o “critério da moralidade em Stuart Mill”, pois este último corresponde ao mesmo que era pedido no tópico anterior (ou seja ao princípio da maior felicidade). Quanto aos textos apresentados, alguns deles eram pouco informativos ou mesmo pouco adequados em relação à questão formulada. Veja-se o caso do texto apresentado no Grupo I (na questão 2) que se relaciona mais com o problema filosófico do sentido da vida do que propriamente com o conceito de acção.

Por outro lado, nalgumas questões atribuiu-se um peso excessivo às competências interpretativas em detrimento das filosóficas.

Houve conteúdos, filosoficamente relevantes, que não foram objecto de avaliação no teste: as teorias do relativismo moral e cultural; o subjectivismo moral; a teoria dos mandamentos divinos; as críticas às teorias éticas de Kant e Stuart Mill e noções lógicas como as de argumento, premissa, tese e contra-exemplo - que poderiam ser aplicadas à análise de textos e exemplos. Aliás, a capacidade de utilizar estes conceitos lógicos fazia parte – segundo as informações emitidas pelo GAVE sobre o teste intermédio (pág. 2) - das competências a avaliar.

A gestão do tempo na leccionação programa poderia levantar algumas dificuldades. Habitualmente, os professores não chegam a 22 de Fevereiro tendo dado Kant e Stuart Mill. A leccionação destes conteúdos até esta data obrigou a uma definição de prioridades e, na ausência de indicações específicas, cada professor geriu o tempo disponível em função do que considerou mais importante. Assim, eu assumo que privilegiei nas aulas o estudo das teorias éticas de Kant e Stuart Mill - a parte do programa do 10º ano que considero mais interessante e filosoficamente relevante – em detrimento de temas vagos, como, por exemplo, “a rede conceptual da acção”. Os meus alunos tiveram até uma certa sorte, pois o texto do Stuart Mill (do Grupo III) tinha sido analisado nas aulas.

Em relação ao futuro, sugiro que o Ministério da Educação especifique, antecipadamente, com clareza os conteúdos programáticos que irão ser avaliados ou então mude o programa em vigor. Só assim se podem ultrapassar alguns problemas decorrentes da linguagem vaga utilizada nalguns manuais e no próprio programa de Filosofia. Há manuais (e professores) com abordagens inadequadas que, em vez de privilegiarem o confronto e a discussão das teorias e dos argumentos, apresentam uma imagem errada da Filosofia, reduzindo-a a um conjunto de frases para memorizar sem se compreender as ideias em causa ou a relação destas com a realidade - e, sobretudo, sem se discutir se as ideias expressas são verdadeiras ou falsas.

Assim, pressupondo que essas orientações de gestão do programa eram dadas pelo Ministério da Educação, penso que, ao contrário do que está previsto acontecer no próximo ano lectivo, deveria existir um exame de Filosofia que fosse obrigatório para a conclusão da disciplina no 11º ano e não funcionasse apenas como prova específica.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Razões para duvidar, segundo Descartes

descartes«Notei, há alguns anos já, que, tendo recebido desde a mais tenra idade tantas coisas falsas por verdadeiras, e sendo tão duvidoso tudo o que depois sobre elas fundei, tinha de deitar abaixo tudo, inteiramente, por uma vez na minha vida, e começar, de novo, desde os primeiros fundamentos, se quisesse estabelecer algo de seguro e duradouro nas ciências. Então, hoje, (…) vou dedicar-me, por fim, com seriedade e livremente, a destruir em geral as minhas opiniões.

Para isso não será necessário mostrar que todas são falsas, o que possivelmente eu nunca iria conseguir. (…) Não tenho de percorrê-las cada uma em particular, trabalho que seria sem fim: porque uma vez minados os fundamentos, cai por si tudo o que está sobre eles edificado, atacarei imediatamente aqueles princípios em que se apoiava tudo o que anteriormente acreditei.

Sem dúvida, tudo aquilo que até ao presente admiti como maximamente verdadeiro foi dos sentidos ou por meio dos sentidos que o recebi. Porém, descobri que eles por vezes nos enganam, e é de prudência nunca confiar naqueles que, mesmo uma só vez, nos enganaram.

Mas ainda que os sentidos nos enganem algumas vezes sobre coisas pequenas e afastadas, há todavia muitas outras de que não podemos duvidar, embora as recebamos por eles: como, por exemplo, que estou aqui, sentado junto à lareira, vestido com um roupão de Inverno, que toco este papel com as mãos, e outros factos semelhantes. E ainda, qual a razão por que se poderia negar que estas próprias mãos e todo este meu corpo são meus? (…)

Ora muito bem, como se eu não fosse um homem que costuma dormir de noite e consentir em sonhos (…) [muitas coisas irreais]. Com efeito, quantas vezes me acontece que, durante o repouso nocturno, me deixo persuadir de coisas tão habituais como que estou aqui, com o roupão vestido, sentado à lareira, quando todavia estou estendido na cama e despido! Mas agora, observo este papel seguramente com os olhos abertos, esta cabeça que movo não está a dormir, voluntária e conscientemente estendo esta mão e sinto-a: o que acontece quando se dorme não parece tão distinto. Como se não me recordasse de já ter sido enganado em sonhos por pensamentos semelhantes! Por isso, se reflicto mais atentamente, vejo com clareza que vigília e sonho nunca se podem distinguir por sinais seguros, o que me espanta (…).

[Contudo], a Aritmética, a Geometria e outras ciências desta natureza, que só tratam de coisas extremamente simples e gerais e não se preocupam em saber se elas existem ou não na natureza real, contêm algo de certo e indubitável. Porque, quer eu esteja acordado quer durma, dois e três somados são sempre cinco e o quadrado nunca tem mais do que quatro lados e parece impossível que verdades tão evidentes possam incorrer na suspeita de falsidade.

Todavia, está gravada no meu espírito uma velha crença, segundo a qual existe um Deus que pode tudo e pelo qual fui criado tal como existo. Mas quem me garante que ele não procedeu de modo que não houvesse nem terra, nem céu (...), nem grandeza, nem lugar, e que, no entanto, tudo isto me parecesse existir tal como agora? E mais ainda, assim como concluo que os outros se enganam algumas vezes naquilo que pensam saber com absoluta perfeição, também eu me podia enganar todas as vezes que somasse dois e três ou contasse os lados de um quadrado, ou em algo de mais fácil ainda, se é possível imaginá-lo. (...) Vejo-me constrangido a reconhecer que não existe nada, naquilo que outrora reputei como verdadeiro, de que não seja lícito duvidar. (...)

[Suponhamos, então, que] há um enganador (…) sumamente poderoso e astuto, que me engana sempre com a sua indústria. No entanto, não há dúvida de que existo, se me engana; que me engane quanto possa, não conseguirá nunca que eu seja nada enquanto eu pensar que sou alguma coisa. De maneira que (...) deve por último concluir-se que esta proposição Eu sou, eu existo, sempre que proferida por mim ou concebida pelo meu espírito, é necessariamente verdadeira.»

Descartes, Meditações sobre a Filosofia Primeira, trad. de Gustavo de Fraga, Livraria Almedina, Coimbra, 1985, pp. 105-119.

Descartes dando lições de Filosofia à Rainha Cristina da Suécia _i_samtal_med_Sveriges_drottning,_Kristina Descartes dando lições de Filosofia à Rainha Cristina da Suécia.

terça-feira, 8 de março de 2011

O dia da mulher depende das mulheres…e dos homens

Dia Internacional da Mulher: hoje (8 de Março)?

O vídeo foi descoberto neste sítio. A leitura dos dados da Amnistia Internacional sobre a violência e discriminação contra as mulheres devem-nos fazer pensar. E actuar.

segunda-feira, 7 de março de 2011

A distribuição do bom senso

«O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída; porque cada um pensa estar dele tão bem provido que mesmo os mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa não costumam desejar mais do que o que têm.»

Descartes, Discurso do Método, trad. de João Gama, Edições 70, Lisboa, 1991, pág. 39.

(Para que não existam dúvidas, ainda que metódicas: o uso da etiqueta Humor é intencional.)

Filosofia na Internet

Nas Ligações de Filosofia do Dúvida Metódica constam duas novas ligações:

Pedro Galvão

TEORIAS E ARGUMENTOS, de Luís Rodrigues (a propósito do autor ver também aqui).

Ambos os sítios merecem a atenção de professores, alunos e outros interessados na filosofia.

domingo, 6 de março de 2011

Como aplicar ideias da Física ao marketing

A árvore do saber

A Daniela Romba, minha aluna do 11ºC, sugeriu-me, a propósito de um assunto abordado numa das últimas aulas, o vídeo a seguir apresentado.

É um facto que a ideia cartesiana do conhecimento - entendido como uma árvore que englobava as diferentes ciências e cujas raízes eram sustentadas pela Metafísica - se encontra ultrapassada. Todavia, apesar da especialização que existe hoje em dia nas várias ciências particulares, estas não funcionam como compartimentos estanques. Assim, por exemplo, certas ideias da Física podem ser aplicadas para compreender o modo como as empresas podem construir e gerir, na Internet, as  marcas que comercializam.

Dan Cobley, físico e director de marketing da Google, explica como se aplicam algumas ideias da Física ao Marketing (a segunda lei de Newton, o princípio da incerteza de Heisenberg) e algumas ideias filosóficas relacionadas com método científico (algumas delas já estudadas e outras de que iremos falar nas aulas sobre Karl Popper).

Vale mesmo a pena ver e ouvir Dan Cobley. Além das qualidades inegáveis do seu discurso, ele tem também bastante sentido de humor.

Sugiro a alguns alunos (e até mesmo professores, tanto das “ciências” como das “letras”) que, depois de verem o vídeo, reflictam na forma como encaram as disciplinas do seu currículo. Ter conhecimentos de Português, de Física, de Matemática, de Psicologia ou de Filosofia é uma bagagem mais importante do que à partida podia parecer. Pode acontecer que as ideias aprendidas numa destas disciplinas se revelem, afinal, ferramentas fundamentais para compreender factos com que, aparentemente, não tinham qualquer relação.

Talvez muitas das possibilidades de emprego no futuro dependam desta flexibilidade de transpor conhecimentos e aptidões adquiridos - de forma sólida - numa área específica de estudo para outras áreas. Isto significa  compreender efectivamente e saber aplicar a situações concretas as matérias em estudo e desenvolver capacidades, ao nível do raciocínio e da criatividade, que possibilitem  inesperadas aplicações das ideias. Veja-se o caso da Física e do Marketing, ilustrado no vídeo.

Portanto, parece-me que os mais capazes, entenda-se com mais possibilidades de acesso aos empregos intelectualmente mais estimulantes e criativos - se excluirmos, em Portugal, o factor cunha -  serão aqueles estudantes que, além da competência científica, sejam capazes de aplicar de forma inovadora as ideias que aprenderam bem.

Para aceder à tradução (em português do Brasil) pode seleccionar essa opção no vídeo ou então ver aqui.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O problema do livre-arbítrio no filme: “Os agentes do destino”

O Rafael Fonseca, meu aluno do 10º C, deu-me a conhecer o filme “Os agentes do destino” que estreará, em Portugal, no próximo dia 10 de Março.

Como bem observou o Rafael, a história relatada no filme (inspirada pelo conto "Adjustment Team", de Philip K. Dick) pode relacionar-se com as teorias que estudamos nas aulas a propósito do problema do livre-arbítrio. Serão as nossas acções apenas o resultado de acontecimentos anteriores e a possibilidade de escolha, que julgamos ter ao longo da nossa vida, apenas uma ilusão?

Se querem descobrir a resposta vão ver o filme. É uma ironia, mas não do destino!

Sinopse: David Norris é um carismático congressista norte-americano que parece destinado a grandes feitos políticos, mas esse destino fica em causa quando conhece uma bela bailarina chamada Elise Sellas e estranhos acontecimentos parecem impedi-los de se envolver romanticamente.

Título original: The Adjustment Bureau. De George Nolfi, com Matt Damon, Emily Blunt, Anthony Mackie e Shohreh Aghdashloo.