quinta-feira, 30 de outubro de 2008

" O tempo passado e presente"

" O tempo passado e presente" (1990)


"Paula Figueiroa Rêgo nasceu em 1935 em Lisboa. Partiu em 1954 para frequentar a Slade School of Art em Londres. Casada com um inglês permaneceu em Inglaterra, onde fixou residência, desde 1976. As suas raízes trazem-na regularmente a Portugal onde exibe com frequência.

Com um nome reconhecido em todo o mundo, é colocada entre os quatro melhores pintores vivos em Inglaterra."

Outros quadros de Paula Rego.

Qual dos personagens, o Calvin ou a Susie, está a agir de acordo com o princípio kantiano da moralidade?

"Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como um fim e nunca simplesmente como um meio.
(...) aquele que pensa fazer aos outros uma promessa enganadora logo se apercebe de que deseja servir-se de um outro homem como um simples meio, como se esse homem não encerrasse em si próprio um fim em si (...). Esta violação do princípio da humanidade noutrem é ainda mais flagrante se tomarmos por exemplo atentados contra a liberdade ou a propriedade dos outros. Porque nesse caso é evidente que aquele que viola os direitos dos homens tem a intenção de se servir da pessoa dos outros como um simples meio, sem considerar que as pessoas racionais devem sempre ser tratadas como fins, quer dizer, devem poder conter em si mesmas o fim dessa mesma acção ".

Emmanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Ed. 70 pp. 69-70

Pêssegos e duelos: exemplos ilustrativos do problema do livre-arbítrio

As nossas acções são realmente livres ou são determinadas por causas anteriores que não controlamos? Escolhemos de facto o que fazemos ou um certo conjunto de factores físicos, biológicos, culturais, etc., é que nos leva a fazer aquilo que fazemos?

Numa apresentação um pouco simplificada, este é o problema do livre-arbítrio. Temos ou não livre-arbítrio?

Eis três exemplos ilustrativos do problema: Évarist Galois aceitou participar num duelo (que sabia que ia perder), Jaime Neves recusou participar num duelo, uma pessoa Y qualquer comeu uma fatia de bolo e não um pêssego – terão agido livremente?

O matemático francês Évarist Galois foi, em 1832, desafiado para um duelo por um rival amoroso (o despeitado noivo de uma senhora da qual se enamorou e com quem teve uma breve relação). De acordo com as crenças e costumes da época, recusar um duelo constituía uma desonra, uma vergonha pior que a morte. Temendo a censura e o desprezo da sociedade e da sua amada, Galois aceitou o duelo. Sabia, porém, que o seu adversário era muito mais hábil com as armas que ele e que tinha poucas hipóteses de sobreviver.

Por isso, passou a noite anterior ao duelo a escrever apontamentos de algumas das suas ideias matemáticas (misturadas com exaltadas declarações de amor à referida senhora e queixas desesperadas relativamente à falta de tempo para escrever as suas ideias e impedir que morressem com ele). As ideias registadas à pressa nesses apontamentos ainda hoje são estudadas por muitos matemáticos e tiveram um papel importante no desenvolvimento da Matemática, nomeadamente da Álgebra.

Quando chegou a hora marcada, Galois largou a pena e dirigiu-se ao local combinado para o duelo. Como seria de esperar, foi atingido e morreu. Tinha 20 anos.

No dia 25 de Abril de 1974 as forças chefiadas pelo major Jaime Neves cercaram um local (salvo erro, a Legião Portuguesa, na Penha de França, em Lisboa) onde estavam aquarteladas forças leais a Marcello Caetano. Inicialmente o comandante dessas forças recusou render-se. Este propôs a Jaime Neves que, em vez de um conflito que podia provocar a morte de muitos civis, resolvessem o problema como “dois cavalheiros, à maneira antiga”: com um duelo entre ambos.

Jaime Neves terá respondido: “Tenha juízo homem! Renda-se imediatamente senão mando os meus homens dispararem.” E esse comande rendeu-se.

Jaime Neves não se sentiu desonrado ao recusar o duelo e a sociedade portuguesa não o censurou nem desprezou por isso.

“Supõe que estás na bicha de uma cantina e que, quando chegas às sobremesas, hesitas entre um pêssego e uma grande fatia de bolo de chocolate com uma cremosa cobertura de natas. O bolo tem bom aspecto, mas sabes que engorda. Ainda assim, tiras o bolo e come-lo com prazer. No dia seguinte vês-te ao espelho, ou pesas-te, e pensas: ‘Quem me dera não ter comido o bolo de chocolate. Podia ter comido antes o pêssego’.”

Thomas Nagel, O que quer dizer tudo isto? – Uma iniciação à Filosofia, Gradiva, 1995, pág. 45.


(Na imagem: Évarist Galois.)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

domingo, 26 de outubro de 2008

Filosofia das pequenas coisas: o dilema da oferta

A reflexão acerca de problemas filosóficos como o livre-arbítrio, a existência de Deus ou a eutanásia pode ser feita com vários graus de complexidade e exigência. Todavia, seja qual for esse grau, se for feita com seriedade implica sempre algumas dificuldades, pois leva-nos a analisar diversos argumentos e contra-argumentos, muitas vezes igualmente plausíveis. “Por isso, a filosofia é uma actividade de certo modo vertiginosa, e poucos dos seus resultados ficam por desafiar muito tempo” (Thomas Nagel, O que quer dizer tudo isto? – Uma iniciação à Filosofia, Gradiva, 1995, pág. 9.)

No entanto, a reflexão filosófica também pode incidir em assuntos menos complexos e, por assim dizer, mais “leves” e menos “elevados” que os direitos dos animais ou o problema da justificação do Estado.

No livro O Significado das Coisas, Gradiva, Lisboa, 2002, A. C. Grayling ilustra bem essa possibilidade ao dissertar filosoficamente sobre assuntos como as viagens, o lazer e os presentes.

O que pode a Filosofia dizer sobre um acto tão frequente e banal como oferecer presentes?

Grayling começa por defender o valor e a importância do acto de oferecer presentes:

“O valor de um presente não pode ser medido pelo seu preço. Nenhuma quantia pode exprimir o valor de um presente que seja apropriado, oportuno, ponderado, bem escolhido, ou dado com grande amizade ou amor. Tais presentes veiculam parte do dador: representam a parte da sua história dedicada a pensar no recipiente e a procurar e escolher algo que fale dos seus sentimentos. (...) As melhores prendas não vêm embrulhadas. Assumem a forma de atitudes, gestos e sentimentos, solidariedade e auxílio oportuno.”

Depois Grayling mostra o outro lado da questão. Os presentes (como aliás muitas outras coisas) podem ter – por assim dizer – efeitos secundários perversos:

“Mas os presentes são coisas complicadas. ‘O presente de um inimigo é prejudicial, e não é um presente’, disse Sófocles. Qualquer coisa que seja dada visando uma retribuição, ou criando expressamente uma obrigação, pode revelar-se demasiado cara para quem recebe, embora seja gratuita no momento da recepção. ‘Os presentes são anzóis’, advertiu Marcial. Uma consideração próxima desta é que quem recebe pode vir a sentir rancor relativamente a quem dá, quer seja ou não verdade a sua convicção de que o presente esconde um anzol. Quem dá tem melhores sentimentos em relação a quem recebe do que vice-versa; é bom e reconfortante dar, pois não há muito que possa adulterar a auto-satisfação envolvida – excepto, claro está, a ingratidão deselegante ou mesmo a mera indiferença por parte de quem recebe. Mas quem recebe tem de exprimir prazer e agradecimento que poderão não ser sentidos na quantidade normalmente requerida e, ainda por cima, fica a partir de então na posição desvantajosa de devedor. ‘Nunca perdoamos completamente quem dá. A mão que nos alimenta corre algum risco de ser mordida’, disse Emerson.”

Em suma, oferecer presentes não é algo tão complexo como o aborto ou o sentido da vida, mas mesmo assim levanta dificuldades e dúvidas que não são meramente práticas. Ao pensar sobre essas dificuldades somos levados a pensar na ética das relações pessoais, na amizade, no amor e no que sabemos realmente acerca dos outros.

“Para a maioria dos seleccionadores de presentes, subsiste o mais profundo dilema da oferta. Como escreveu Antonio Porchia: ‘Sei o que te dei, mas não sei o que recebeste’. Um pensamento ponderado mas que revela também esta verdade: se sabemos o que recebeu quem recebe o nosso presente, ou o conhecemos bem, ou o amamos muito – ou ambos.”

Oferecer ou não oferecer, eis a questão.

Já agora duas informações úteis. Para os leitores relacionados com a Escola Secundária de Pinheiro e Rosa: O Significado das Coisas existe na Biblioteca da Escola. Para todos os leitores: não é um livro caro e foca – em capítulos breves, claros e lúcidos – muitos outros assuntos, uns mais "leves" que outros (a Mágoa, a Esperança, a Mentira, a Lealdade, o Amor, a Felicidade, o Ódio, o Arrependimento, a Fé, o Cristianismo, a Arte, etc.).

E para terminar, eis outra questão: porque não lê-lo?

Filosofar acerca do bicho-papão


“De repente, ouviu-se um barulho atrás deles. O Piglet virou-se logo, muito aflito.
- Agora é que é! - gritou ele. - Vem aí o bicho-papão.
O Winnie e a Coruja também se viraram para ver o que seria, mas o bicho-papão já tinha desaparecido.
- Eu vi-o, tenho a certeza! – disse o Piglet, ainda sem fôlego por causa do susto. – Estava mesmo ali, a atravessar o carreiro!
- Ai, ai! – disse o Winnie. – Lembrei-me agora de que tenho uma coisa para fazer em casa.
- O quê? – perguntou o Piglet.
- Ir esconder-me debaixo da cama – respondeu o ursinho.
- Se quiseres podes ir para casa – disse a Coruja. – Mas quanto mais aprendemos sobre as coisas, menos assustadoras elas nos parecem. Mesmo os bichos-papões.
- Então vamos continuar – disse o Piglet.”


Ann Braybrooks, Winnie the Pooh - O Mundo da Coruja, Difusão Verbo, 2001.


Este texto (um excerto de um livro infantil) não é um texto filosófico, mas pode-se filosofar acerca dele – ou, para ser mais exacto, acerca das ideias nele contidas (tal como se pode filosofar a propósito de um quadro, de um poema ou de uma situação observada na rua).
As ideias presentes no texto são bastante comuns. Até certo ponto, uma criança pode compreendê-las e pensar um pouco acerca delas. É devido a essa possibilidade de compreensão que existe a Filosofia para Crianças.
Se a leitora ou o leitor tem irmãos ou filhos pequenos pode fazer uma experiência muito simples.
Leia-lhes o texto e converse com eles acerca da história. Ao longo da conversa vá fazendo perguntas: O que é conhecer? Conhecer é bom? Porquê? Não conhecer é mau? Porquê? O que é o medo? De que coisas temos medo? Porquê? A Coruja terá razão quando diz que aprender faz diminuir o medo? Porquê? Discuta as respostas deles e se possível faça novas perguntas a propósito dessas respostas. E, naturalmente, tente responder às perguntas deles.
Se fizerem isso, ou algo semelhante a isso, terão filosofado. Claro que terão sido apenas um ou dois passos no princípio de um caminho longo e por vezes difícil (embora repleto de belas vistas e outras compensações), mas não há nenhuma boa razão para não chamar a isso Filosofia. Mesmo que, quatro ou cinco passos mais à frente, as perguntas iniciais já pareçam mal formuladas e as respostas imprecisas e superficiais.
Qual é a definição etária de “irmãos e filhos pequenos”? Aproximadamente a partir dos quatro ou cinco anos (varia bastante de criança para criança) e até ao fim da infância e início da adolescência (o que também varia bastante).
No entanto, e sem querer ser crítico ou irónico em relação aos alunos do ensino secundário (longe de mim tal intenção), a experiência diz-me que muitos adolescentes ainda podem beneficiar com a aplicação da metodologia esboçada.

sábado, 25 de outubro de 2008

Os filósofos não andam com a cabeça nas nuvens

«No diálogo Teeteto, Platão refere: “Conta-se, acerca de Tales, que teria caído num poço quando se ocupava com a esfera celeste e olhava para cima. Acerca disto, uma criada trácia, espirituosa e bonita, ter-se-ia rido e dito que ele queria, com tanta paixão, ser sabedor das coisas do céu, que lhe permaneciam escondidas as que se encontravam diante do seu nariz e sob os seus pés.”
Platão acrescentou ao relato desta história, a seguinte afirmação: “O mesmo escárnio aplica-se a todos os que se ocupam da filosofia.” A filosofia é, portanto, aquele modo de pensar (…) acerca do qual as criadas necessariamente se riem.»

M. Heidegger, Que é uma coisa?, Edições 70, 1992, pp. 14-15.


Na linguagem do dia-a-dia a palavra “filósofo” é muitas vezes utilizada, pejorativamente, como equivalente a:

- “aquele que divaga: fala, fala e não diz nada”;

- “aquela criatura irritante que só sabe fazer perguntas”;

- “aquele que só tem teorias e é incapaz de apresentar soluções para os problemas práticos: fala mas não age, critica mas não faz”.

É verdade que esta caricatura descreve alguns daqueles que estudam ou ensinam Filosofia – nomeadamente, os que utilizam um discurso obscuro com uma terminologia filosófica pomposa, e supostamente erudita, que visa ocultar a falta de clareza das ideias ou até a ausência destas.

É fácil perceber porque motivo existe essa imagem negativa do filósofo, cuja tradição é longa (Platão descreveu-a a propósito de Tales de Mileto, considerado o primeiro filósofo). Basta considerar o facto de cada um de nós viver imerso em preocupações quotidianas de natureza prática e de, na voragem do dia-a-dia, o tempo e o distanciamento em relação ao imediato – condições necessárias à reflexão – serem, para a maior parte das pessoas, escassos ou inexistentes. Além disso, vivemos numa época em que a rapidez dos resultados e a mera eficácia prática são critérios essenciais para avaliar o sucesso de qualquer actividade.

Filosofar requer a análise e o questionamento das nossas ideias fundamentais, o conhecimento e o confronto com opiniões diferentes das nossas. Tudo isto surge aos olhos das pessoas “práticas” como algo bizarro e incómodo: Para quê pensar, se é mais fácil obedecer? Porquê adoptar uma atitude inconformista, se beneficiamos mais em seguir a opinião dos que detêm o poder? Para quê questionar as nossas crenças básicas, quando é muito mais fácil seguir as ideias feitas, a tradição, o senso comum, etc?

Por isso, para a maioria das pessoas ligadas a um qualquer poder instituído (seja ele de que natureza for) e aos interesses instalados, os que analisam e discutem ideias são um alvo a abater: é assim agora e sempre assim foi no passado (actualmente em Portugal podemos encontrar, nomeadamente nas escolas e nos partidos políticos, muitos exemplos que ilustram este facto). É natural que a esses importe transmitir da Filosofia e dos que dela se ocupam a visão caricatural a que Platão faz alusão.

Na Alegoria da Caverna, referindo-se à condição humana, Platão descreve o caminho árduo do prisioneiro em direcção à luz e ao conhecimento – no entanto será sempre nossa a decisão de escolher percorrê-lo ou optar por ficar no interior da caverna. Por outras palavras: escolher entre a lucidez decorrente da atitude crítica e uma vida vivida sem reflectir. Aos olhos das “criadas”, trácias ou não, o modo de pensar filosófico será sempre risível e os filósofos andarão sempre com a cabeça nas nuvens.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Trabalhos de alunos do 10º ano - 1

Consegues esclarecer o significado da imagem, identificando o problema apresentado e referindo exemplos da sua actualidade?
Eis duas das respostas dadas a esta questão (que fazia parte do teste diagnóstico do 10º ano, realizado no primeiro dia de aulas).


A imagem sugere a existência de problemas entre pessoas que são de raças diferentes e que apresentam opiniões e modos de vida opostos, apesar de poderem pertencer ao mesmo país. O problema apresentado é o desrespeito pelas pessoas diferentes, com base no seu tom de pele ou nas suas características físicas, e a sua dificuldade de integração na sociedade.

Não indo mais longe, no nosso país, os imigrantes oriundos de países com tradições e características diferentes do nosso são, por vezes, mal recebidos da nossa parte, não conseguindo, portanto, integrar-se na nossa sociedade. Isto faz com que as pessoas se juntem em grupos, vivendo assim num “mundo à parte” do nosso. Tudo isto tem como consequência o mau ambiente entre as pessoas nas cidades, vilas ou aldeias.

Eu penso que toda a gente deveria ser tratada do mesmo modo, independentemente da sua fisionomia e dos padrões culturais segundo os quais se rege. Acho mal as pessoas serem postas “à parte” devido às razões já anteriormente referidas.

As pessoas que são de outros países ou mesmo do nosso, mas com pontos de vista, religiões, opiniões em relação à política diferentes devem ser tratadas de igual modo. Devemos reger-nos pelos direitos humanos, principalmente, o da igualdade de direitos e deveres entre os diversos cidadãos.

Joana Santos Teixeira, Nº15, 10ºC


Na minha opinião, o problema apresentado refere-se ao racismo. O racismo é uma forma de pensar segundo a qual há seres humanos superiores e inferiores, dependendo do aspecto ou das características da sua raça. Quando uma pessoa discrimina outra por esta ser de cor diferente está a ser racista. As ideias racistas foram, durante muito tempo, e são ainda hoje nalguns países, uma das justificações para a escravatura: um acto horroroso em que alguns ser humanos compram ou vendem outros seres humanos e utilizam-nos, como se fossem objectos, para o que querem.

Eu penso que uma pessoa quando julga alguém pela sua aparência, pela sua maneira de pensar ou pelo factor social, é um ser insensível e ignorante. Muitas vezes os adolescentes sofrem muito devido ao racismo e não são só aqueles que vêem de outros países, mas também aqueles que são da mesma nacionalidade. A discriminação afecta também os que são da mesma cor, mas que têm opiniões e crenças diferentes dos colegas, por exemplo, e por isso são deixados de parte. Também há aqueles estudantes, que não têm nada com que se ocupar ou apenas gostam de fazer com que os outros se sintam mal e por isso julgam, ofendem e humilham um outro colega somente pela forma de vestir.

Eu não sou racista e também não conheço ninguém que o seja, mas julgo que todos nos devíamos dar bem e que ninguém é diferente: nós somos todos iguais.

O que interessa não é a cor, a maneira de vestir, o penteado, se é duma nacionalidade diferente ou se acredita noutra coisa, o que importa é a pessoa que está por baixo disso tudo, se é uma boa pessoa com valores bons, se é aquele amigo que nos apoia e que está lá quando precisamos ou se é apenas uma pessoa que não merece que a discriminem por ela simplesmente estar a tentar ser original. Vê lá dentro dessa pessoa, mas mesmo lá dentro, e depois diz, se vale mesmo a pena discriminá-la por ela não ser exactamente igual a ti.

Andreia Belmonte, Nº5, 10ºC


Diálogo


A propósito do Magalhães, dos quadros interactivos e até dos blogues de Filosofia:

"Apesar de todas as proezas tecnológicas, não se observa em filosofia qualquer avanço que suplante a prática socrática de conversar frente a frente com outra pessoa."

Alexander George (Org.), Que diria Sócrates?, Gradiva, 2008, pág. 12.

Vem a propósito referir que o livro Que diria Sócrates? (cujo subtítulo é: Os filósofos respondem às suas perguntas sobre o amor, o nada e tudo o resto) é constituído por dezenas de perguntas feitas por pessoas comuns a diversos filósofos e pelas respostas que estes lhes deram - no site AskPhilosophers: http://www.askphilosophers.org/.

(Na imagem: pormenor do quadro Escola de Atenas, de Rafael. O homem mais velho é Platão e o mais novo é Aristóteles.)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O amor à verdade

René Magritte, "Os amantes", 1928

Quando uma pessoa ama outra procura-a, gosta de estar com ela e de vê-la. Os amantes representados por René Magritte têm os rostos cobertos e certamente que não se conseguem ver um ao outro. Porque terá Magritte escolhido representá-los assim? O que queria ele dizer-nos?

(Ou será que não nos queria dizer nada? Será possível pintar um quadro como aquele e não querer transmitir nenhuma ideia?)

Etimologicamente, a palavra “filosofia” significa amor ao saber. O que é equivalente a dizer amor à verdade ou até desejo de aprender. Assim, um filósofo é um amante da verdade: tal como uma pessoa ama outra pessoa e sente desejo por ela, um filósofo ama a verdade e deseja possuí-la.

Mas, se um filósofo é um amante (da verdade), poderá ele estar retratado nesta pintura de Magritte?

Talvez a comparação não possa ser feita em todos os pontos, pois no quadro de Magritte o amor parece recíproco. Ora, embora faça sentido dizer que as pessoas amam a verdade, não parece fazer sentido dizer que a verdade ama as pessoas.

Esqueçamos a parte da reciprocidade. O que pode então significar a comparação entre um filósofo e uma pessoa que está diante do objecto do seu amor, mas de cara tapada e com os olhos vendados?

Significará que algumas pessoas, apesar de serem capazes de filosofar, não o fazem (talvez por preguiça) e como que fecham os olhos diante da vida?

Significará que algumas pessoas, apesar de serem capazes de filosofar, não o fazem por temerem aquilo que podiam descobrir (por exemplo que não sabem justificar as suas crenças mais básicas) e optam por viver iludidas?

Significará que um desejo muito forte e obsessivo por uma coisa, por exemplo a verdade, pode afinal afastar-nos dela?

A perspicácia


La clairvoyance, 1936

René Magritte nasceu em 1898, na Bélgica, e morreu em 1967. É considerado um pintor surrealista.

O que é o Surrealismo?

"La clairvoyance" pode ser traduzido por "A perspicácia". Porque é que Magritte deu esse nome ao quadro?

domingo, 19 de outubro de 2008

Valerá a pena estudar Filosofia?

Bibliografia:
Nigel Warburton,
Elementos básicos de Filosofia, 2ª Edição, 2007, Gradiva.

Condições necessárias e suficientes: análise de um exemplo


Uma condicional é uma proposição da forma: Se P então Q. Por exemplo: Se aquilo é um peixe, então aquilo é um animal.

Da explicação do conceito de proposição condicional fazem parte as ideias de condição necessária e de condição suficiente.

“Uma condição necessária é apenas a condição introduzida pela consequente de uma proposição condicional; e uma condição suficiente é apenas a condição introduzida pela antecedente de uma proposição condicional.”
Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, org. de João Branquinho e Desidério Murcho, Gradiva, Lisboa, 2001, pág. 151.

A antecedente da proposição condicional apresentada como exemplo é “aquilo é um peixe” e a consequente é “aquilo é um animal”.

Ser peixe é uma condição suficiente para ser animal. Ou seja: basta ser peixe para ser animal, aquilo que é peixe é automaticamente animal.

Porém, ser peixe não é uma condição necessária para se ser animal. Não é indispensável ser peixe para ser animal, pois há outros seres (como exemplo as ovelhas e as baleias) que não são peixes e são animais.

Por outro lado.

Ser animal é uma condição necessária para se ser peixe. É indispensável ser animal para se ser peixe. Não se pode ser peixe sem ser também animal.

Porém, ser animal não é uma condição suficiente para ser peixe. Com efeito, pode ser-se animal e mesmo assim não se ser peixe – como sucede com as já referidas ovelhas e baleias, mas também com os caros leitores deste post.

Dito de modo mais abreviado: o facto de algo ser peixe implica que seja animal, mas o facto de algo ser animal não implica que seja peixe.

Infelizmente existem exemplos de proposições condicionais muito mais complicados, em que não parece suceder aquilo que esperaríamos de uma proposição condicional verdadeira.

(Na imagem um peixe porco espinho.)

sábado, 18 de outubro de 2008

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Qual é a falácia informal presente neste velho anúncio?

Imagem retirada do blogue Ilustração Portuguesa - onde se podem encontrar centenas de 'scans' de antigas revistas portuguesas.
Poderá ser útil dar uma vista de olhos, nomeadamente quando for pedido aos alunos do 11º ano um trabalho sobre falácias informais



Disjunção inclusiva ou exclusiva?




Imagine que duas frases descritivas de cada uma das imagens são ligadas através do operador proposicional "ou", formando uma nova frase - uma disjunção.
Quais poderiam ser essas frases?
Tratar-se-ia de uma disjunção inclusiva ou exclusiva? Porquê?

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Razões para estudar para o teste de Filosofia

Para a semana há teste de Filosofia. Existem diversas razões (muito racionais e sensatas) capazes de justificar a ideia de que os alunos devem estudar, mas são tão óbvias que é escusado referi-las. Infelizmente, sucede frequentemente a algumas pessoas não se deixarem convencer pelas melhores razões.
Sugerir aos alunos dos autores deste blogue que, caso passem os próximos dias a ver TV e a jogar jogos de computador em vez de estudar, poderão ficar gordinhos como a personagem do cartoon, não seria certamente um modelo de justificação racional e sensata. Na verdade, seria um exemplo da falácia do apelo à força - como aprenderão daqui a algumas aulas.
A questão é: seria a falácia mais eficaz que uma justificação racional? Esperemos que não.

Podemos ser felizes aqui, se resistirmos às grandes ondas

Charles Schulz, Peanuts.


Embora não seja fácil, podemos tentar ser um pouco mais optimistas.


A Grande Onda de Kanagawa (em japonês 神奈川沖浪裏, Kanagawa oki nami ura) é uma famosa xilogravura de Katsushika Hokusai. Foi publicada em 1832.



Qualquer relação entre estas imagens, o sistema de avaliação dos professores (que está actualmente a ser implementado nas escolas portuguesas) e as condições de trabalho que são dadas à maioria dos professores é pura coincidência.

Matriz do 1º teste do 11º ano: turmas B, D, E, F

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Qual é a falácia informal presente no anúncio?


Publicidade ao Ford Lincoln, com ilustração de Anibal Tejada


Imagem retirada do Blogue Ilustração Portuguesa.


(Para ler o texto incluído no anúncio clique na imagem e depois aumente o zoom.)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O que é a filosofia? - O ponto de vista das crianças



Vídeo com uma reportagem televisiva (SIC) acerca da Filosofia para crianças. Interessante, pois as crianças têm realmente coisas a dizer.

Menos feliz é a expressão "Ciência do Pensamento" que aparece em rodapé. A Filosofia pensa acerca de muitas coisas, nomeadamente acerca da ciência, mas não é uma ciência.