terça-feira, 29 de março de 2011

Um cartaz político falacioso (3)

Love_it_or_leave_it

A imagem foi retirada daqui.

Falso Dilema

A falácia do falso dilema ocorre quando duas situações possíveis são colocados como sendo as únicas opções, ou seja, quando uma disjunção contém apenas duas alternativas, existindo no entanto uma ou mais opções que não foram consideradas, ou ainda quando ambas as alternativas podem ser escolhidas simultaneamente. Ou seja, é dado um limitado número de opções (na maioria dos casos apenas duas), quando de facto há mais.

Pôr as questões ou opiniões em termos de "ou sim ou sopas" gera, com frequência (mas nem sempre), esta falácia. A versão mais simples desta falácia tem a seguinte forma lógica.

P ou Q.

Não P.

Logo, Q.

Qualquer argumento com esta forma lógica é dedutivamente válido, mas se analisarmos o conteúdo de um falso dilema, podemos verificar que a premissa disjuntiva é falsa, o que faz com que o argumento não seja sólido apesar de o parecer à primeira vista, em grande parte devido à sua forma lógica válida.

A frase apresentada na imagem surgiu por volta dos anos 70 aquando da guerra com o Vietname e no final da Guerra Fria com a Rússia. Esta frase reflecte o radicalismo patriótico que caracterizava a mente dos cidadãos americanos na altura. Mais tarde, passou de “grito de guerra” a frase política, acabando por se tornar icónica e estando presente hoje em dia em autocolantes e t-shirts.

Ao analisar esta imagem apercebemo-nos que estamos perante a dita falácia.

“América, ame-a ou deixe-a": esta frase sugere que tem que amar a América ou então tem que deixá-la e ir para outro lugar, mas essas estão longe de serem as duas únicas opções. Uma pessoa pode permanecer no país, mesmo sem amá-lo, talvez porque é onde trabalha, ou onde está toda a família. Na verdade, existem inúmeros motivos para permanecer num país sem o amar. Mas uma pessoa também pode deixar a América e ir viver para outro lugar, sem deixar de a amar pelo que é também possível que as duas alternativas se verifiquem em simultâneo.

Esta é, no entanto, uma frase célebre nos Estados Unidos, o que demonstra que as pessoas não entendem o que está subjacente à apresentação de apenas duas alternativas opostas. A frase – note-se que é uma frase imperativa – diz que se alguém não está contente com o funcionamento do país deve simplesmente deixá-lo, negando aos cidadãos a possibilidade de o tentar melhorar, de exporem as suas queixas e de procederem a alterações, o que é, diga-se de passagem, uma total contradição do que foi afirmado na “Declaração da Independência” e das ideias filosóficas subjacentes à constituição americana. A frase exprime assim conservadorismo e negação de toda a liberdade, à excepção da liberdade de deixar o país, promovendo a aceitação resignada por parte dos cidadãos.

Trabalho realizado por: Ana Nunes e Inês Ambrósio, 11ºC

Bibliografia:

http://www.gforum.tv/board/1643/237327/senciencia-animal.html

http://www.filedu.com/hlafollettedireitosdosanimaiseerrosdoshumanos.html

http://criticanarede.com/welcome.htm

- Aires de Almeida e outros, “A Arte de Pensar”, Didáctica Editora (o manual adoptado).

Nota: Outros trabalhos da aluna Ana Marta Nunes podem ser lidos aqui e aqui.

6 comentários:

Manuel Galvão disse...

Comporte-se como cidadão ordeiro ou vá para outro país, porque não o desejamos cá.

É um aviso, isso sim.

Gerson Avillez disse...

Típico de gente mentalmente limitada pelo dualismo maquiavélico, falacia muito recorrente mesmo aos presidentes norte-americanos como Bush ao afirmar que aqueles que não os apoiam são seus inimigos. É do mesmo criador nacional sexista de "dá ou desce".

Luis Quaresma disse...

Bom post.

Maizé Trindade disse...

Aqui no Brasil, durante os quase 20 anos de ditadura militar (1964-1985), também fomos bombardeados por frase semelhante (Brasil, ame-o ou deixe-o!), slogan coerente com regimes totalitários.

Carlos Pires disse...

Maizé: os EUA não são um país totalitário, mas sim uma democracia. Países totalitários são Cuba, a Coreia do Norte, a Bielorrússia. Há anos atrás a lista era maior.

Sérgio O. Marques disse...

Os Estados Unidos queriam-se abeirar de uma democracia grega. Nesta, quem não estava de acordo suicidava-se. Naquela, quem não estiver de acordo, que se mude.
No fim, ambas resultam em democracias ideais.