terça-feira, 29 de março de 2011

Análise filosófica de um anúncio publicitário (1)

Os meus alunos das turmas A e C do 11º ano realizaram trabalhos sobre o tema: A utilização de falácias informais no discurso político e publicitário.

O melhor trabalho foi elaborado pelas alunas Ana Marta Nunes e Inês Ambrósio da turma C do 11º ano.

Ei-lo:

Falácias Informais

Uma falácia pode ser definida como um argumento que parece cogente (é sólido porque é válido e tem premissas verdadeiras e, além disso, estas são mais plausíveis que a conclusão) mas não é. Um argumento evidentemente inválido é fácil de reconhecer e, por isso, não é enganador. Um argumento falacioso, por outro lado, pode ser enganador e levar a conclusões erradas se não for devidamente analisado e identificado como sendo inválido. Baseando-se neste conhecimento, partidos políticos e empresas utilizam, com frequência, vários tipos de falácias como um meio de vender as suas ideias e produtos, pois é muito mais fácil fazê-lo deste modo, do que provando a sua qualidade (muitas vezes inexistente) através da argumentação racional. Utilizando a manipulação, em vez da persuasão racional, poupa-se tempo e ganha-se dinheiro e/ou votos, mas retira-se à audiência o conhecimento e a possibilidade de avaliar as razões por si mesma e chegar às suas próprias conclusões. As falácias informais são argumentos não sólidos, não devido à sua forma lógica (que pode até ser válida), mas devido ao seu conteúdo. Por isso, para identificarmos um argumento que seja uma falácia informal não nos basta formalizá-lo e verificar a validade da sua forma lógica – precisamos de analisar o seu conteúdo.

Anúncio publicitário a analisar:

Falsa Analogia

Esta falácia ocorre quando um argumento por analogia é fraco. Um argumento por analogia é um argumento não dedutivo que se baseia nas semelhanças existentes entre duas coisas para inferir que uma delas possui uma outra propriedade que se verifica na outra. Para que um argumento por analogia seja informalmente válido (ou seja, seja um argumento forte), têm de se verificar duas condições (as quais são necessárias mas não suficientes):

1. As semelhanças observadas têm de ser relevantes e numerosas;

2. Não pode haver diferenças relevantes.

A relevância das semelhanças e diferenças prende-se com a conclusão, ou seja, é relativa a esta. Por exemplo, tanto a minha pessoa como o leitor somos seres humanos mas podemos ter uma cor de cabelo ou de olhos diferente, no entanto, isso nada tem a ver com a definição do que é um ser humano. O facto de termos um esqueleto semelhante, o mesmo cariótipo, sermos seres racionais e inúmeras outras semelhanças são relevantes em relação à classificação de “ser humano”.

Quando uma das condições previamente referidas não se verifica, ou seja, quando não existem semelhanças relevantes suficientes ou existem diferenças relevantes relativamente à conclusão, estamos na presença de um argumento por analogia fraco, isto é da falácia da falsa analogia.

Neste vídeo, um anúncio publicitário contra as touradas, está expresso o argumento:

Os touros são como os humanos.

É moralmente errado fazer um ser humano sofrer para divertimento do público.

Se é moralmente errado fazer um humano sofrer para divertimento do público, então também é moralmente errado fazer um touro sofrer para divertimento do público.

Logo, a realização de touradas é errada do ponto de vista moral.

Existem semelhanças entre os seres humanos e os touros na medida em que ambos são animais e ambos são sencientes, ou seja, têm a capacidade de sentir e como tal, têm a capacidade de sofrer, de sentir dor. No entanto, existem também diferenças relevantes que se prendem com o facto de os seres humanos serem racionais, enquanto os touros não o são e simplesmente pertencerem a uma outra espécie. Repare-se que a relevância das diferenças, e consequentemente o facto deste argumento se tratar de uma falsa analogia é discutível, assim como os direitos dos animais e a sua abrangência (o tema patente neste anúncio) também o são.

Será que é errado fazer sofrer um ser humano porque este tem consciência da sua própria existência ou será que infligir sofrimento desnecessário a um ser humano é imoral pelo simples facto de ele sentir dor? É esta última uma razão suficiente?

Independentemente da resposta a estas perguntas, as quais determinarão a nossa posição face à moralidade das touradas, podemos basear-nos apenas na realidade para fazer a nossa análise do argumento. E sendo assim, pode-se afirmar que existe pelo menos uma diferença relevante: a sociedade não trata humanos e outros animais de maneira igual ou mesmo semelhante. Se devia ou não, isso é uma outra questão, no entanto, aceitamos a morte de animais pelas mais variadas razões – para alimentação, realização de experiências laboratoriais, caça desportiva, entre outros. Matar um ser humano por uma destas razões é considerado moralmente errado por todos. Mas somos indiferentes à matança de outros animais por estas mesmas razões. Sendo assim, não podemos comparar os seres humanos aos touros e este argumento pode ser considerado falacioso. (Note-se que esta mesma sociedade de que falo é a audiência à qual o anúncio é destinado, a qual este pretende persuadir.)

Admito, no entanto, que o facto de este argumento constituir uma falácia informal é discutível, pois a este facto estão subjacentes outras questões altamente controversas, nomeadamente a discussão dos direitos dos animais.

Sem comentários: