quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O que pode justificar o reconhecimento de direitos aos animais?


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As qualidades que os seres humanos atribuem a alguns animais não humanos (a fidelidade dos cães, a beleza dos tigres, etc.) serão relevantes no que diz respeito ao reconhecimento dos seus direitos? Em caso afirmativo, significará isso que os animais que, por exemplo, não são fiéis nem belos, não têm direitos ou têm menos direitos que os outros?

Ou, pelo contrário, o reconhecimento de direitos aos animais não humanos deve ser feito independentemente da sua eventual relação com os seres humanos?

Estas questões pressupõem que se deve reconhecer direitos aos animais, mas será que se deve? Porquê?

Nota: Agradeço ao meu colega Luís Santos o envio do video.

O que é um argumento?


“Um argumento é um conjunto de proposições que utilizamos para justificar (provar, dar razão, suportar) algo. A proposição que queremos justificar tem o nome de conclusão; as proposições que pretendem apoiar a conclusão ou a justificam têm o nome de premissas.” (António Padrão, “Algumas noções de lógica”, www.criticanarede.com)

As premissas são as informações, os dados que à partida temos sobre um problema; a conclusão é uma consequência que, ao raciocinar, tiramos. Assim, a conclusão corresponde à nossa opinião sobre o problema, à nossa tese e as premissas são a maneira que temos de justificar a conclusão a que chegámos.

Um argumento possui uma conclusão e uma ou várias premissas.

Os argumentos são conjuntos de proposições, mas nem todos os conjuntos de proposições são argumentos. Um argumento é mais do que uma lista de proposições. Para se tratar de um argumento as proposições têm de estar organizadas de um modo tal que uma delas (a conclusão) se apresente como a consequência das outras (as premissas). Dito por outras palavras: as premissas devem apresentar-se como uma justificação ou apoio da conclusão. Essa relação existe no exemplo A mas não no B. Por isso, este não é um argumento.

Exemplo A: Hoje estou cansado e, dado que amanhã tenho muito que fazer, devo descansar. Por isso, não irei ao cinema.

Exemplo B: A Cecília é simpática e vive em Loulé. Além disso, a Cecília quer ir para a Universidade.

A expressão “Por isso” (usada em A) é um indicador de conclusão. Normalmente diz-nos que a frase a seguir apresentada constitui a conclusão. Há outras palavras e expressões que também têm esse papel: “Logo”, “Portanto”, “Consequentemente”, etc.

A expressão “dado que” (usada em A) é um indicador de premissa. Normalmente diz-nos que a frase a seguir apresentada constitui uma premissa. Há outras palavras e expressões que também têm esse papel: “Pois”, “Porque”, “Devido a”, etc.

Uma vez que num argumento a conclusão é uma consequência das premissas, a forma mais clara e explícita (a forma padrão ou a expressão canónica, como dizem os lógicos) de apresentar o argumento é apresentar primeiro as premissas e depois a conclusão – antepondo-lhe a palavra “Logo” para não restarem quaisquer dúvidas.

Todavia, no dia-a-dia as pessoas pensam e falam de modo mais livre e espontâneo e habitualmente não usam a expressão canónica dos lógicos. Assim, além dos argumentos em que a conclusão surge no final, podem-se encontrar argumentos em que a conclusão surge no início ou mesmo no meio.

Exemplo C: Todos os cidadãos com direito de voto devem votar, pois só votando poderão ter uma palavra a dizer nas decisões políticas. Ora, numa democracia os cidadãos devem ter uma palavra a dizer nas decisões políticas.

Exemplo D: Ler livros estimula a inteligência e melhora a capacidade de expressão, como tal deves ler livros. Além disso, os livros não são caros.

No exemplo C a conclusão é “Todos os cidadãos com direito de voto devem votar” e no exemplo D é “deves ler livros”. O que conta para uma frase ser a conclusão de um argumento não é a posição que nele ocupa, mas a relação que tem com as outras frases. As frases referidas constituem a conclusão dos seus argumentos pois derivam das outras frases, são consequências delas e são por elas justificadas.

No dia-a-dia também é frequente surgirem argumentos em que não existem indicadores de premissa nem de conclusão. É o que sucede no exemplo E, a seguir apresentado. A sua conclusão é “As guerras deviam acabar”, pelas razões referidas no parágrafo anterior.

Exemplo E: As guerras deviam acabar. Numa guerra morrem sempre inocentes e a morte de inocentes é uma grande injustiça.

Outra situação frequente é surgirem argumentos contendo uma ou mais premissas ocultas (implícitas, subentendidas). Esses argumentos chamam-se entimemas. Como essas premissas omitidas podem dar origem a confusões, ao reescrever o argumento para o expressar de modo canónico devemos explicitar tais premissas. No exemplo F, a seguir apresentado, a premissa oculta é: “As coisas que violam os direitos humanos devem ser proibidas”. Note que, se essa ideia não fosse subentendida, não se conseguiria justificar a conclusão – que é “A mutilação genital feminina devia ser proibida”.

Exemplo F: A mutilação genital feminina devia ser proibida, porque constitui uma violação dos direitos humanos.

Aplique os seus conhecimentos.

a) Diga se os exemplos a seguir apresentados constituem ou não argumentos.
b) Caso sejam argumentos, diga qual é a conclusão.
c) Caso possuam premissas ocultas, explicite quais são.

1. “Estava um cão no estábulo e, apesar de alguém lá ter estado e ter levado para lá um cavalo, o cão não ladrou. É óbvio que o visitante era alguém que o cão conhecia bem.” Sherlock Holmes, em A Aventura de Silver Blaze, de Conan Doyle.

2. Não podemos permitir o aborto porque é o assassínio de um inocente.

3. «[Depois do terrível ataque efectuado pelos orcs e por um troll] Aragorn levantou Frodo, que estava caído junto da parede, e dirigiu-se para a escada, a empurrar Merry e Pippin à sua frente. Os outros seguiram-nos. Mas Gimli teve de ser arrastado por Legolas; apesar do perigo, o anão parara junto do túmulo de Balin [seu primo], de cabeça baixa. Boromir puxou a porta oriental, a ranger nos gonzos.» J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis – A Irmandade do Anel, Publicações Europa-América, pág. 374.

4. Sócrates não era um Deus. Com efeito, os deuses são imortais, ao passo que Sócrates não era imortal.

5. A interrupção voluntária da gravidez resulta da liberdade de escolha, que é um direito democrático. Como tal, não deve ser penalizada.

6. “Um protão é uma infinitésima parte de um átomo, que em si próprio já é também uma coisa insubstancial. Os protões são tão pequenos que a porção de tinta usada para pôr a pinta neste i pode conter qualquer coisa como 500 000 000 000 protões, mais que do que o número de segundos em meio milhão de anos.” [Bill Bryson, Breve História de Quase Tudo, Quetzal Editores, pág. 25]

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

2 sugestões para a nova ministra da educação

1. Mudar o programa de Filosofia.

A proposta de programa apresentada pelo Centro para o Ensino da Filosofia e pela Sociedade Portuguesa de Filosofia (em Julho de 2000) seria – eventualmente com algumas alterações – uma boa alternativa. (Encontra essa proposta aqui.)

2. Reintroduzir o exame nacional de Filosofia no 11º ano, mas desta vez com carácter obrigatório.

Para que a existência de um exame nacional obrigatório a Filosofia melhorasse a qualidade do ensino e da aprendizagem, e não constituísse um desastre no que diz respeito às classificações, seria necessário que o exame só se começasse a realizar quatro anos após a entrada em vigor do novo programa (para haver dois anos de treino, um no 10º e outro no 11º). Seria também indispensável que, entretanto, se realizassem acções de formação com qualidade científica e pedagógica para a generalidade dos professores de Filosofia.

Claro que, para isso ser realizável, seria necessário que as políticas educativas, contrariamente ao que tem sucedido até à data, fossem pensadas e planeadas - e não improvisadas em cima do joelho, ao sabor das sondagens e das mais variadas pressões.

sábado, 24 de outubro de 2009

A negação de proposições condicionais

A frase “Se a Yolanda estuda, então passa de ano” exprime uma proposição condicional. Esta é uma proposição composta de duas proposições mais simples ligadas pelo conector “Se… então” (ou outros equivalentes, como por exemplo “Caso”). Costuma chamar-se a estas “antecedente” e “consequente”. O que é dito na antecedente constitui uma condição suficiente relativamente àquilo que é dito na consequente. No caso do exemplo, a expressão “condição suficiente” significa que basta (= é suficiente) a Yolanda estudar para conseguir passar de ano. Pode-se também dizer que a antecedente implica a consequente.

Nega-se uma proposição condicional afirmando a antecedente e negando a consequente: “Yolanda estuda, mas não passa de ano”.

A negação de uma condicional não é outra proposição condicional, mas sim uma conjunção. Em vez de “mas” também se pode usar o conector “e”.

Porque é que uma condicional se nega desse modo? Para responder a esta questão é preciso perceber em que condições uma proposição condicional é verdadeira ou falsa.

Há quatro circunstâncias possíveis, que no caso do exemplo dado são:

1. Yolanda estuda e passa de ano.

2. Yolanda não estuda e não passa de ano.

3. Yolanda não estuda e passa de ano.

4. Yolanda estuda e não passa de ano.

(Nos livros de Lógica estas quatro circunstâncias não costumam ser apresentadas por esta ordem, mas optei por ela por ser a mais intuitiva.)

Em 1. a antecedente e a consequente são ambas verdadeiras. Nessa circunstância a condicional é obviamente verdadeira: verificou-se aquilo que nela está enunciado – estudar levou a Yolanda passar de ano. O facto da Yolanda ter estudado e o facto de ter passado de ano confirmam a veracidade da relação enunciada na condicional.

Em 2. a antecedente e a consequente são ambas falsas. Nessa circunstância a condicional continua a ser verdadeira. O facto da Yolanda não ter estudado e o facto de não ter passado de ano não anulam a veracidade da relação enunciada na condicional. Imagine que um professor tinha dito a Yolanda “Se estudas, então passas de ano” e que agora esta alegava que tinha sido enganada. O professor poderia responder: “O que eu te disse é verdadeiro. Se tivesses estudado, terias passado de ano.”

Em 3. a antecedente é falsa e a consequente é verdadeira. Nessa circunstância a condicional continua a ser verdadeira. Esta assegura que basta estudar para passar de ano, mas não diz que essa é a única maneira de passar de ano, não diz que não há outros factores que permitam passar (copiar ou ameaçar o professor, por exemplo). Por isso, o facto da Yolanda não ter estudado e o facto de ter passado de ano não anulam a veracidade da relação enunciada na condicional.

Em 4. a antecedente é verdadeira e a consequente é falsa. Nessa circunstância a condicional é falsa. Caso estude e não passe, a Yolanda já tem motivos para dizer ao tal professor que este disse uma falsidade. Este tinha assegurado que estudar era uma condição suficiente para a Yolanda passar, ou seja, que bastava ela estudar para passar. E isso não se verificou: uma coisa não levou à outra. Daí que, nessa circunstância, a condicional seja falsa.

Em síntese:

ANTECEDENTE

CONSEQUENTE

CONDICIONAL

Verdadeira

Verdadeira

Verdadeira

Falsa

Falsa

Verdadeira

Falsa

Verdadeira

Verdadeira

Verdadeira

Falsa

Falsa

Regressemos então à negação. Ao negar uma certa proposição obtemos uma outra proposição que tem necessariamente de possuir um valor de verdade diferente da proposição inicial. Se a proposição inicial é falsa a sua negação tem de ser verdadeira. Se a proposição inicial é verdadeira a sua negação tem de ser falsa. Não podem ser ambas verdadeiras nem ambas falsas. Ou seja: a proposição inicial e a sua negação têm de ser proposições contraditórias. Por exemplo: ao negarmos a proposição verdadeira “Florença é uma cidade italiana” obtemos a proposição falsa “Florença não é uma cidade italiana”.

Ao negar uma proposição condicional afirmamos a antecedente e negamos a consequente, pois isso equivale a dizer que a antecedente é verdadeira e a consequente é falsa – que, como vimos, é a única circunstância em que uma proposição condicional é falsa. Ao fazer isso estamos a mostrar que, contrariamente ao que tinha sido dito nessa proposição, a antecedente não é uma condição suficiente da consequente. Dito de modo mais coloquial: estamos a mostrar que uma coisa não leva à outra e que a relação enunciada na condicional não ocorre.

A conjunção entre a afirmação da antecedente e a negação da consequente de uma condicional (ou seja, a negação desta) constitui uma proposição que não pode ter o mesmo valor de verdade dessa proposição condicional. Caso seja falso que “Se a Yolanda estuda, então passa de ano” tem de ser verdadeiro que “Yolanda estuda, mas não passa de ano”. E vice-versa: Caso seja verdadeiro que “Se a Yolanda estuda, então passa de ano” tem de ser falso que “Yolanda estuda, mas não passa de ano”.

Se tentássemos negar a condicional de outro modo não conseguiríamos obter uma proposição contraditória com ela e por isso não se trataria de uma autêntica negação. Por exemplo: “Se a Yolanda estuda, então passa de ano” e “Yolanda não estuda e não passa de ano” podem ser, em certas circunstâncias, ambas verdadeiras ou ambas falsas.

(Alguns leitores poderão achar útil o post Condições necessárias e suficientes: análise de um exemplo. Tendo em conta que o mesmo foi escrito a pensar nos alunos do 11º ano, não aconselho a sua leitura aos alunos do 10º ano.)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Matriz do 10º ano (turmas B, D, E e F)

 

ESCOLA SECUNDÁRIA DE PINHEIRO E ROSA

FILOSOFIA – 10ºANO                                                                                      Ano Lectivo: 2009-2010

Matriz do 1º Teste (Outubro)                                                                                  O Professor: Carlos Pires

 

Duração: 90 minutos.

Temas: Quais são as questões da Filosofia? O que é a filosofia? Lógica – os instrumentos da actividade filosófica.

Objectivos:

1. Conhecer a etimologia da palavra “filosofia”.

2. Conhecer a época e o lugar em que a filosofia surgiu.

3. Indicar os elementos centrais da filosofia: problemas, teorias e argumentos.

4. Conhecer exemplos de problemas filosóficos e distinguir problemas filosóficos de problemas não filosóficos.

5. Explicar e exemplificar o conceito de crença básica.

6. Mostrar em que medida a filosofia constitui uma reflexão acerca das nossas ideias e crenças mais básicas.

7. Mostrar em que medida a filosofia tem um carácter crítico e argumentativo.

8. Mostrar em que medida a filosofia é um estudo a priori ou conceptual.

9. Explicar em que medida, apesar do carácter conceptual da filosofia, as informações empíricas podem ter utilidade na reflexão filosófica.

10. Saber que as respostas dadas aos problemas filosóficos raramente são consensuais.

11. Conhecer argumentos a favor e contra a pena de morte.

12. Utilizar esses argumentos para justificar uma opinião pessoal acerca do carácter justo ou injusto da pena de morte.

13. Indicar o objecto de estudo da Lógica.

14. Explicar o que são proposições.

15. Analisar exemplos, distinguindo frases que expressam proposições de frases que não expressam proposições.

16. Conhecer exemplos de frases que expressem uma única proposição e de frases que expressem, cada uma delas, várias proposições.

17. Distinguir diferentes tipos de proposições: afirmativas e negativas; universais, particulares e singulares; disjuntivas e condicionais.

18. Analisar exemplos, identificando neles os diferentes tipos de proposições.

19. Reescrever frases para colocar as proposições na sua expressão canónica.

20. Explicar em que consiste a negação de uma proposição.

21. Explicar como se negam proposições universais, particulares e singulares (tanto afirmativas como negativas) e proposições condicionais.

22. Efectuar a negação de proposições apresentadas.

23. Explicar o que são proposições contraditórias.

24. Explicar a utilidade da negação na argumentação.

25. Explicar como se podem refutar proposições universais através de contra-exemplos.

26. Explicar o que é um argumento.

27. Analisar exemplos, distinguindo argumentos de não argumentos.

28. Analisar argumentos, distinguindo premissas e conclusão.

29. Conhecer indicadores de premissa e indicadores de conclusão.

Leituras obrigatórias no Manual: Da página 11 à página 14. Página 21.Da página 31 à página 37. Da página 42 à página 45.

Leituras aconselhadas no Manual: texto 4, página 27 e 28.

Leituras obrigatórias no blogue Dúvida Metódica: “Problemas filosóficos e problemas não filosóficos”, “Estudo da religião: a parte da Sociologia e a parte da Filosofia”, “O que é a Filosofia?” e “Identificação, classificação e negação de proposições”.

Leituras aconselhadas no blogue Dúvida Metódica: “Discutir ideias em vez de repetir frases”.

Bom Trabalho!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Desenhos com areia: será isto arte?

Muitos desenhos de Kseniya Simonova são (na minha opinião) belos. A sua realização revela perícia (eu, por exemplo, não seria capaz de fazer nenhum deles). É manifesto que exprimem ideias e sentimentos da autora. Esta, ao fazê-los e apresentá-los publicamente, comunica a outras pessoas essas ideias e sentimentos. Tal comunicação desperta emoções nessas pessoas e - presumivelmente – leva-as a reflectir e a debater acerca dos temas dos desenhos.

Serão estas razões suficientes para considerar artístico o trabalho de Kseniya Simonova?

O facto dos desenhos com areia serem efémeros poderá ser considerado uma razão para não serem considerados obras de arte?

O facto da generalidade dos especialistas em arte e dos artistas reconhecidos como tal, ignorar habitualmente os desenhos com areia e não os incluir nas suas listas de formas de arte, será razão suficiente para alguém que deles goste não os considerar obras de arte?

domingo, 18 de outubro de 2009

O tempo até pode ser relativo, mas a verdade não

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Do fotógrafo Fred Brommet, Jardim do Luxemburgo, Paris 1956.

A expressão “é relativo” refere, na linguagem corrente, algo que depende do ponto de vista de cada sujeito (ou seja: não é igual para todas as pessoas). Pode aplicar-se, por exemplo, ao modo como percepcionamos a passagem do tempo. Este não flui da mesma maneira em todas as situações, depende da perspectiva do observador: os cinquenta minutos de uma experiência agradável, parecem passar muito mais depressa que os dez minutos de uma experiência desagradável. Este facto é explicável, entre outras, por razões de natureza psicológica.

Daí que Einstein tenha dito, ironicamente, a propósito da teoria da relatividade que esta significa que se mede “o tempo de maneira diferente quando se está sentado sobre um fogão quente ou quando se tem num banco de jardim, uma bela rapariga sentada ao colo…”

Na filosofia, o relativismo foi formulado pela primeira vez por Protágoras ao dizer que “o homem é a medida de todas as coisas”. Tais palavras significam que a verdade depende do ponto de vista de cada um e que não existe, portanto, uma verdade objectiva e igual para todos. Esta teoria filosófica pode ser defendida a propósito do conhecimento em geral ou de uma área específica - por exemplo, a ética ou a estética. (Caso seja defendida a propósito do conhecimento em geral, tal teoria auto-refuta-se, pois afirma com pretensão de objectividade que não existe objectividade.)

É certamente verdade que  algumas crenças são relativas. Além de exemplos semelhantes ao referido no primeiro parágrafo, pode-se mencionar também algumas crenças que dependem de factores sociais e culturais. É o caso, por exemplo, dos hábitos ligados à alimentação. O carácter saboroso ou repugnante das larvas de bicho da seda (muito apreciadas na China e na Tailândia) não constitui uma verdade objectiva e igual para todos.

No entanto, isto não se passa com todas as crenças. A verdade das crenças científicas é independente de todo e qualquer factor cultural ou psicológico. E é argumentável que o mesmo sucede com pelo menos algumas crenças morais (por exemplo que a excisão e a discriminação racial são moralmente erradas).

Deste modo, ao pretendermos colocar um ponto final numa discussão (onde sobre o mesmo tópico existam interpretações opostas) dizendo, para calar o nosso interlocutor: “É relativo! É a tua opinião!” estamos a argumentar de um modo manifestamente errado. Quando se trata de analisar a verdade ou a falsidade de certas ideias é necessário distinguir a nossa convicção quanto a isso da própria verdade ou falsidade dessas ideias (que depende de algo exterior às nossas convicções).

Assim, não podemos confundir, como diz Stephen Law, «aquilo que é verdadeiro quanto à crença de uma pessoa com a verdade daquilo em que ela acredita. Pode ser verdadeiro que eu acredito que Paris é a capital da Alemanha. Isso não implica que “Paris é a capital da Alemanha” seja verdadeiro. Se assim fosse, eu transformaria qualquer afirmação em verdadeira se acreditasse nela, por exemplo: “Eu consigo voar”».

Portanto, uma crença só pode ser justificada se encontrarmos boas razões a favor da sua verdade. O essencial são as boas razões e não a força das convicções.

Notas:

A primeira citação foi retirada do livro, Nova Física divertida, de Carlos Fiolhais, Ed. Gradiva, pág.89.

A segunda foi retirada do livro, Filosofia, de Stephen Law, Editora Civilização, pág. 199.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Chet Baker: a passagem do tempo

 

Para ouvir outra versão de “Almost blue”, também de Chet Baker, clique aqui.

O Sopro sopra onde quer: homenagens a M. S. Lourenço

Em homenagem ao professor M. S. Lourenço (1936-2009), a Biblioteca Nacional organiza uma exposição intitulada: “O Sopro sopra onde quer”.

MOSTRA BIBLIOGRÁFICA | 12 a 31 Outubro | Sala de Referência da Biblioteca Nacional | Entrada livre.

“Esta exposição bibliográfico-documental pretende homenagear o escritor e tradutor, professor de Lógica e Filosofia da Matemática M. S. Lourenço, falecidoo_sopro_thumb no dia 1 de Agosto de 2009. A frase do título, o Sopro sopra onde quer, foi retirada do Evangelho segundo S. João (3, 8) e aparece citada sob a forma de mote por M. S. Lourenço ao longo do seu percurso intelectual. Centrando-se no início deste percurso, a exposição desenvolve-se sob o signo desta alusão bíblica (…).

A presente mostra cobre aproximadamente 10 anos, desde as primeiras experiências literárias de M. S. Lourenço e da colaboração no jornal Encontro até à saída de Portugal em 1965, para estudar Filosofia da Matemática em Oxford sob a orientação de Michael Dummett. A contextualização que se oferece das primeiras obras que assinou circunstancia a singularidade da sua criação intelectual.”

Para saber mais, veja AQUI.

Além disso, no dia 28 de Outubro às 18h30, na sala 5.2 da Faculdade de Letras (UL), será lançada a obra poético-literária reunida de M. S. Lourenço:
O Caminho dos Pisões
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Participantes: Fernando Martinho, Miguel Tamen e João Dionísio.

Informação recebida dos organizadores.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Discutir ideias em vez de repetir frases

Uma proposição é a ideia (ou pensamento) expressa por uma frase declarativa com sentido.

Frases diferentes podem exprimir a mesma proposição. Por exemplo, as três frases seguintes exprimem exactamente a mesma proposição: A pena de morte é moralmente errada. A pena de morte é incorrecta em termos morais. The death penalty is morally wrong.

Este não é um mero pormenor “técnico” e sem interesse filosófico. Pelo contrário. Na filosofia analisam-se e discutem-se proposições. Ou seja: analisam-se e discutem-se ideias e não as frases que as transmitem. Não é propriamente a frase escrita pelo filósofo X ou Y que interessa, mas sim a ideia por ela transmitida – será uma ideia verdadeira ou falsa?

Do mesmo modo, um aluno não se deve preocupar especialmente com a frase que o professor disse ainda há pouco e que ele não conseguiu escrever no caderno, mas sim com o que o professor queria dizer com essa frase; ou seja, com a proposição – que pode ser expressa através de outra frase diferente. O que esse professor, caso tenha um entendimento correcto da filosofia, esperará do aluno é que este compreenda a ideia e a discuta – e não que repita a sua frase tintim por tintim.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Examinar a vida: valerá a pena o esforço?

Uma vida examinada

"Uma vida não examinada pode não valer a pena ser vivida, mas examinar a minha é esgotante."

Este e outros cartoons da autora podem encontrar-se aqui.

Sócrates, um dos mais conhecidos filósofos gregos, foi condenado à morte em 399 (a.C.). Não escreveu nenhum livro. O que sabemos sobre ele deve-se, entre outros, ao testemunho do seu discípulo Platão. Nos diálogos que este escreveu Sócrates é uma figura central.

Na Apologia de Sócrates, Platão apresenta o discurso proferido em tribunal pelo seu mestre. Acusado, entre outras coisas, de “fazer do argumento fraco o argumento forte, ensinando os outros a fazerem como ele”, e corrompendo assim a juventude, Sócrates defendeu-se dizendo que nada mais fazia do que examinar-se a si próprio e aos outros com o objectivo de descobrir alguém mais sábio do que ele (que reconhecia nada saber sobre o bom, a virtude e o belo, por exemplo). Eis as suas palavras:

“Nada mais faço do que andar pelas ruas a persuadir-vos, jovens ou velhos, a cuidardes mais da alma que do corpo e das riquezas, de modo a que vos torneis homens excelentes.

Se, ao dizer isto, estou a corromper os jovens, mal vão as coisas. Mas, se alguém afirmar que eu digo mais do que isto, afirma falsidades (…).

Pois, se me matardes, sendo eu como sou, fareis mais mal a vós próprios do que a mim. Poderiam talvez matar-me, banir-me ou privar-me de direitos, pensando como outros que são estas coisas grandes males. Mas eu não penso assim. O que penso é que quem o fizer está a fazer a si próprio muito pior, por tentar matar injustamente um homem. Por isso, preciso muito mais de vos defender a vós do que de me defender a mim (…). Isto porque, se me matardes, não encontrareis com facilidade outro como eu que – para falar gracejando – se agarre à cidade como um moscardo a um cavalo forte e de bom sangue que, por causa do tamanho, precisa de ser despertado por um aguilhão (…).

E se eu disser que o maior bem que pode haver para um homem é, todos os dias, discorrer sobre a excelência e sobre outros temas acerca dos quais me ouvíeis dialogar, investigando-me a mim e aos outros. E se eu vos disser que uma vida sem pensar não é digna de ser vivida por um homem, ainda menos vos terei persuadido. É como digo, homens, não sois fáceis de convencer!”

Platão, A apologia de Sócrates, tradução de José Trindade Santos, 2ª Edição, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1990, pág. 85-87 e 94.

Terá Sócrates razão ao defender que uma vida sem pensar não é digna de ser vivida? Porquê?


domingo, 4 de outubro de 2009

Equívocos acerca do senso comum

A caracterização do senso comum como sendo um conhecimento prático é frequente. Consta de muitos livros de Filosofia (e de Sociologia). Contudo, essa caracterização não é rigorosa.

Vermeer a laiteira milkmaid Um conhecimento prático é um saber-fazer, consiste no conhecimento de uma actividade. É verdade que o senso comum inclui inúmeros conhecimentos práticos, tais como saber cozinhar ou saber andar de bicicleta. No entanto, inclui também conhecimentos proposicionais, conhecimentos por contacto, superstições e outras crenças, que não são saberes práticos.

O conhecimento proposicional é, tal como o nome indica, o conhecimento de proposições. Também é conhecido por “saber que”. Por exemplo: saber que a lixívia debota a roupa, saber que (em Portugal) a pena máxima é 25 anos de prisão, saber que a cor do luto (em Portugal) é o preto, etc. O senso comum inclui inúmeros conhecimentos desse género, que não têm manifestamente um carácter prático.

O conhecimento por contacto é o conhecimento que temos de coisas, lugares, pessoas, etc. É um conhecimento directo e presencial. Por exemplo: conhecer as divisões de uma casa, conhecer pessoalmente um indivíduo, etc. O senso comum inclui inúmeros conhecimentos desse género, que não têm manifestamente um carácter prático.

Uma superstição é uma crença falsa e sem justificação plausível. Por exemplo: acreditar que as doenças são provocadas por espíritos malignos, acreditar que ver gatos pretos traz infelicidade, etc. O senso comum de muitas pessoas (mas talvez não de todas) inclui superstições. Tais crenças supersticiosas não têm obviamente carácter prático.

Por outro lado, o senso comum inclui também crenças que seria errado considerar superstições (convicções morais, políticas, sociais, etc., tais como: acreditar que se deve pagar as dívidas, acreditar que não se deve matar pessoas inocentes, etc.). Todavia, tais crenças também não são saberes práticos.

Por isso, o conhecimento prático é apenas uma parte do senso comum.

É igualmente frequente chamar-se conhecimento vulgar ao senso comum. Todavia, essa denominação não é rigorosa.

Os conhecimentos práticos, proposicionais e por contacto que fazem parte do senso comum podem ser designados de vulgares, uma vez que a sua aquisição não implica aprendizagens formais e elaboradas. Contudo, as superstições que fazem parte do senso comum não constituem conhecimentos vulgares. Não por não serem “vulgares” e implicarem aprendizagens formais e elaboradas, mas porque, sendo crenças falsas e injustificadas, não são sequer conhecimentos.

É duvidoso que muitas crenças do senso comum que não são supersticiosas constituam, ainda assim, conhecimentos, pois, embora não sejam falsas, a sua justificação adequada não se faz no âmbito do senso comum – mas sim da Filosofia e de ciências como a Psicologia ou a Economia.

A teoria filosófica que define o conhecimento como sendo uma crença verdadeira justificada presta-se a algumas objecções, pois provavelmente essas três condições não são suficientes para haver conhecimento e é necessário acrescentar uma ou mais condições para haver conhecimento. No entanto, não parece haver dúvidas que são condições necessárias. Pelo que as crenças do senso comum que são falsas ou injustificadas não são conhecimentos.

(Se as crenças do senso comum que são falsas ou injustificadas não fossem falsas nem injustificadas e pudessem ser consideradas conhecimentos, não seriam conhecimentos práticos, mas sim conhecimentos proposicionais.)

Por isso, apenas uma parte do senso comum constitui conhecimento.

Na imagem: A Leiteira (1658-60), de Johannes Vermeer.

sábado, 3 de outubro de 2009

Identificação, classificação e negação de proposições

1.1 Dizer que as perguntas não têm valor de verdade significa que são falsas. Esta afirmação é verdadeira ou falsa? Porquê?

1.2 Se uma frase é declarativa, então tem valor de verdade. Esta afirmação é verdadeira ou falsa? Porquê?

1.3 Nem todas as frases declarativas são verdadeiras ou falsas. Esta afirmação é verdadeira ou falsa? Porquê?

1.4 Uma proposição é uma frase declarativa com sentido. Esta afirmação é verdadeira ou falsa? Porquê?

1.5 Frases declarativas diferentes podem expressar uma única proposição. Esta afirmação é verdadeira ou falsa? Porquê?

1.6 Uma frase declarativa só pode expressar uma proposição. Esta afirmação é verdadeira ou falsa? Porquê?

1. 7 Diga se as frases a seguir apresentadas exprimem ou não proposições.

A. A pena de morte é o castigo máximo que pode existir num sistema penal.

B. Existe pena de morte na Holanda?

C. Viva a vida!

D. Yolanda, vai ler aqueles textos sobre o problema da pena de morte.

E. Por favor, senhor juiz, não condene este homem à pena capital!

F. Que horror!

G. Juro que logo à tarde te explico porque é que o argumento da dissuasão não prova que a pena de morte é moralmente correcta.

H. Quem comete crimes muito graves merece um castigo muito severo.

I. A pena de morte é uma zona açucaradamente salgada e comprida, embora redonda e mais química que fria ou até verde.

2. Diga qual é o tipo das proposições expressas pelas seguintes frases:

A. Todos os crimes são puníveis com a pena de morte.

B. Nenhum crime é punível com a pena de morte.

C. Nem todos os criminosos são reabilitáveis.

D. Há julgamentos em que se cometem erros.

E. Sócrates foi condenado à pena capital.

F. O filósofo grego Sócrates não era culpado dos crimes de que foi acusado.

G. Se a pena de morte dissuade o crime, então o crime aumenta quando a pena de morte é abolida.

H. Certos políticos não cumprem as suas promessas.

I. Existem assassinos simpáticos.

J. Quase todos os caloiros aceitaram ser praxados.

K. Cada emigrante português é um caso especial.

L. Não há prisões à prova de fuga.

M. Caso não defendas a pena de morte és contra a segurança dos cidadãos.

3. Negue as proposições expressas nas alíneas A, B, C, D, E, F, G, L e M da pergunta 2.