domingo, 8 de março de 2009

Trabalhos dos alunos: Falácias na política

Pedi aos alunos das turmas A e C do 11º ano para realizarem um trabalho escrito sobre falácias informais, em que teriam que analisar discursos políticos ou publicitários e identificar e explicar as falácias lá existentes. O melhor trabalho foi feito pelos alunos: Marina Marcelo, Miguel Santos e Rui Viegas, do 11º A. Ei-lo.
Neste trabalho iremos analisar e reflectir acerca das falácias utilizadas em três vídeos referentes ao discurso político. Como o tema central do trabalho são as falácias, iremos definir brevemente este termo. Uma falácia é um argumento inválido que parece válido. Um argumento falacioso é um argumento enganador que não deve ser utilizado, caso estejamos empenhados em persuadir racionalmente o auditório. Existem falácias formais e informais - as primeiras dizem respeito à forma lógica dos argumentos (são exemplos: a afirmação do antecedente e a negação do consequente), enquanto que as segundas implicam a análise do conteúdo dos argumentos (como é o caso do apelo ao povo, do apelo à piedade ou do apelo à força). Neste trabalho irão ser analisadas apenas falácias informais.
Vídeo 1
video

Neste vídeo está presente o falso dilema ou falsa dicotomia. Esta falácia consiste na redução de todas as alternativas possíveis a duas. Supõe-se que estas são as únicas hipóteses possíveis e que são incompatíveis. É na falsidade desta suposição que reside a falácia, já que ignora o facto de poderem existir hipóteses intermédias.
Para criar a falsa suposição acima referida é utilizada a seguinte forma lógica: P ou Q. Não P. Logo, Q. Todos os argumentos com esta forma lógica são dedutivamente válidos e têm uma estrutura formalmente correcta mas não são argumentos sólidos porque a primeira premissa não é verdadeira.

Esta falácia é muitas vezes associada à expressão idiomática “ou tudo ou nada” - esta é uma expressão que retrata na perfeição o significado do falso dilema. Este tipo de falácia é (e foi) utilizado, muitas vezes, na religião. É o caso dos extremistas da religião muçulmana ou dos cristãos da Idade Média que realizavam cruzadas. Os fundamentalistas islâmicos actuais, por exemplo, estão tão obcecados, com uma certa interpretação da sua religião, que acabam por ter pensamentos como este: “Ou suicido-me e mato muitas pessoas com uma bomba ou nunca irei ser bem visto aos olhos de Deus”. É óbvio que este é um pensamento extremista, pois uma pessoa pode ser bem vista aos olhos de Deus sem prejudicar ninguém, mas sim fazendo o contrário, ou seja, ajudando os outros.
No vídeo escolhido, a falácia em questão é a seguinte: “Ou é maluquinho ou acredita em promessas do PS”. Analisando o exemplo em causa, podemos identificar a primeira premissa de um argumento falacioso (com a forma lógica acima referida), ao qual não é dada uma resposta explícita mas sim uma resposta implícita: como a maioria das pessoas não se acha maluca, acaba por aceitar, mesmo que inconscientemente, a conclusão de que acredita nas promessas do PS. Neste exemplo são apenas apresentadas duas hipóteses para o facto de alguém querer um referendo sobre o Tratado de Lisboa: ou se é maluco, ou se acredita nas promessas do PS. Como consequência desta afirmação são excluídas todas as hipóteses intermédias possíveis, mesmo quando estas existem: uma pessoa pode defender o referendo e não se identificar com nenhuma das hipóteses apresentadas – não é maluca, nem acredita nas promessas do PS (ou, até, identificar-se com os dois casos). Logo, o exemplo em causa é um falso dilema.
Vídeo 2
video

Neste vídeo é utilizada a falácia informal ad hominem, conhecida também por argumento contra o homem. É um tipo de argumento falacioso onde, em vez de se apresentarem boas razões, uma justificação racional que leve à aceitação da tese defendida, se fazem ataques pessoais ao orador. Este tipo de argumentação assenta na desqualificação da pessoa com quem se está a debater - fazendo determinadas acusações, que podem ser verdadeiras ou não, mas que nada têm a ver com o assunto em causa - pretende-se, deste modo, desvalorizar as razões apresentadas pelo adversário e mostrar a falsidade da sua tese.
Frequentemente, recorre-se a este tipo de falácia quando não se possuem argumentos racionais e lógicos para defender determinada tese, fugindo assim à verdadeira discussão das ideias. Esta falácia é uma forte arma retórica, apesar de não possuir bases lógicas, é uma forma irracional de argumentar que muitas vezes acaba por convencer o auditório.

Analisando agora o exemplo dado, podemos encontrar argumentos contra o homem em quase todas as palavras proferidas no vídeo, tais como “…Caluniador!...” ou “…Você é um mentiroso!...”. Tais afirmações apenas pretendem calar a pessoa que está a discutir com o Candidato à Presidência da República, este, ao ofender repetidamente o seu parceiro de discussão e gritar mais alto do que ele, está a impedi-lo de falar e de expor a sua opinião.
Assim, podemos perceber que o estudo das falácias informais é de enorme importância, pois permite-nos avaliar cuidadosamente os argumentos utilizados no quotidiano e noutras situações da vida, evitando que sejamos enganados sem nos apercebermos. Quanto maior for o nosso conhecimento nesta área, menor é a possibilidade disso ocorrer.
Vídeo 3
video

Neste discurso político está explicitamente a ser utilizada a falácia do apelo à força. Esta consiste em apresentar ameaças (físicas e/ou psicológicas) para levar o auditório a aceitar uma determinada conclusão. Porém, para persuadir racionalmente é necessário apresentar razões para sustentar a conclusão e não ameaças, seja de que tipo for.
No exemplo dado - o orador defende que as pessoas que estão a ter comportamentos anárquicos parem de o fazer. Para justificar tal afirmação, apela às forças armadas do seu país, em vez de apresentar motivos racionais. Assim, basicamente, está a dizer às pessoas que ou param ou será utilizada a força para as parar. Podemos até afirmar que, neste caso, o argumento propõe uma espécie de ultimato, pois ou o auditório aceita a conclusão pretendida ou sofrerá as consequências negativas, decorrentes do uso da força.

Para além análise das palavras utilizadas, também é interessante observar quem está a discursar: é usada uma postura corporal agressiva, que incita claramente à violência, tal como o tom de voz. Concluímos que a retórica, em especial a linguagem não verbal, é fundamental na transmissão da mensagem e complementa as palavras proferidas.
Quanto à avaliação moral da utilização desta falácia para a situação em causa, podemos imaginar o seguinte exemplo: um grupo de pessoas está a utilizar a violência para conseguir o que desejam, pondo em risco a vida de outras pessoas. Neste caso será moralmente correcto utilizar o apelo à força ou não?

Podemos responder de duas formas a esta questão: por um lado, podemos achar nunca se deve tentar manipular o auditório, mas sim apresentar razões para justificar a conclusão defendida. Mas, por outro lado, podemos afirmar, num certo contexto, seria correcta a utilização deste argumento – suponhamos que, muito provavelmente, o grupo de pessoas que está a utilizar a violência não pararia de o fazer apenas devido à apresentação de razões lógicas. Nessa situação concreta, a utilização de ameaças poderia ser um meio mais rápido e fácil de fazer com que a violência parasse, pondo a salvo as pessoas que se encontravam em risco.
Em suma, como o mundo não é perfeito e, talvez, muitas pessoas não se preocupem em procurar a verdade, nem é esta que permite ganhar muitas vezes as discussões, em certas situações concretas pode ser justificável a utilização deste tipo de argumento no discurso. Apesar disso, esta deve ser a excepção e não a regra pelo que, na maior parte das vezes, devemos tentar apresentar argumentos não falaciosos, com razões claras e premissas verdadeiras.


Para concluir o trabalho iremos realizar uma pequena relação entre os dois últimos vídeos. Estes remetem-nos para a seguinte questão filosófica que merece ser analisada e discutida: Será que é a melhor opção ser a maioria população a escolher os governantes do Estado?
Esta questão relaciona-se com os dois vídeos, na medida em que ambos os políticos se comportaram de um modo muito indelicado e não aparentam ser pessoas dignas de representar grandes grupos de pessoas: um deles apela à violência de um modo assustadoramente directo, enquanto outro em vez de responder às questões/afirmações de um modo racional e apresentando boas razões, prefere começar a ofender as pessoas que estão a falar com ele. Dado que é frequente as pessoas se deixarem persuadir por este tipo de discursos, estes dois exemplos (e muitos outros que conhecemos) podem fazer-nos duvidar da capacidade da maioria da população para escolher os seus próprios representantes.

É possível ter duas opiniões sobre este problema. Uma delas, defendida em muitos países afirma que os governantes devem ser escolhidos por toda a população. A outra opinião, que também faz sentido, é a de que nem todas as pessoas possuem informação suficiente sobre os candidatos em que vão votar, não possuem formação suficiente para perceberem verdadeiramente o papel do seu voto ou até mesmo não estão interessadas nesse assunto.
Na nossa opinião a segunda opção seria a mais correcta, se fosse possível criar uma entidade capaz de avaliar quem teria condições para votar ou não. Como seria muito difícil garantir que esta entidade fosse rigorosa e imparcial, pensamos que esta segunda hipótese tem interesse do ponto de vista teórico apenas, pois se a aceitássemos, com as condições disponíveis, esta acabaria por dar origem a governos cada vez mais semelhantes a ditaduras e com cada vez menos características democráticas.

Marina Marcelo, Miguel Santos e Rui Viegas.

Bibliografia:

Aires de Almeida e outros, A Arte de Pensar, Didáctica Editora, Lisboa, 2008.

DEF – Dicionário Escolar de Filosofia.

4 comentários:

Anónimo disse...

Muito Bom trabalho. Parabéns aos alunos e à professora.

Joaquim G.

Alferes disse...

Estou a começar a gostar de filosofia! Parabéns!

Anónimo disse...

Não conhecia o blog,encontrei-o por acaso e ainda não tive tempo de oo explorar bem, mas gostei muito do li.
Este trabalho sobre as falácias por exemplo é interessante
Também sou professora de filosofia e julgo que me poderá ser útil.
parabéns às autoras.
Berta

Maria das Dores disse...

Meu prof da faculdade me recomendou o blog, gostei, parabenizo o autor!
esta base sobre falácia informal me ajudou a entender melhor tais argumentos e agora sei identificar argumentos falciosos.
q tal vcs escreverem também sobre falácia formal!?
eu iria agradecer muito.
parabéns.