domingo, 26 de outubro de 2008

Filosofar acerca do bicho-papão


“De repente, ouviu-se um barulho atrás deles. O Piglet virou-se logo, muito aflito.
- Agora é que é! - gritou ele. - Vem aí o bicho-papão.
O Winnie e a Coruja também se viraram para ver o que seria, mas o bicho-papão já tinha desaparecido.
- Eu vi-o, tenho a certeza! – disse o Piglet, ainda sem fôlego por causa do susto. – Estava mesmo ali, a atravessar o carreiro!
- Ai, ai! – disse o Winnie. – Lembrei-me agora de que tenho uma coisa para fazer em casa.
- O quê? – perguntou o Piglet.
- Ir esconder-me debaixo da cama – respondeu o ursinho.
- Se quiseres podes ir para casa – disse a Coruja. – Mas quanto mais aprendemos sobre as coisas, menos assustadoras elas nos parecem. Mesmo os bichos-papões.
- Então vamos continuar – disse o Piglet.”


Ann Braybrooks, Winnie the Pooh - O Mundo da Coruja, Difusão Verbo, 2001.


Este texto (um excerto de um livro infantil) não é um texto filosófico, mas pode-se filosofar acerca dele – ou, para ser mais exacto, acerca das ideias nele contidas (tal como se pode filosofar a propósito de um quadro, de um poema ou de uma situação observada na rua).
As ideias presentes no texto são bastante comuns. Até certo ponto, uma criança pode compreendê-las e pensar um pouco acerca delas. É devido a essa possibilidade de compreensão que existe a Filosofia para Crianças.
Se a leitora ou o leitor tem irmãos ou filhos pequenos pode fazer uma experiência muito simples.
Leia-lhes o texto e converse com eles acerca da história. Ao longo da conversa vá fazendo perguntas: O que é conhecer? Conhecer é bom? Porquê? Não conhecer é mau? Porquê? O que é o medo? De que coisas temos medo? Porquê? A Coruja terá razão quando diz que aprender faz diminuir o medo? Porquê? Discuta as respostas deles e se possível faça novas perguntas a propósito dessas respostas. E, naturalmente, tente responder às perguntas deles.
Se fizerem isso, ou algo semelhante a isso, terão filosofado. Claro que terão sido apenas um ou dois passos no princípio de um caminho longo e por vezes difícil (embora repleto de belas vistas e outras compensações), mas não há nenhuma boa razão para não chamar a isso Filosofia. Mesmo que, quatro ou cinco passos mais à frente, as perguntas iniciais já pareçam mal formuladas e as respostas imprecisas e superficiais.
Qual é a definição etária de “irmãos e filhos pequenos”? Aproximadamente a partir dos quatro ou cinco anos (varia bastante de criança para criança) e até ao fim da infância e início da adolescência (o que também varia bastante).
No entanto, e sem querer ser crítico ou irónico em relação aos alunos do ensino secundário (longe de mim tal intenção), a experiência diz-me que muitos adolescentes ainda podem beneficiar com a aplicação da metodologia esboçada.

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