sábado, 21 de fevereiro de 2009

Trabalhos de alunos: sobre falácias informais

Pedi aos alunos das turmas B, D, E e F do 11º ano para realizarem um trabalho escrito sobre falácias informais, em que teriam que analisar um discurso político ou um anúncio publicitário e identificar e explicar as falácias lá existentes. O melhor trabalho foi feito pela aluna Joana Dias Afonso, do 11º D. Ei-lo.

video

A ideia deste trabalho era analisar anúncios publicitários ou discursos políticos, para podermos ter a noção que aquilo que nestes sempre nos pareceu tão certo e verdadeiro, não o é. A ideia destes, e mais especificamente da publicidade, já que vou analisar um vídeo publicitário, é tentar persuadir o receptor que determinada tese é boa.

Na publicidade, a maior partes das teses diz respeito a produtos comercias e a sua aquisição leva ao lucro da empresa produtora. Existe também outro tipo de publicidade onde a ideia é a solidariedade. No entanto, esta também tem o mesmo objectivo que é o lucro de uma determinada associação, mesmo que esse lucro sirva para financiar ajuda a alguém. Para convencer o receptor do anúncio, a publicidade usa as medidas mais apelativas mesmo que não estejam correctas do ponto de vista lógico. Geralmente essas ideias são falácias.

Uma falácia é um argumento (conjunto da tese e das razões que a defendem) que parece cogente mas afinal não é.

Isso pode dever-se ao facto de ser inválido mas parecer válido. A validade relaciona-se com a interligação entre a conclusão e as premissas e pode ser de dois tipos: dedutiva e não dedutiva. A validade dedutiva ocorre quando é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa. Pode ser formal ou informal. A validade não dedutiva ocorre quando é improvável, mas não impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Nesta categoria a validade é sempre informal. Para determinar a validade formal apenas é necessário analisar a estrutura lógica do argumento, enquanto que na informal é necessário conhecer o seu conteúdo. É este tipo de validade que a maioria dos argumentos na publicidade não cumprem. Ou seja, as principais falácias utilizadas na publicidade são falácias informais.

Uma falácia também pode ocorrer se um determinado argumento tem premissas que parecem verdadeiras mas afinal não são verdadeiras; e se o argumento é sólido (válido e com premissas verdadeiras) e parece que tem premissas mais plausíveis que a conclusão - para convencermos aqueles que ainda não estão convencidos – mas afinal isso não sucede.

O anúncio publicitário que analisei é um vídeo que passa principalmente uma mensagem visual e muito pouco falada. O objectivo principal, ou seja a tese que se pretende justificar, é a de que devemos doar dinheiro, entre outras coisas, para a associação espanhola AFANOC, que apoia crianças que sofrem de cancro.

O vídeo retrata uma criança do sexo feminino com cabelos compridos que tem um irmão que sofre de cancro. Quando os pais e o irmão estão ausentes, ela corta mechas de cabelo para ficar parecida com o irmão que está careca devido aos possíveis tratamentos de quimioterapia que deverá ser obrigado a fazer. Quando a família se reúne, o irmão tira o boné que usa para esconder a sua careca e dá-o à sua irmã, depois desta lhe oferecer as mechas de cabelo que cortou. O vídeo publicitário acaba com uma frase que, traduzida, é: “Não te pedimos mais do que possas dar”.

De acordo com a minha análise, as falácias que se encontram no anúncio são: a falácia do apelo ao povo, a falácia do apelo à piedade e a falácia da falsa analogia.

A falácia do apelo à piedade consiste em relegar para segundo plano as razões que deveriam justificar a tese e apelar à compaixão do auditório (pessoa ou pessoas que serão os receptores) do argumento em relação a quem o fez. É uma falácia presente no anúncio todo. Dá-nos pena uma criança sofrer duma doença tão horrível como o cancro, mas não podemos dar isso como razão para apoiarmos a instituição. Não que a conclusão não seja verdadeira, mas ela precisa de razões mais coerentes e menos emocionais do que o sofrimento e o sentimento de pena. Razões que realmente estejam relacionadas com a conclusão, como o facto da associação ser uma das melhores a apoiar crianças vítimas de doenças oncológicas ou de ser uma das que obtém maiores resultados a nível de taxa de sucesso de cura. Por muito que isto nos faça parecer frios e calculistas é assim que temos que proceder ao analisar um argumento publicitário ou qualquer outro tipo de argumento.

Outra falácia presente no anúncio é o apelo ao povo. Esta falácia consiste no apoio de uma tese com base no que é aceite pela maioria como verdadeiro. Apela à emoção de querer ficar integrado num grupo, num todo que é a sociedade. Para mim o aspecto no anúncio em que é utilizado esta falácia é no facto de ter sido uma criança a cortar o cabelo. Não que num adulto não causasse também um sentimento de respeito e admiração, mas o facto de ser uma criança faz com que nos queiramos sentir integrados na opinião geral de que as crianças têm sentimentos verdadeiros. É também utilizada uma família constituída por 4 elementos que é um dos valores populares mais enraizados. Até a própria menina no anúncio comete um apelo ao povo ao dar-lhe cabelo. Ela quer que ele seja igual as todas as outras pessoas.

Finalmente, considero que existe neste anúncio uma falácia que não foi muito fácil de achar e que considero muito subjectiva, dependendo do ponto de vista do espectador do anúncio. Como o anúncio não é falado, interpretei que uma das mensagens dos criadores do anúncio, era que nós espectadores e potenciais dadores de verbas para a instituição éramos como a menina que cortava o cabelo. Ou seja, ocorre aqui uma analogia que a meu ver é uma falsa analogia. Esta ocorre quando se comparam duas coisas e se verificam que elas têm determinadas semelhanças óbvias e se conclui que também têm outras menos óbvias. Só que nesta falácia desprezam-se diferenças importantes e que irão afectar a semelhança que se queria concluir. As semelhanças entre a irmã e o espectador têm a ver com o facto de ambos serem humanos, terem sentimentos e não gostarem de ver uma criança sofrer de cancro (duvido que exista algum ser humano que goste de ver crianças sofrerem destes tipos de doenças). No entanto existe uma diferença muito notória: não conhecemos as crianças na associação, enquanto que aquela menina conhecia o irmão e tem grandes laços de amor e amizade com ele e sente-se na necessidade de fazer algo que esteja ao alcance dela para ele não se sentir descriminado nem diferente. Por muitos sentimentos que possam advir do visionamento do vídeo, estes estarão sempre a um nível muito inferior aos revelados pela irmã. Não que contribuir com aquilo que temos não seja uma boa conclusão, só não é apoiada devidamente por esta subtil analogia.

Apesar de no fim ficarmos convencidos de que devemos apoiar a associação AFANOC, ao analisarmos bem o vídeo chegamos à conclusão de que este não nos apresenta as verdadeiras e boas razões para contribuirmos com aquilo que podemos. No entanto acho que se ele não contivesse estas falácias não seria tão persuasivo como é. Isto porque apela muito às nossas emoções e o ser humano é um ser vivo provido de reacções instintivas que são as emoções. É algo inerente a qualquer ser humano. Se o anúncio fosse feito com base em estatísticas e explicações da forma que a associação trabalha seria menos falacioso, mas menos interessante já que parecia um pouco computorizado. Desta forma faz-nos identificar mais com o anúncio, pois somos invadidos por um sentimento de pena pelo irmão e de admiração pela irmã. E o ser humano primeiro repara naquilo que é tocante e só depois naquilo que está correcto ao nível do pensamento.

Joana Afonso

4 comentários:

Aires Almeida disse...

Não sei como não reparei neste trabalho antes. Parabéns, Joana! Não te conheço, mas vejo aqui um caso invulgar: uma aluna fora de série para um professor fora de série.

Carlos Pires disse...

Obrigado pelas palavras simpáticas, Aires.

Quero confirmar que os teus elogios à Joana são de facto merecidos.

Cumprimentos.

Miguel Ponte disse...

Oi prof.
Gostaria de saber se na apresentação oral do meu trabalho posso utilizar o apoio do Power Point? Estou a pensar utiliza-lo principalmente para explicitar as falácias e identifica-las de modo mais claro.
Obrigado desde já,
Miguel Ponte

Carlos Pires disse...

Boa noite Miguel.
Claro que pode.
Bom fim de semana.