quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Falta de ideias gerais, reivindicações mesquinhas... Quem enfia o barrete?


“E mesmo quando se mostravam descontentes, como sucedia por vezes, o descontentamento não levava a coisa nenhuma, pois desprovidos de ideias gerais, só conseguiam canalizá-lo para reivindicações limitadas e mesquinhas. Os males maiores geralmente escapavam à sua percepção.”
George Orwell, Mil Novencentos e Oitenta e Quatro, Antígona, Lisboa, 1991, pág. 78.

George Orwell refere-se aos proles. Perceber quem são os proles é fácil: basta ler o romance, que (à semelhança de muitas obras - mas não todas - da melhor literatura, da melhor filosofia e da melhor divulgação científica) constitui um contra-exemplo à célebre máxima de Platão: “O belo é difícil”.
Menos fácil talvez seja perceber quem é que, na sociedade portuguesa actual, pode ser descrito com as palavras de George Orwell. Como é costume nestas coisas, é duvidoso que alguém vá enfiar a carapuça – ou o barrete, pouco importa o nome, pois o que está em causa é a necessidade da culpa morrer solteira.
Seja como for, como voto de Ano Novo deixo aqui o desejo de que em 2009 cada vez menos portugueses (nomeadamente no complicado sector do ensino, da aprendizagem e da política educativa) possam ser descritos pelas palavras de George Orwell que citei.
Complementarmente, desejo também que a crise económica não seja, afinal, tão grave como agora se prevê.

Podemos compreender um livro de Filosofia sem o ler até ao fim?

Foi Sócrates quem iniciou na filosofia a reflexão acerca da questão: Como é que devemos viver?

Este livro aborda com enorme clareza alguns dos problemas e das respostas dadas por teorias fundamentais da Filosofia moral a esta questão. É recomendado a todos aqueles que gostam de reflectir e argumentar acerca de problemas que dizem respeito não apenas aos filósofos, mas a todos os homens.

Destaco o interesse, em especial para os alunos do 10º ano, dos capítulos seguintes:

2. O desafio do relativismo cultural.

7. e 8. A abordagem utilitarista e o debate sobre o utilitarismo.

9. Haverá regras morais absolutas?

10. Kant e o respeito pelas pessoas.

11. A ideia de contrato social.

Como o próprio autor diz, no prefácio, acerca dos objectivos com que escreveu este livro:

“Fui guiado pelo seguinte pensamento: Imagine-se alguém que nada sabe a respeito do tema, mas deseja perder uma modesta porção de tempo a aprender. Quais são as primeiras coisas, e as mais importantes, que essa pessoa precisa de aprender? Este livro é a minha resposta a essa pergunta. Não tento abranger todos os temas desta área; nem mesmo tento dizer tudo quanto poderia ser dito sobre os temas tratados. Tento, isso sim, discutir as ideias mais importantes que um principiante deve enfrentar.” (pág. 9)

Os capítulos deste livro são autónomos, cada um deles pode ser lido independentemente dos outros, pois contém os dados necessários à compreensão do assunto em causa, sem que seja necessário ao leitor possuir o conhecimento dos capítulos anteriores.

Um desejo formulado, no prefácio, pelo autor é: “Se este livro for bem sucedido, o leitor ou a leitora aprenderá o suficiente para poder começar a avaliar, por si, para que lado pende a balança da razão”, isto porque “a filosofia, como a própria moralidade, é primeiro que tudo um exercício de racionalidade – as ideias que devem prevalecer são as que tiverem as melhores razões do seu lado.” (pág. 10)

A título de exemplo, cito uma passagem relativa à filosofia política, com uma questão final, colocada pelo autor, para os leitores reflectirem:

“Hobbes (um importante filósofo inglês do século XVII) começa por perguntar como seria se não houvesse regras sociais e nenhum mecanismo comummente aceite para as impor. Imaginemos, se quisermos, que não havia governos – nem leis, polícias ou tribunais. Nesta situação, cada um de nós seria livre de fazer o que quisesse. Hobbes chamou a isto estado de natureza. Como seria isto?

O resultado é, nas palavras de Hobbes, um «estado de guerra constante de um contra todos» (…).

Hobbes não pensava que fosse mera especulação. Sublinhou que isto é o que acontece de facto quando os governos caem, como durante uma insurreição civil. As pessoas começam desesperadamente a armazenar comida, a armar-se e a afastar-se dos vizinhos. O que faria o leitor se amanhã de manhã ao acordar descobrisse que por causa de uma catástrofe o governo tinha caído, não havendo leis, polícia ou tribunais em funcionamento?” (págs. 204 e 206)

Nota: As citações foram retiradas partir de James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Lisboa, 2004, Colecção Filosofia Aberta Edições Gradiva.

Podemos ganhar alguma coisa com a leitura de um livro de Filosofia?

Fernando Savater escreveu este livro para o seu filho de quinze anos porque, do seu ponto de vista, “a reflexão moral não é apenas um tema especializado, sobretudo para aqueles que desejem frequentar cursos superiores de filosofia, mas parte essencial de qualquer educação digna desse nome”.

Alguns dos problemas e das teorias abordados numa disciplina filosófica chamada Ética, como por exemplo: a liberdade, o determinismo e a consciência moral, são apresentados de forma interpelativa, numa linguagem clara e com casos ilustrativos que remetem para o cinema, para a literatura e para situações da experiência pessoal de cada um de nós.

Fazer pensar, quem não está muito disposto a isso, acerca da aplicabilidade das teorias filosóficas às questões da vida, é um dos objectivos deste livro.

Faço notar que irei considerar – para os meus alunos do 10º ano - a leitura de alguns dos capítulos da Ética para um Jovem como obrigatória durante o segundo período. Portanto, como poderão verificar entre as inúmeras vantagens de ler agora este livro, há uma muito significativa: realizar, com o tempo requerido a uma análise e reflexão cuidadosas, uma tarefa que contribuirá, talvez, para melhorar o desempenho na vida em geral (atrevo-me a dizer) e na disciplina de Filosofia em particular.

Eis algumas passagens para ilustrar o que já foi dito sobre a pertinência e o interesse deste livro:

“Na realidade existem muitas forças que limitam a nossa liberdade, dos terramotos ou doenças aos tiranos. Mas também a nossa liberdade é uma força no mundo, a nossa força. Contudo, se falares com as pessoas, verás que a maioria tem muito mais consciência daquilo que limita a sua liberdade do que da própria liberdade. Vão dizer-te: «Liberdade? Mas de que liberdade me estás a falar? Como seremos livres, se nos lavam o cérebro a começar pela televisão, se os governantes nos enganam e nos manipulam, se os terroristas nos ameaçam, se as drogas nos escravizam, e se além disso me falta dinheiro para comprar uma mota, que era o que eu queria?» Se reflectires um bocadinho, verás também que os que falam assim parecem queixar-se, mas na realidade estão muito satisfeitos por saberem que não são livres No fundo pensam:« Uf! Que belo peso tiramos de cima das costas! Como não somos livres, não podemos ter culpa de nada do que nos aconteça…» Mas eu tenho a certeza de que ninguém – ninguém – acredita deveras que não é livre, ninguém aceita sem mais que funciona como um mecanismo inexorável de relojoaria (…). Uma pessoa pode considerar que optar livremente por certas coisas em certas circunstâncias é muito difícil (por exemplo: combater firmemente um tirano) e que é melhor (…) lamber a bota a quem nos pisa a garganta. Mas nas tripas sentimos qualquer coisa que insiste em dizer-nos: «Se tivesses querido… »”(págs. 24-25)

“(…) vamos ver um belíssimo filme realizado e interpretado por Orson Welles: O Mundo a seus pés (Citizen Kane). (…) Kane é um multimilionário que, com poucos escrúpulos, reuniu no seu palácio uma enorme colecção de todas as coisas belas e caras do mundo. Tem tudo, sem sombra de dúvida e utiliza todos os que o rodeiam para obter os seus fins (…). No fim da vida, passeia sozinho pelos salões da sua mansão, cheia de espelhos que lhe devolvem mil vezes a sua própria imagem (…). Acaba por morrer, murmurando a palavra: «Rosebud» (…) o nome escrito num trenó com que brincava em menino (…). Pode-se ser esperto para os negócios ou para a política e um solene asno para coisas mais sérias, como é este problema do viver bem ou não viver bem. Kane era espertíssimo no que se referia a dinheiro e manipulação de pessoas, mas acabou por se dar conta que estava enganado no fundamental. Errou quando mais lhe convinha acertar. Vou repetir-te uma palavra que me parece decisiva neste assunto: atenção. (…) Refiro-me à disposição para reflectir sobre aquilo que se faz e tentar precisar o melhor possível o sentido dessa «vida boa» que queremos viver (…).” (págs. 54-55 e 63)

“Um grande poeta e contista argentino, Jorge Luís Borges, faz no começo de um dos seus contos a seguinte reflexão sobre um certo antepassado seu: «Couberam-lhe, como a todos os homens, maus tempos para viver.» Com efeito, ninguém viveu nunca em tempos completamente favoráveis, em que fosse simples ser-se humano e viver uma vida boa. Sempre houve violência, espoliação, cobardia, imbecilidade (moral e da outra), mentiras aceites como verdades porque agradáveis de ouvir… A ninguém a vida boa é oferecida, e ninguém consegue o que lhe convém sem coragem nem esforço (…). A única coisa que te posso garantir é que nunca se viveu na Terra da Facilidade e que a decisão de viver bem temos que a tomar, cada um de nós, a respeito de nós próprios, dia a dia (…).” (págs. 76-77).

Nota: As citações foram retiradas a partir do livro de Fernando Savater, Ética para um jovem, Lisboa, 1993, Editorial Presença.

Este livro encontra-se disponível na Biblioteca da escola.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Para ser professor em Portugal é preciso saber distinguir as pistolas a sério das imitações

Ao falar acerca do incidente ocorrido no Porto, na Escola do Cerco, em que foi apontada uma pistola a uma professora enquanto um aluno lhe exigia nota positiva e outro filmava com o telemóvel, quase ninguém fez afirmações tão vergonhosamente relativizadoras e desculpatórias como Margarida Moreira, directora da Direcção Regional de Educação do Norte, e Manuel Valente, da Federação de Associações de Pais do Porto. Para Margarida Moreira a situação não passa de "uma brincadeira de muito mau gosto e que excedeu os limites do bom senso", enquanto para Manuel Valente "os professores, que têm também a sua parte de culpa, deveriam dar o exemplo e fazer o mesmo, desligando os seus telemóveis, ou colocando-os em modo de silêncio e abstendo-se de os usar durante as aulas".
Mesmo não indo tão longe, algumas pessoas diminuem a gravidade do sucedido, falando apenas de indisciplina e de má-educação.
Para perceber que o sucedido foi muito além da indisciplina e da má-educação, sugiro ao leitor para espreitar o blogue Verão Verde e ler um pouco acerca do significado da expressão "pistola de plástico":
«Quando se fala em "arma de plástico", tanto podemos estar a falar de um "brinquedo", como de uma "réplica" (...). A arma empunhada pelo aluno, que aparenta reproduzir uma arma real e com ela pode ser confundida por quem não seja um especialista...»
As pessoas que diminuem a gravidade do caso deviam tentar colocar-se no lugar da professora ameaçada e depois calar-se, pois manifestamente não sabem do que falam.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Indicações para o trabalho sobre falácias informais - turmas B, D, E e F do 11º

O trabalho é individual.

O trabalho consiste na análise de um anúncio publicitário ou discurso político. Nessa análise o aluno deve:

- Descrever aspectos relevantes desse anúncio ou discurso.

- Identificar as falácias informais presentes nesse anúncio ou discurso.

- Explicar em que consistem essas falácias.

- Mostrar porque é que essas falácias ocorrem nesse anúncio ou discurso.

- Discutir se esse anúncio publicitário ou discurso político seria persuasivo sem essas falácias.

Nota 1: Utilizei apenas o plural (“falácias informais”) por facilidade de expressão. No entanto, isso não significa que o aluno não possa escolher anúncios publicitários ou discursos políticos onde ocorra apenas uma falácia informal.

Nota 2: O aluno tem obrigação de identificar todas as falácias informais estudadas que ocorram no anúncio ou discurso escolhido. Caso também ocorram falácias informais não estudadas o aluno não será penalizado se não as identificar (mas se as identificar isso será valorizado).

O anúncio publicitário ou discurso político não pode ser inventado pelo aluno. Pode ser apresentado em papel, vídeo ou áudio. O aluno deve sempre apresentar o trabalho escrito em papel, mesmo que apresente o anúncio publicitário ou discurso político em vídeo ou áudio.

Critérios de avaliação:

- Correcta identificação das falácias.

- Explicitação dos conceitos filosóficos utilizados.

- Rigor conceptual.

- Estruturação do texto.

- Clareza do texto.

- Correcção linguística.

- Capacidade crítica.

- Aspectos formais (bibliografia, etc.)

O trabalho será avaliado no âmbito das Fichas e Trabalhos e terá peso 2.

Não será solicitado a todos os alunos que apresentem oralmente o trabalho. Essa apresentação será apenas pedida a alguns alunos em cada turma: os 2 ou 3 melhores e alunos cujo trabalho possa eventualmente suscitar dúvidas quanto à autoria.

Bibliografia sugerida:

- O Manual de Filosofia adoptado na escola: A Arte de Pensar – 11º Ano.

- Dicionário Escolar de Filosofia: http://www.defnarede.com/

- Guia das falácias de Stephen Downes: http://criticanarede.com/falacias.htm

Data de entrega: primeira aula da segunda semana do segundo período.

Bom Trabalho!